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Barbearias de Florianópolis: das simples às sofisticadas, muitas se transformam em divã

Do corte tradicional ao da moda no Instagram; as barbearias - e os barbeiros - da Capital têm muita história para contar

Paulo Clóvis Schmitz
Florianópolis
03/11/2017 às 18H06

“Não me deixem morrer de cabelo comprido”, repetia um freguês distinto que havia anos frequentava seu barbeiro de estimação. Certa tarde, ele apareceu para aparar as pontas, falou de tudo um pouco, pagou pelo serviço, se despediu e tomou o caminho de casa. Horas depois, alguém da família ligou consternado avisando que o homem morrera de repente. “Foi uma pena, mas ambos tivemos sorte”, diz Vinício Martinho, 75 anos incompletos, 63 de profissão, boa parte deles no salão Cristal, um dos mais antigos de Florianópolis. Não fosse a visita providencial daquele dia, o barbeiro se veria na contingência de cortar o cabelo de um defunto.

Na Barbearia Vargas, o assunto sempre acaba em futebol - Joyce Reinert/ND
Na Barbearia Vargas, o assunto sempre acaba em futebol - Joyce Reinert/ND



Na barbearia Vargas, muitas conversas descambam para o futebol, porque ali ao lado, onde fica o Beiramar Shopping, o chamado Campo da Liga (ou Pasto do Bode) recebia os jogos de Avaí e Figueirense (mais tarde só os da esquadra azurra), e isso é um mar de histórias inusitadas. Fala-se daquele que ficou conhecido com “gol do eucalipto”, um chute do avaiano Cavallazzi que teve ajuda de um galho de árvore para ganhar as redes. O galho é um elemento neutro e o juiz, fiel à regra, validou o gol...

Um freguês da casa, o engenheiro agrônomo aposentado Leônidas Benigno, havia jogado a preliminar e substituiu o zagueiro Danda, do profissional do Avaí, quando este se machucou no intervalo de uma partida de fundo. Detalhe: Leônidas – nome de craque! – era atleta do Bangu, time amador da cidade.

Era também no estádio Adolfo Konder, como conta o barbeiro Rafael Vargas, 43, que os guris de calça curta ficavam próximo ao alambrado e esperavam pela execução do Hino Nacional, quando os policiais faziam continência, para entrar de fininho. No final dos clássicos, torcedores de Avaí e Figueirense saíam abraçados rumo ao bar mais próximo, sem as refregas dos dias de hoje. “Todos se conheciam na cidade”, afirma Rafael, justificando aquela atitude. “Quando havia brigas, os torcedores apanhavam da polícia e não raro iam embora com o nariz sangrando”, diz.

Salões de barbeiros são o cenário perfeito para conversas que geralmente só interessam aos homens, papos sobre desilusões amorosas, traições, fofocas, futebol, negócios – e maledicências da administração pública e da política. Num estabelecimento do Kobrasol cujo dono não quis ser identificado nem fotografado, ficou conhecido o episódio de dois sujeitos que haviam estudado juntos na infância e adolescência e se reencontraram ali, meio século depois. O barbeiro testemunhou o choro baixinho de um deles, emocionado, na placidez de seus 72 anos.

Amigos e visitantes rotineiros

O Sul da Ilha tem inúmeras barbearias, mas duas delas chamam a atenção pelos contrastes que apresentam entre si. Na Neves Barber Premium, de nome pomposo, cortar barba e cabelo pode ser um detalhe, porque há bar, mesa de sinuca e fliperama com dez mil jogos num mesmo ambiente. Mas ali, além da rapaziada que pede o corte da hora, mostrando um modelo que rola no Instagram, também entraram ou entram o folclórico Arante Monteiro, proprietário do célebre bar e restaurante Arante do Pântano Sul, o Erasmo que dá nome ao trevo mais movimentado da região e figuras como seu Didi, de 86 anos, que chega de bengala e faz visitas diárias só para o ar de sua presença.

Na barbearia Neves, além de cortar o cabelo, o cliente pode bater papo e até jogar videogame - Joyce Reinert/ND
Na barbearia Neves, além de cortar o cabelo, o cliente pode bater papo e até jogar videogame ou sinuca - Joyce Reinert/ND


Não muito longe dali, numa rua pouco movimentada do Campeche, Claudio Speroto, 54 anos, mantém uma portinha que também ostenta clientela fiel. Ele começou perto da praia, então bem deserta, e era comum algum freguês esperar sentado ou tirá-lo da tarrafa para aparar as madeixas. Ainda hoje, divide-se entre a freguesia e as esticadas até o mar atrás de peixe, lula e camarão.

Os clientes que vêm dali, da Tapera, do Rio Tavares, da Armação e até de Curitiba perdoam suas manias e se afeiçoaram ao jeito amistoso e extrovertido com que atende a todos. Um deles é Felisberto (ele não se lembra do sobrenome), 90 anos, que não conhece remédios, toma uma cachacinha pela manhã e vai a pé até a barbearia. “O barbeiro é quase um psicólogo”, admite Speroto ao falar das histórias de separações e problemas conjugais que ouve de quem senta na sua cadeira.

Cortes e fregueses tradicionais

Diz-se que as barbearias tradicionais perderam espaço para os salões unissex e para as redes de franquias que, com marketing agressivo, tentaram tomar conta do mercado. No caso do salão Cristal, localizado na rua Saldanha Marinho, a situação se agravou mesmo depois que o “sacolão” do aterro foi desativado e a prefeitura transferiu o terminal urbano de ônibus para os arredores do Mercado Público.

A morte lenta daquele lado da cidade não fechou a casa porque há fregueses fiéis, de mais de 20 anos, que não só vão como levam os filhos, mantendo a tradição do ramo de suceder gerações nas mãos do mesmo barbeiro. O Cristal é do tempo em que o mar batia logo ali e se pescava bagres com linha ou caniço.

Saulo Costa, avaiano que nem sequer pronuncia o nome do clube rival, aposentou-se com dois salários mínimos, mas continua ali, fiel à clientela como esta é fiel a ele. “Vamos trabalhando até quando der”, diz.

Barbeiros Saulo Costa, José Ivo Coelho e Venicio Martinho mantém os clientes fieis  - Joyce Reinert/ND
Barbeiros Saulo Costa, José Ivo Coelho e Venicio Martinho mantém os clientes fieis - Joyce Reinert/ND



Adeptos dos cortes tradicionais, ele, Venício Martinho e José Ivo Coelho, os barbeiros remanescentes, já se habituaram a fregueses que procuram lugares mais baratos, premidos pela crise e pelo desemprego, e somem para sempre. Há quem torne os cortes mais espaçados e até os que compram uma maquininha para fazer o serviço em casa e evitar o desembolso de R$ 20 a cada dois meses. A época em que não havia tempo para um cafezinho, em vista do tamanho da freguesia, ficou para trás, mas a fidelidade dos velhos clientes garante a sobrevivência do negócio até hoje.

Atualização e bom atendimento

João Alexandre Neves Pereira, 36 anos, deu um up grade na Neves Barber Premium porque recebe todo tipo de cliente e a casa, localizada entre o Campeche, a Tapera, o Ribeirão da Ilha e a Armação, atende a moradores que vieram de outros Estados e regiões, na explosão imobiliária que alcançou todos os cantos da Ilha. “O mercado pede isso”, afirma ao explicar porque também oferece produtos para barba e cabelo, conta com cadeiras que massageiam as costas dos clientes e participa de workshops para atualizar a si próprio e aos cinco profissionais que trabalham com ele.

Os tradicionais estilos meia cabeleira, escovinha e americano competem hoje em dia com cortes ditados pelo gosto dos artistas, atletas e celebridades que bombam na internet. “Os fregueses chegam pedindo este ou aquele desenho, inclusive para a barba”, conta João Alexandre.

O prestígio dos barbeiros aumentou, a clientela se diversificou e muitos homens têm cuidados com as sobrancelhas, o nariz e os ouvidos, seguindo tendências que já se consolidaram nas grandes capitais e cidades do mundo. Mas, no fundo, o que conta é o bom atendimento, a atenção igualitária e boa conversa com todo mundo. “Tenho barbearia no sangue”, diz ele, orgulhoso de sua profissão.

Lembrando do bisavô Dorvalino, que abriu a casa em 1923, do avô Wanderley e do pai Jurandir, que trabalhou durante 34 anos e nunca tirou um dia de férias, Rafael Vargas destaca que a barbearia é o mais antigo estabelecimento de prestação de serviços de Florianópolis. A chegada de novas casas e de franquias do ramo não atrapalhou por causa dos clientes cativos. E também aparecem vereadores, deputados, desembargadores, diretores de empresas públicas e até ministros. A Vargas é dos anos em que o mar vinha até o quintal da casa, a televisão saía do ar à meia-noite e a rua geral da Agronômica é que dava acesso à Trindade e aos bairros do Norte da Ilha.

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