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Bonequeiro Sérgio Tastaldi mostra em livro tudo o que criou e ensina técnicas

Obra de Sérgio Tastaldi, “Teatro feito a mão” foi lançado quinta-feira (7) no Espaço Oficinas do CIC

Paulo Clóvis Schmitz
Florianópolis
08/06/2018 às 17H44

Quando o menino Sérgio fez suas primeiras performances, na escada que dava para o quintal da casa dos pais, em São Paulo, ninguém apostaria que aquelas improvisações, apesar de espontâneas, eram a gênese de uma longa identificação com a arte de representar. A mãe trazia pipoca e suco de laranja para a pequena assistência, formada por amiguinhos da rua, e estes, quando o ator mirim demorava alguns dias para retomar as sessões, tocavam a campainha perguntando quando haveria teatro outra vez. Moedas, bolinhas de gude, frutas e chocolate pagavam pelo direito de fazer parte da plateia.

Sérgio Tastaldi projeta agora um filme em stop-motion e o espetáculo
Sérgio Tastaldi projeta agora um filme em stop-motion e o espetáculo "2D3D" - Daniel Queiroz/ND


É com este relato, repetido pelo autor sempre com renovada empolgação, que começa o livro “Teatro feito a mão”, do bonequeiro Sérgio Tastaldi, lançado quinta-feira (7) no Espaço Oficinas do CIC (Centro Integrado de Cultura), em Florianópolis. Paralelamente, uma exposição permite que o público conheça melhor os muitos objetos e bonecos que o artista criou, personagens como Papum (que ficou um ano e meio em cartaz na televisão), João (o do pé de feijão), Alice, Pinóquio e outros que podem
ser manipulados livremente. A mostra é interativa e tem como mote a expressão “Favor mexer!” – a criatividade do artista pode ser usufruída pelos pais e filhos que forem ao CIC até o dia 22 deste mês.

O livro é tanto o legado de um artista que, aos 72 anos, continua em plena atividade quanto uma contribuição do experimentado bonequeiro “a quem está aí e a quem está vindo”, ou seja, as novas gerações que trabalham com bonecos, sombras e animação. “É uma mescla de histórias de sucessos e de fracassos”, resume Tastaldi. Depois da pequena digressão às aventuras cênicas da casa paterna, ele fala, em outros 16 capítulos, de técnicas, materiais, truques, viagens e experiências de seus personagens. É quase didático e, à medida que enumera recursos, truques e efeitos, fala dos espetáculos que montou ao longo de quase 50 anos.

As bolinhas de gude, os pregadores de roupa da mãe, o lençol tirado do varal, o cirquinho que fazia embaixo das cadeiras, tudo o que remete à infância já criativa permanece porque Tastaldi segue criando, tendo as crianças como foco. É uma paixão que o conserva ativo, saudável – e feliz. “Tudo isso me manteve criança, e não quero envelhecer”, afirma, respaldado pelos projetos que ainda desenvolve. Depois de andarem pelo mundo, suas criações estão agora reunidas em livro, um documento que as preservará para sempre. E elas também estão na internet, o que as torna ainda mais permanentes e universais..

Passado de rupturas, futuro de planos

Dentista formado, Sérgio Tastaldi exerceu a profissão durante quatro anos antes de largar tudo em nome da arte. Foi uma decisão difícil, porque isso ia contra a tradição e as exigências familiares que preconizavam carreiras liberais – seu pai era médico e professor da USP (Universidade de São Paulo) e a única referência próxima fora da curva era um tio que “bebia muito e desenhava com a mão tremendo”, na expressão do próprio bonequeiro. Abraçar os “meandros negros da arte”, para repetir as palavras do pai, era uma aventura quase proibida. Mas para Sérgio, então com 24 anos, foi um passo fundamental, porque apontava no rumo da própria realização.

Sérgio Tastaldi - Daniel Queiroz/ND
Sérgio fabrica tudo que usa no teatro - Daniel Queiroz/ND


“Todos deveriam fazer o que gostavam de brincar quando eram crianças”, teoriza. No seu caso, nunca se arrependeu de trocar a frieza do consultório por um mundo em que enxerga sonhos, delírios e quimeras em todos os cantos. Junto à casa onde mora, no bairro Sambaqui, há uma profusão de bonecos, caixas, peças em desuso que vão compor cenários, materiais desorganizados que um dia terão utilidade. E livros em papel, porque eles confortam mais do que os e-books. Além de um escritório onde os textos e adaptações são escritos, as músicas são compostas, os espetáculos são planejados, os compromissos são agendados com rigor.

Os planos, aliás, não param de brotar. Agora, Tastaldi projeta um filme em stop-motion e o espetáculo “2D3D”, uma inédita incursão no teatro adulto que deve estrear ainda este ano. Utilizando recursos tradicionais e as novas tecnologias, ele pretende “mostrar como era o futuro no passado”. Nada mais sugestivo para quem brinca e convive com a fantasia em todas as horas do dia.

Com bonecos pelo Brasil e pelo mundo

No prefácio de “Teatro feito e mão”, o ator e professor Valmor Nini Beltrame destaca “a presença constante do menino inventor, brincalhão e contador de histórias”. Hoje, morando em Florianópolis, ele faz as mesmas coisas da infância e juventude no espaço de criatividade onde divide as atividades com a mulher Márcia Pagani, atriz, cantora e manipuladora de bonecos que Sérgio Tastaldi chama, na dedicatória, de “amada companheira” que faz tudo e mais um pouco ao seu lado e que “ainda ri das minhas piadas”. Para Beltrame, o livro vem se agregar ao pequeno volume de publicações sobre teatro de bonecos no Brasil, especialmente para ensinar a confeccionar títeres e seguir todas as etapas do ofício de bonequeiro – fazer, criar, construir, imaginar, atuar, experimentar.

Por economia e para criar sempre, Tastaldi fabrica tudo o que usa. No estúdio do Sambaqui, ele apresenta uma panela soldada em outra que reproduz uma praia com surfista e asa delta, um velho monitor de computador que simula uma viagem espacial, entre outros objetos que reaproveita sem receio. Ao compartilhar o que sabe, ele vai na contramão dos antigos bonequeiros que escondiam seus truques e descobertas. Assim como o professor Papum, ele se esmera para que outros aprendam, reproduzam e, se possível, o ultrapassem na maestria de criar. “O livro nada tem de acadêmico, não inclui citações, rodapés e referências a outros escritores ou bonequeiros”, avisa. “Os bonecos permitem um laboratório fantástico”.

Na sequência dos capítulos, o livro se detém nas diferentes modalidades do teatro de animação – bonecos, objetos, sombras, lambe-lambe, teatro negro, miniatura e formas animadas. Ele esmiúça as técnicas e conta como aprendeu a usar a luz negra, representar com caixinhas de histórias, fazer e manipular bonecos de luva, criar programas e personagens para a televisão, comerciais e campanhas – como o Dr. Yakult, o Tomi do “Xou da Xuxa”, o Dr. Misturinha, o próprio Papum. Este aliás, andou pelo mundo e entrevistou bonecos e bonequeiros respeitados na Itália, Alemanha, Eslovênia, Áustria e República Tcheca.

Os seus três filhos e os três filhos de Márcia Pagani participaram ativamente dos espetáculos do grupo quando eram crianças. Hoje, estão em diferentes lugares e profissões, mas admitem que o teatro lhes fez muito bem. Como antigamente, o bonequeiro se sente completo e identificado com o público infantil. “As crianças me rejuvenescem”, diz.

Criar sempre para ser feliz

Conversar com Sérgio Tastaldi é mergulhar no mundo dos bonecos e se encantar com eles. “Os bonecos me levaram para a Europa, o leste europeu e até para a Antártida (ali, sem fazer teatro)”, conta. Entre os produtos que criou está a websérie com uma “família” onde estão Papum e os amigos que vão chegando. Tem um árabe cujo tapete não voa porque está cheio de ácaros. Outro é um alienígena vermelho que nascera verde e, como tudo, “amadurecera”. Assim, além de divertir, ele vai passando às crianças noções de higiene e respeito à natureza. Criar bonecos não é fácil, mas eles trazem a vantagem de não terem outra vida fora do palco, não se irritarem ou exibirem o temperamento difícil de muitos atores de carne e osso.

Em seu currículo, Tastaldi tem passagens pelas principais emissoras de televisão do Brasil, foi diretor musical de shows de Jô Soares, trabalhou como chargista e ilustrador da “Folha de S.Paulo” e deu aulas na Unicamp (Universidade de Campinas). Na década de 1980, criou uma escola de desenho animado e foi premiado no Festival Internacional de Cinema de Cuba com o desenho animado “Cinema feito a mão”. Promoveu eventos, produziu programas infantis para TV e exposições que excursionaram pelo país. E escreveu, produziu e apresentou mais de 20 espetáculos, alguns ainda em cartaz.

Ele defende que escolas e empresas deveriam ter teatro de bonecos para alunos e funcionários, porque isso exercita a criatividade e humaniza as relações interpessoais. Com tanta experiência acumulada, Tastaldi garante que a liberdade é um fator de criatividade – o que explica sua remota decisão de trocar a rotina e a metrópole pela arte e por Florianópolis. “O ser humano precisa do processo criativo, isso o diferencia dos outros animais”, afirma. “Vou ser feliz enquanto puder criar”.

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