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Aplicativo de Florianópolis facilita o reconhecimento de letras para crianças disléxicas

Tecnologia foi criada pela educadora Nadine Heisler e pela fonoaudióloga Sabrina Luz e será apresentada em outubro em um congresso em Portugal

Carolina Coral
Florianópolis
17/08/2018 às 21H07

Aplicativo pioneiro no Brasil no auxílio da alfabetização de crianças disléxicas criado em Florianópolis pela educadora Nadine Heisler e pela fonoaudióloga Sabrina Luz foi selecionado para o Congresso Internacional em Dislexia e Dificuldades de Aprendizagem, que ocorrerá em outubro deste ano, em Portugal. A ferramenta começou a ser utilizada por duas escolas públicas da Capital este ano.

Criado no final de 2017, o aplicativo DOM faz parte de um projeto de plataforma online gratuita chamada Domlexia, que tem como objetivo instruir e dar acesso a informações para leigos e profissionais da área. “A ideia do nome Domlexia é principalmente quebrar o estigma em cima do termo dislexia e valorizar as particularidades das pessoas com diagnóstico, já que a maioria delas se encontra no campo da ciência, das artes e do ramo empresarial, e costuma apresentar capacidades acima da média no que tange a criatividade, empreendedorismo e visão ampla”, destaca Nadine Heisler, cofundadora da plataforma. Entre personalidades mundiais que têm o distúrbio estão o cientista Albert Einstein, o ator Tom Cruise e o criador da Apple, Steve Jobs, só para citar alguns nomes de impacto.

Nadine Heisler é educadora especializada em comunicação e psicologia positiva e mãe de quatro filhas. Durante a infância da sua terceira filha, ela descobriu que a menina era disléxica. “Mergulhei a fundo nos livros e nas pesquisas a respeito do tema, e além disso, tivemos muita sorte desde o início do diagnóstico, pois contamos com uma equipe multidisciplinar de fonoaudióloga, psicóloga e neuropediatra de extrema competência, por isso senti que era meu dever compartilhar esses conhecimentos e aprendizados com as pessoas por meio de uma plataforma”, pontua Nadine.

A partir desse objetivo, criou-se a plataforma www.domlexia.com.br, que apresenta um conteúdo claro e objetivo; responde a dúvidas e ajuda a divulgar a causa a muitas pessoas, desde professores, familiares e disléxicos até interessados. A qualidade e a importância do conteúdo foram tão relevantes que, no ano passado, a plataforma ficou entre os dez finalistas do desafio proposto sobre educação pela Singularity University, instituição americana presente no Vale do Silício, na Califórnia, que premia anualmente projetos pioneiros e de forte impacto social ao redor do mundo.

Nadine Heister e Sabrina Luz foram as criadoras do aplicativo - Flávio Tin/ND
Nadine Heister e Sabrina Luz foram as criadoras do aplicativo - Flávio Tin/ND

Distúrbio atinge até 15% das pessoas

Segundo os dados da Associação Internacional de Dislexia, o distúrbio de aprendizagem atinge de 10% a 15% da população. A palavra dislexia é derivada do grego “dis” (dificuldade) e “lexia” (linguagem). Segundo Augusto Buchweitz, professor da Escola de Ciências da Saúde e pesquisador do InsCer (Instituto do Cérebro), a dislexia está relacionada com uma dificuldade no reconhecimento da relação entre as letras e seus sons correspondentes. Não existe um perfil de pessoas com dislexia, ela afeta todos sem distinção de classe, sexo, etnia, cultura ou qualquer outro fator social.

“É importante destacar que a dislexia não é uma doença, portanto não tem cura. A criança que sofre desse transtorno enfrentará na leitura e na escrita um trabalho mais árduo do que as demais. Por isso, é preciso desenvolver diferentes estratégias que auxiliem no processo de alfabetização, e o aplicativo DOM vai ao encontro dessas necessidades”, ressalta Sabrina Luz, que há 22 anos atua na área de dificuldade e transtorno de aprendizado como fonoaudióloga.

A origem da dislexia é neurobiológica e está associada a um funcionamento atípico de sistemas neurais que, durante o aprendizado da leitura, precisam se adaptar para que a criança consiga aprender a “quebrar o código” do sistema escrito. Os disléxicos possuem um funcionamento peculiar do cérebro para o processamento da linguagem. As atuais pesquisas revelam que eles processam as informações de um modo diferente, por isso as pessoas disléxicas são únicas; cada uma com suas características, habilidades e inabilidades próprias.

 

Aplicativo amplia consciência fonológica e facilita a alfabetização

De acordo com Nadine, cofundadora da plataforma Domlexia, o objetivo é ir além do que simplesmente informar e repassar conhecimento sobre dislexia, mas instrumentalizar os que podem apoiar o desenvolvimento dos disléxicos. “E uma dessas ferramentas é o aplicativo DOM, que foi desenvolvido para apoiar a alfabetização, uma das maiores barreiras daqueles que têm dislexia”, diz ela. Segundo a médica Guinevere Eden, Ph.D e diretora do Centro de Estudos de Aprendizagem, da Universidade de Georgetown (EUA), está comprovado que intervenções com foco fonológico trazem os melhores resultados na fase de alfabetização.

O aplicativo, em formato de game, divertido, interativo e conduzido pelo simpático dragão Dom, foi desenvolvido para crianças em fase de pré-alfabetização/alfabetização (1º e 2º anos do ensino fundamental) com o objetivo de ampliar a consciência fonológica e facilitar a alfabetização. Como o jogo oferece uma metodologia inovadora de apoio à alfabetização, a Secretaria Municipal de Educação de Florianópolis permitiu que o aplicativo fosse utilizado em sua fase-piloto por estudantes de duas salas de 1º ano do ensino fundamental da rede pública da Capital, na Escola Básica Intendente Aricomedes da Silva, na Cachoeira do Bom Jesus, e na Escola Osmar Cunha, em Canasvieiras.

 “O uso do aplicativo trouxe benefícios para todas as crianças, aquelas que têm alguma dificuldade de aprendizado como a dislexia e as que não têm, sendo, portanto, uma ferramenta absolutamente inclusiva”, afirma Nadine.

 

Auxílio no reconhecimento das letras

A fase-piloto nas escolas da Capital foi realizada entre junho e julho com o uso duas vezes por semana do jogo pelos estudantes. Para medir a eficiência do método proposto, foi realizada uma avaliação da consciência fonológica, e o reconhecimento das letras foi aplicado no início e no final do período do uso do aplicativo.

Os resultados são animadores: o percentual de acerto no reconhecimento de letras cresceu de 56% para 69%; já os acertos no teste de consciência fonológica apresentaram um crescimento de 59% para 92%. “A consciência fonológica dá a base para uma boa alfabetização, e realizar isso de uma maneira lúdica traz maior engajamento das crianças”, destaca Sabrina Luz, cofundadora da plataforma.

Os depoimentos das crianças também evidenciaram os benefícios do aplicativo. “O jogo ajudou a conhecer o alfabeto, as letras e a perceber o som delas”, animou-se a aluna Isabela Ferreira da Rosa dos Santos, do 1º ano do ensino fundamental da escola pública da Cachoeira.

Aluna Isabela Ferreira da Rosa dos Santos usou e aprovou o aplicativo - Daniel Queiroz/ND
Aluna Isabela Ferreira da Rosa dos Santos usou e aprovou o aplicativo - Daniel Queiroz/ND



A professora regente e alfabetizadora, Luciana de Carvalho contou que “como as crianças estão familiarizadas com o uso da tecnologia, elas rapidamente interessam-se mais pelo alfabeto por meio desse aplicativo, pois é mais interativo e divertido em função dos joguinhos”. Luciana acrescenta também que o aplicativo DOM ajudou a identificar crianças com dislexia mais cedo. “Normalmente fica mais visível no terceiro ano do ensino fundamental quando o aluno já está desmotivado para ir para a escola e participar das aulas, o que muitas vezes provoca evasão escolar”, ressalta.

Com o final da fase-piloto e com os bons resultados obtidos, alguns ajustes finais estão sendo feitos no aplicativo para que seja disponibilizado ainda neste ano de forma gratuita nas Appstores (Apple e Android). A plataforma Domlexia também irá disponibilizar um Programa de Apoio à Alfabetização para escolas, que inclui a formação dos professores sobre o tema e planos de aula para potencializar o uso do aplicativo.

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