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Quarta-Feira, 21 de Novembro de 2018
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Apesar da quaresma antecipada, floração amarela no campo indica que é tempo de colher macela

Arbusto nativo da América do Sul e comum em campos da Ilha é usado como medicamento com grande variedade de indicações e miolo de travesseiro aromático

Edson Rosa
Florianópolis

Os cachos amarelos ainda não se abriram por inteiro. Alguns estão em formação, provavelmente retardados pela primavera chuvosa em 2015 e influenciados pela antecipação do Carnaval no calendário lunar de 2016. Mesmo assim, o aroma inconfundível se espalha como um rastro invisível por onde a professora aposentada Almerinda Catarina Scotti de Souza, 60, caminha ao lado da filha caçula, Karlota, 25, e das cunhadas Dirce Souza, 57, e Ducilene Natividade, 54, que todos os anos na Quaresma repetem uma das mais antigas tradições de Florianópolis: a colheita da macela. Mesmo que a planta milagrosa e usada também como miolo de travesseiros esteja cada vez mais rara nos campos e encostas da Ilha.

Marco Santiago/ND
Dirce de Souza acredita no potencial medicinal da planta


“Sobraram uma touceira aqui, outra acolá. Acho que sumiram com o fim das roças de mandioca, porque cresciam depois de a terra removida na colheita”, diz Almerinda, que trabalhou até a desativação da escola multisseriada da localidade, em 2008. Alguns anos antes, em 2000, com ajuda dos alunos da 3ª série do ensino fundamental, entre eles a pequena Karlota, a professora produziu livro sobre espécies medicinais mais comuns entre os moradores do lugar, com ilustrações das próprias crianças. “A macela estava entre as mais conhecidas, é claro”, diz. Singela, a publicação mais tarde foi editada pela IOESC (Imprensa Oficial do Estado de Santa Catarina).

O consultor da turma foi outro vizinho ilustre, o falecido João Ramos dos Santos, ou, simplesmente, João dos Balaios. Grande conhecedor da medicina natural da mata atlântica e espécie de curandeiro do lugar, o artesão repetia um ritual a cada Sexta Feira Santa: saía de casa para colher as pétalas amareladas antes do alvorecer, ainda molhadas pelo orvalho matinal, por acreditar na potencialização das propriedades medicinais da planta. Comunidade formada por descendentes de açorianos instalados nas encostas do Ribeirão há 300 anos, tradicionalmente agrícola e isolada do resto da cidade até início da década de 1980, as vacinas regulares só chegavam de helicóptero e mais tarde, com abertura da atual Estrada Francisco Thomaz dos Santos, em jipes do Exército.

“As crianças fugiam para o morro quando o Jipe chegava com as vacinas”, conta a professora. Na época, Almerinda mantinha uma farmacinha natural no armário da sala de aula - uma caixa com vários tipos de ervas desidratadas, para chás e infusões. “Os alunos pediam quando sentiam alguma dor. Mas alguns só queriam mesmo era tomar um chazinho”, recorda-se Almerinda, que contava com ajuda da merendeira Maria Julia Lopes Vieira, 73, para atender as demandas e manter a criançada interessada na escola. O pouco que resta nos campos e clareiras da localidade, segundo dona Maria Julia, não basta para renovar o velho travesseiro que ela não troca por nada neste mundo.

“Sobraram os farelinhos, e minha neta diz que é pesado demais. Mas me acostumei com o cheirinho e não gosto de dormir com outro”, diz a aposentada, que antes de se casar, há mais de 50 anos, colheu macela suficiente para encher 12 travesseiros do enxoval. Como a maioria dos moradores da vizinhança, ela também ainda usa as flores para chás e infusões. “É bom para tudo. É amarga, mas cura”, garante.

Dirce de Souza nunca tomou chá, mas acredita no potencial medicinal da planta. Só que prefere colher macela para montar arranjos, buquês e pequenos vasos aromatizantes. Para ela, a floração anual serve para manter as famílias da comunidade unidades por uma das tradições mais belas do Sul do Brasil. “Precisamos deixar este legado”, diz, sob aprovação da sobrinha Karlota, a jovem formada em turismo e zootecnia que não abre mão do lugar onde nasceu.

Ciência comprova eficiência na medicina

A macela é uma das 114 espécies de 48 famílias botânicas incluídas pelas biólogas Mariana Giraldi e Natalia Hanazaki em pesquisa realizada em 2010 sobre uso tradicional de plantas medicinais na localidade de Barreiros do Ribeirão, no Sertão do Peri. A partir de 13 entrevistas domiciliares com homens e mulheres do lugar, o estudo etnobotânico constatou grande diversidade de remédios extraídos na mata atlântica ainda preservada ao redor e cultivados nos quintais das casas.


:: Galeria de fotos

 

Também usada em travesseiros, a pequena flor amarela faz parte dos 34% de espécies silvestres presentes no estudo de Mariana e Natalia.  Usada em infusões e chás, as pequenas as flores funcionam como calmante, digestivo e antiespasmódico, enquanto as flores verdes servem para dores de cabeça.

A macela tem, ainda, funções antimicrobianas e antivirais citadas em pesquisas de resgate etnográfico como efetiva planta medicinal brasileira. Suas inflorescências são base para medicamentos com efeitos antidiarreicos e analgésicos, anti-inflamatórios e antimicrobianos, segundo o pesquisador Boscolo & Valle.

No Brasil, pesquisas da atividade antimicrobiana em plantas com indicativos medicinais, condimentares ou aromáticos descobriram atividades bactericidas da macela no tratamento da mastite bovina. Em trabalhos de triagem antibacteriana contra agentes de toxinfecções alimentares, a planta apresentou resultados interessantes no controle bactericida e bacteriostático contra padrões de Salmonella sp, Escherichia coli e Sthaphylococcus aureus.

Nomes científico

Achyrocline satureioides 

Brasil

Macela, macelinha, carrapichinho de agulha, macela galega, macela de travesseiro, alecrim de parede, camomila nacional, macela amarela, macela da terra, macela do campo, macela do sertão, macelinha, marcela, marcela do campo.

América espanhola

Macella gallega, marcella hembra, marcelita.

Tupi-guarani

Yatei-caá

Características

Atinge até 50 centímetros de altura, forma touceiras e tem caule membranáceo. As folhas são alongadas, finas e de coloração amarelada. A inflorescência é terminal, composta de flores pequenas, membranáceas e de cor amarelada. O fruto é um aquênio muito pequeno. Reproduz-se por semente, sendo muito resistente e pouco exigente em relação a solo e  água. Planta invasora, comum em pastagens, beira de estradas e baixadas. A colheita da planta toda deve ser feita quando surgirem as flores, antes de completamente maduras, para melhor aproveitamento das qualidades terapêuticas. Seu florescimento ocorre nos meses de março e maio e nessa época chama muito a atenção por sua coloração amarelada pálida característica. Suas flores secas eram utilizadas em várias partes do Brasil, inclusive no interior da Ilha, para o preenchimento de travesseiros e acolchoados.

Partes utilizadas em chás: Sumidades florais abertas e secas, e folhas.

Origem: América do Sul. No Brasil, aparece na Bahia, em Minas Gerais, no Rio de Janeiro, em São Paulo, no Paraná, em Santa Catarina e no Rio grande do Sul. Introduzida na Europa e na África.

Modo de Conservar: A planta toda deve ser seca ao sol, em local ventilado e sem umidade. Guardar em sacos de pano.

Indicações: Azia, cálculo biliar, cefalalgias, cólicas intestinais, contrações musculares bruscas, contusões, desordens menstruais, diabetes, diarreia, disfunções gástricas e digestivas, dor de cabeça, dor de estômago, epilepsias, espasmos, estimulante da circulação capilar, febre, gastrite, impotência, inapetência, inflamação, feridas e úlceras, má digestão, pele e cabelos delicados, nervosismo, perturbações gástricas, protetor solar, resfriado, retenção de líquidos, reumatismo, suores fétidos nos pés.

Contraindicações: Há estudos sobre o efeito hipoglicemiante da macela. Por isso, aconselha-se cuidado no uso em diabéticos e em pacientes que usem sedativos, analgésicos e barbitúricos. Pessoas com hipoglicemia devem usá-la com acompanhamento médico e ter seus níveis de glicemia sob constante monitoramento.

Fonte: Revista Plantas que Curam

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