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Sexta-Feira, 24 de Novembro de 2017
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Extrativistas têm capacitação e água é monitorada para garantir qualidade do berbigão da Baía Sul

Intenção é garantir profissionalização e qualidade sanitária do molusco mais popular do cardápio tradicional de Florianópolis e região

Edson Rosa
Florianópolis
Fotos Daniel Queiroz/ND
Maior parte dos moluscos tem aparecido mortos ou vazios, com prejuízo a catadores


A coleta quinzenal de amostras da água em 42 pontos mapeados na baía Sul de Florianópolis, 24 na Costeira do Pirajubaé e outros 18 na Tapera, faz parte da primeira etapa do projeto Fortalecimento das Redes de Empreendimentos da Economia Solidária do Extrativismo do Berbigão. O trabalho é coordenado pelos técnicos Rafael Luiz da Costa e Gustavo Ruschel Lopes, da empresa Escritório do Mar, contratada por meio de licitação pública da Secretaria Municipal de Pesca e Maricultura para realização de análises durante todo este ano.

A prioridade no momento é investigar a causa de mortandade de moluscos, inclusive ostras e mariscos, na região. Atualmente, são sete áreas de extração na Tapera e outras sete na Costeira, atividade que garante a subsistência de pelo menos 200 famílias nas duas comunidades. O próximo passo será a capacitação dos catadores, com a oferta de cursos de assessoria administrativa e de manejo para qualificação sanitária do produto.

O projeto contempla, também, a aquisição de materiais e equipamentos de segurança no trabalho, como botas, luvas e rastelos, ou ganchos, como preferem os extrativistas. De acordo com o diretor de pesca e maricultura da Prefeitura de Florianópolis, Henrique da Silva, a intenção é despertar a consciência da população envolvida com a cadeia produtora para a importância do berbigão.

O projeto da empresa Escritório do Mar é resultado de parceria entre conselho deliberativo da Resex (Reserva Extrativista  Marinha do Pirajubaé),  Associação Caminhos do Berbigão (coletores da Costeira), Ministério do Trabalho e Emprego, Secretaria Municipal da Pesca e Maricultura e ICMBio (Instituto Chico Mendes da Biodiversidade). Na Costeira, o cronograma de trabalho envolvendo famílias cadastradas pela Associação Caminhos do Berbigão já está definido. Na Tapera, onde ainda não estão organizados em associação, os coletores têm sido informados individualmente.

 

Água é monitorada a cada 15 dias

O biólogo Andrei Ross, 40, analista ambiental do ICMBio na Resex do Pirajubaé, destaca um aspecto importante deste monitoramento abrangente da baía Sul. Serão coletadas amostras de pontos específicos para controle dos níveis de coliformes fecais, metais pesados, fósforo, potássio, amônia e oxigênio.

“Os estudos anteriores foram pontuais. Este é mais amplo, e permitirá que tenhamos um parâmetro da qualidade da água antes da provável instalação da estação de tratamento de esgotos no Rio Tavares”, diz. Para extrativistas e demais setores da cadeia produtiva, as análises periódicas definirão a necessidade ou não de novas medidas de proteção para garantir a qualidade do produto extraído da baía Sul. “Para o ecossistema, é importante para proteção da biodiversidade”, completa Ross.

Apesar dos distúrbios ambientais causados pelo aterro da Via Expressa Sul, o baixio de Tipitingas é o maior banco de berbigão do Sul do Brasil. Abrange a área marinha entre a foz do rio Tavares e a ilhota Dona Francisca, entre a Tapera e o Alto Ribeirão da Ilha.

O biólogo Andrei Ross explica que a hidrodinâmica local, com fraca movimentação das marés, é o segredo da fartura. “O banco é mais estabilizado e cria as condições adequadas para o molusco, que depende da medida certa entre lama e areia para se reproduzir em grande escala”, explica. O projeto Fortalecimento das Redes de Empreendimentos da Economia Solidária do Extrativismo do Berbigão foi viabilizado por convênio entre a Secretaria Municipal da Pesca e Maricultura e o Ministério do Trabalho e Emprego. Foram investidos R$ 650 mil do Governo Federal, com contrapartida da Prefeitura.

 

Mortandade da maior fonte de renda dos pescadores fica evidente no acúmulo de cascas

Mortandade assusta catadores

Nas praias da Mutuca, da Ilha [Dona Francisca] e do Berbigão, na Tapera, a comunidade extrativista espera com ansiedade o laudo das recentes análises da qualidade da água. A atividade foi suspensa há dois meses pelos próprios catadores, preocupados com a aparência escura do mar da enseada e, principalmente, com o índice de mortandade do molusco. O resultado das primeira amostras coletadas no local devem ser divulgadas nesta semana.

“Nunca vi desse jeito, está podre. Está morrendo tudo, grandes e pequenos”, diz Maria Aparecida Souza da Costa, 52, que perdeu a única fonte de renda da família. “Faço isso desde menina, não tenho mais idade para conseguir emprego fora”, emenda.

O acúmulo de cascas na área vasculhada diariamente é resultado da mortandade da principal fonte de renda de moradores como o vigilante André Moisés Fernandes, 34, que passou uma manhã inteira para catar pouco mais de 30 quilos. “A maior parte está vazia, ou com lama dentro”, mostra.

O fenômeno afeta também fazendas marinhas de cultivo de mariscos e ostras, confirma o maricultor Adriano Manuel da Silva, 40, que explora área entre a praia da Mutuca e o Alto Ribeirão da Ilha. “Perdemos 150 pencas, cerca de três toneladas, de marisco”, conta. A exemplo dos vizinhos, Silva atribui as perdas ao excesso de água da chuva, ao calor escaldante deste verão e dragagem das valas para evitar alagamentos no bairro. “Há suspeita de ligações clandestinas de esgoto e de resquícios de óleo ascarel no canal do antigo centro de treinamento da Celesc de treinamento da Celesc.”

Maricultor Adriano atribui perdas a chuva, calor e abertura de valas contra alagamentos

 

Prato mané com tempero italiano

Comida de manezinho e, para muitos, “sobrinho pobre” da ostra, historicamente o berbigão tem sido a principal fonte de proteína na mesa do pescador tradicional em épocas de redes vazias na costa interna da Ilha, no  “mar de dentro”, como chamam. Molusco bivalve [com duas conchas], se proliferava com fartura nos baixios próximos a manguezais e foz dos rios que deságuam nas baías Norte e Sul, ou na Lagoa da Conceição. O desparecimento pode estar relacionado à cata excessiva e a aterramentos e assoreamento em ecossistemas propícios à espécie, segundo o chefe da Estação Ecológica de Carijós, oceanógrafo Silvio de Souza, 39.

Mesmo em áreas teoricamente protegidas, como na Resex de Pirajubaé, quem conhece sabe que “está cada vez mais fraco”. É o caso de Joelma Salvelina de Souza, 34, e o marido Leonardo, 35, uma das últimas 23 famílias da Costeira cadastradas na Associação Caminhos do Berbigão que vive exclusivamente do extrativismo.

“A maioria saiu para arrumar serviço fora. É cada vez mais difícil viver só daqui’, diz Joelma, que sonha com futuro diferente para a filha de 11 anos. Ela conta que 100 quilos com casca rendem de 5 a 8 quilos descascados, dependendo da época, e observa que a oferta é menor em relação a anos anteriores. “Quando está gordo é melhor, mas ultimamente anda magro. E está cada vez mais raro, talvez por excesso de chuva”, diz.

Boa cozinheira, Joelma guarda na memória diversas receitas deixadas pela avó e pela mãe, também extrativistas. Sabe fazer pastéis, bolinhos, torta e ensopadinho com batata ou chuchu, mas quer experimentar “vôngole com espaguete”, um dos pratos que internacionalizaram o berbigão ilhéu no projeto de Valorização dos Produtos Agropecuários de Qualidade e apresentado em 2010 no Slow Food da Itália.

André passou uma manhã inteira para catar 30 quilos de berbigão

 

Rodízio protege banco genético

Ainda falta a aprovação oficial do ICMBio, em Brasília, mas em Florianópolis grupo de trabalho já começou estudos para revisão da instrução normativa que regulamenta o uso sustentável da Reserva Extrativista do Pirajubaé, na baía Sul de Florianópolis. O objetivo é ouvir extrativistas e avaliar os efeitos da divisão do baixio de Tipitinga em dois bancos de produção (A e B), com implantação de rodízio semestral para coleta entre ambos desde 2013.

Entre as propostas em discussão está a alteração nos dias e locais de extração. A alteração no sistema de rodízio entre os bancos A e B será rediscutida na próxima reunião do conselho deliberativo da Resex, marcada para 13 de março.

Atualmente a extração comercial e de subsistência é permitida de segundas a quinta-feira, somente das 5h às14h. Desde 2013, o baixio da reserva de Pirajubaé foi dividido em dois bancos (A e B) de coleta de berbigão, com implantação de rodízio semestral entre um e outro. O controle impede a coleta excessiva e o risco de desaparecimento da espécie.

RAIO-X

Resex de Pirajubaé

Comercial e subsistência

Dias de coleta: segunda, terça, quarta e quinta-feira

Horário: entre 5h e 14h

 

Banco B

1º de janeiro a 28 de fevereiro

1º de outubro a 31 dezembro

Banco A

1º de março a 30 de setembro

 

Berbigão na Ilha

Bancos e baixios

Norte

Pontal do manguezal de Ratones, Daniela  –  em crescente redução Pontal da Lagoa das Gaivotas, em Ponta das Canas – extinto Região Costeira entre Cacupé e Sambaqui – em extinção

Leste

Lagoa da Conceição – em extinção

Sul

Resex de Pirajubaé, Costeira – área explorada de forma sustentável, mas com redução gradativa

Praias da Mutuca e Ilhota Dona Francisca, Tapera – em crescente redução

Região costeira entre Ribeirão da Ilha e Caieira da Barra do Sul – em redução

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