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Arte do Crivo ainda resiste nas comunidades de Governador Celso Ramos

Artesãs se reúnem todas as terças-feiras, na praia de Palmas, revivendo os tempos em que o artesanato aproximava as famílias

Marcos Horostecki
Governador Celso Ramos
27/06/2017 às 12H32

Costume dos imigrantes açorianos, a Roda de Crivo, realizada pelas mulheres das comunidades para a produção do artesanato, se mantém viva nas praias de Governador Celso Ramos e na região de Tijuquinhas, em Biguaçu, na Grande Florianópois. Todas as terças-feiras, mais de 40 senhoras se reúnem na praia de Palmas para trocar experiências e perpetuar a tradição passada de mãe para filha.

Dona Anginha explica que o Crivo é muito mais do que uma arte e pode unir toda uma comunidade - Fotos Divulgação/Dayane Soares/nd
Dona Anginha explica que o Crivo é muito mais do que uma arte e pode unir toda uma comunidade - Fotos Divulgação/ND


O Crivo é uma arte em tecido, um refinamento do bordado onde o ponto e a construção da imagem se dão por meio da repetição e da prática. A aposentada Egercília Sagás da Silva, 78 anos, a dona Anginha, de Canto dos Ganchos, lembra que o artesanato sempre teve mais valor nas rodas de senhoras. “No Canto dos Ganchos havia dois salões onde o Crivo era feito antigamente. As mulheres se sentavam e conversavam assuntos que os homens não sabiam, mas as crianças podiam entrar e aprender”, comenta.

No Crivo, segundo ela, também eram ensinadas rezas, benzeduras e repassados os fatos que aconteciam na vila, as novidades que algumas criveiras traziam da capital, de Biguaçu ou de Tijucas. “Na roda do Crivo se cantava e se transmitia histórias dos tempos dos avós. Hoje, tudo isso vai se perdendo. A vida vai ficando sem graça. Não tem a mesma alegria de antes”, menciona a criveira. Para dona Anginha, a vida era mais simples e feita em grupo. “Tinha as briguinhas na Vila, mas éramos uma família. Hoje é cada um por si. Ninguém conta mais história. Ninguém tem tempo para ouvir o outro”, arremata com um olhar longe, enquanto recorda suas lembranças.

Falta apoio para manter a tradição

A dona de casa Marli Paula da Silva, 47 anos, coordena os trabalhos das criveiras na Praia de Palmas, em Governador Celso Ramos. O “Grupo de Mães Novo Amanhecer” reúne mais de 30 mulheres que aprenderam ou que estão começando a aprender a técnica. Ela conta que aprendeu o Crivo com a mãe e que apesar do grupo realizar diversas atividades, é no Crivo que elas se destacam.
“Nosso grupo já somou 46 mulheres, mas houve uma época em que reduziu muito. Hoje, nós fazemos o Crivo, cantamos, rezamos e debatemos o que acontece no bairro. É mais do que ocupar o tempo ocioso, a Roda do Crivo é uma forma de lembrar o que os antigos nos deixaram e ter a oportunidade de transmitir para as novas gerações.”, revela.

Marli só lamenta a falta de apoio para a preservação da tradição.“Falta apoio. Temos o espaço, que é da associação de moradores, mas precisamos de investimentos. Sem a prática do Crivo, sem a roda, tudo vai se perder.”, continua. Atualmente, muitas técnicas novas tentam apagar a importância do crivo, acrescenta a artesã Valda Nicolau Sagás, 70 anos.“É como se você estivesse desenhando no tecido, mas isso de ponto em ponto. E não se confunda com ponto cruz ou crochê. O Crivo é feito desmontando o tecido por completo, e remontando com as imagens que a criveira produz”, acrescenta.

Atividade chegou no século 19

Segundo o pesquisador William Wollinger Brenuvida, mestrando em Ciência da Linguagem da Unisul, as origens do Crivo são incertas. Nos Açores, em Portugal, onde a prática ainda resiste em algumas ilhas, a arte convive com a Renda de Bilro e outras formas de se tecer. O bordado do Crivo que também é uma renda, mas que possui diferenças do Bilro por ser feito em um bastidor, espécie de armação ou suporte em madeira, pode ter relação com as antigas caravanas que iam buscar mercadorias no Oriente para o Ocidente. “É preciso lembrar que Portugal ocupou lugares como Macau, na China, por 400 anos, e que navegadores portugueses e espanhóis estiveram na Índia, no Japão. Havia, também, um contato frequente com mercadores de Florença e Gênova que financiaram as investidas dos ibéricos nas Índias. Houve uma grande troca cultural e econômica antes e durante as grandes navegações”, acrescenta.

Outro dedicado ao tema é o historiador Miguel João Simão, que publicou o livro “Mulheres de Ganchos”. Simão aponta que o Crivo possa ter desembarcado em Ganchos para nunca mais sair por volta de 1870 com a descendente de portugueses Flauzina Luiza de Azevedo, esposa de Manoel José de Azevedo (Mané Ilhéu).

“Dona Flauzina teria trazido para Canto dos Ganchos a novidade do Desterro (hoje Florianópolis) e a prática se espalhou”, conta Simão que ainda relata que Flauzina deixou uma geração de filhas, netas e bisnetas que ainda praticam o Crivo em toda a região do Litoral.

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