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Aulas gratuitas de surf adaptado para pessoas com deficiência fazem a alegria dos alunos

Associação já oferece as aulas para 10 alunos na praia da Barra da Lagoa

Dariele Gomes
Florianópolis
26/01/2018 às 20H26

Adaptar-se! Provavelmente você já ouvir falar nessa palavra, porém muitos não sabem que ela significa muito mais do que se ajustar ao novo, ao diferente. Vivenciando na pele uma luta diária de poder se adaptar e praticar uma de suas paixões, o surfe, que o profissional de comunicação Fidel Teixeira Lopes, de 39 anos, uniu-se com a psicóloga Ruthie Bonan Gomes e em 2016 criou a ASSF (Associação Surf Sem Fronteiras), entidade sem fins econômicos, para oportunizar esporte adaptado de forma gratuita para pessoas com deficiência. Hoje com 10 alunos, entre cegos, tetraplégicos, paraplégicos e com deficiência mental, a ASSF viabiliza também aos alunos o acesso ao mar, o contato com a natureza, diversão e superação. “Há alguns que se destacam e têm condições de competir em campeonatos com baterias de surfe adaptado. Porém, o nosso maior objetivo é oferecer mais qualidade de vida para alguns que até então estavam desacreditados, e mostrar que eles podem sim praticar esse esporte”, diz Fidel.

Associação Surf Sem Fronteiras, criada por voluntários em 2016, hoje tem 10 alunos na Barra da Lagoa - Daniel Queiroz/ND
Associação Surf Sem Fronteiras, criada por voluntários em 2016, hoje tem 10 alunos na Barra da Lagoa - Daniel Queiroz/ND



A história de Fidel com o surfe adaptado começou em 2007, após ele sofrer um acidente de moto e perder todos os movimentos do braço esquerdo. Foram várias cirurgias, sessões de fisioterapia e uma sentença desesperadora. “Eu surfava desde os 12 anos de idade e tive que ouvir do médico que eu não poderia mais. Foram três meses escuros e depressivos. Um ano após o acidente, eu já estava surfando. Meu irmão é fisioterapeuta e juntos começamos pensar nas possibilidades. Eu mesmo costurei uma roupa em que meu braço (sem movimentos) ficasse protegido dentro dela. E lá estava eu, dentro da água”, conta ele, que diz que se inspirou na surfista Bethany Hamilton, que teve o braço arrancado por um tubarão e mesmo assim prosseguiu no esporte.

O esforço e dedicação a Fidel dentro mar fizeram com que a Mormaii confeccionasse suas roupas através da linha El Faro, um sinal de que havia ferramentas e oportunidades para fazer o que ele mais ama. “Hoje nós vemos nos nossos alunos a alegria estampada no rosto. Não só no rosto deles, mas no nosso e das famílias que estão em torno deles. Nós recebemos o retorno das famílias, que dizem ter reflexos da prática na autoestima e comportamento dos alunos, também em casa”, conta Fidel..

Mauri Ferreira não enxerga há 20 anos e no mar sente a liberdade - Daniel Queiroz/ND
Mauri Ferreira não enxerga há 20 anos e no mar sente a liberdade - Daniel Queiroz/ND



A onda batendo e o cheiro do mar

O aluno Mauri Valmor Ferreira, de 57 anos, não enxerga há pelo menos 20 anos, mas o mundo escuro e de vultos não o impediu de cair na água. Cheio de atitude e já mandando muito bem em cima da prancha, Mauri frequenta as aulas semanalmente. Ele sai de ônibus do bairro Capoeiras, onde mora, e com o seu cão guia, o Keats, chega cedo na praia da Barra da Lagoa para surfar. “Eu já estava desacreditado de um dia fazer isso. A sensação que eu tenho de estar no mar, em cima da prancha, é de liberdade. Por mim, surfava todos os dias”, conta ele.

O gaúcho Tarso Dornelles, de 26 anos, nasceu cego e sempre amou o mar. “Eu não enxergo, mas posso sentir o cheiro do mar, a onda batendo. É algo que não tem preço. Hoje eu me sinto mais seguro na água”, observa ele.

A ASSF atua com profissionais educadores físicos e de psicologia e voluntários de outras áreas. “É necessário primeiro conhecer a limitação de cada um. Eles chegam eufóricos, com muita sede de aprendizagem. Eu aplico toda a minha experiência acadêmica e de surfista neles. Venho aqui e me divirto, é como se eu passasse horas no mar, pegando altas ondas”, diz o voluntário e educador físico Thyago Garcia, de 25 anos.

Hoje com aproximadamente 12 voluntários, a ASSF consegue oferecer as aulas às quintas-feiras e sábados, sempre das 8h30 às 11h30, na praia da Barra da Lagoa.  “Com o voluntariado consegui ter uma certeza, a de que todas as pessoas têm problemas. A diferença está na oportunidade e na acessibilidade de fazer diferente ”, comenta o voluntário, empresário e surfista Gustavo Prólico, de 29 anos.

 

Em cima da prancha no primeiro dia

O voluntário e educador físico Diego Antunes, de 27 anos, que é especialista em treinamento de atletismo paraolímpico, diz que os alunos vencem os medos, o que torna o trabalho recompensador. “Creio que essa vontade de aprender algo novo, que até então era distante deles, torna o trabalho mais fácil. A maioria já sobe na prancha no primeiro dia de aula”, comenta ele, que também orienta os voluntários. Recentemente, a Associação foi presenteada com um workshop do surfista Cisco Araña, apoiador do surfe adaptado. “Ganhamos conhecimento, uma prancha multifuncional e uma prancha tátil para cegos. Foi incrível as informações que recebemos nesse dia. Hoje estamos botando em prática”, diz Antunes, enfatizando que é importante a cidade também se adaptar, com mais ônibus e praias com acessibilidade.

Para a coordenadora técnica da ASSF e psicóloga Ruthie, há muitos benefícios na prática. “Tem alunos que se beneficiam através da superação do medo da água, outros pela sensação de liberdade, de poder se movimentar sem barreiras. Há os que têm prazer pela conquista do desafio de ficar em pé na prancha, e alunos que compartilhar a diversão, alegria e amizade nas aulas”, pontua a profissional.

O propóstico da ASSF não é reabilitar pessoas com deficiência. “Não é o objetivo trabalhar as questões motoras ou intelectuais específicas. Deixamos que o mar, a alegria e o sentimento de poder usufruir do surfe em condições de igualdade façam o trabalho”, conclui Ruthie.

A ASSF precisa de voluntários, de qualquer área, basta entrar em contato pelo o e-mail surfsemfronteirassc@gmail.com. Assim como doações de materiais são bem-vindos. Quem quiser participar do surf adaptado, basta se inscrever na página da Associação (www.surfsemfronteiras.com) e aguardar a chamada.

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