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Aos 104 anos, aposentada de São João Batista ganha o emprego de volta

O antigo patrão morreu e o serviço de montagem de estopas tinha sido paralisado

Brunela Maria
São João Batista
10/11/2017 às 22H33

A aposentada Bernardina Angeli Fagundes, 104 anos, é uma das primeiras moradoras da comunidade de Colônia, no município de São João Batista, berço da imigração italiana no Estado. Criou dez filhos, a maior parte do tempo sozinha, com a força do seu trabalho, especialmente depois que o esposo morreu. Essa semana, a simpática senhora viveu momentos de tristeza e angústia. Depois de 15 anos, estava novamente desempregada. O dono da facção da fábrica de estopas que lhe trazia trabalho todas as semanas morreu e não havia perspectivas de continuar o trabalho.

Produção de estopas foi paralisada depois da morte do patrão  - Daniel Queiroz/ND
Produção de estopas foi paralisada depois da morte do patrão - Daniel Queiroz/ND


“Eu preciso trabalhar porque é bom. Nem presta ficar desocupada. Quando tenho serviço, isso faz o tempo passar. Eu também faço meus crochês, tenho minha aposentadoria, mas queria alguma coisinha, assim, para mexer nos paninhos”, explica. O relato também foi feito ao secretário de desenvolvimento econômico do município e amigo da família, Plácido Vargas, que não teve dúvidas. Com uma fotografia de dona Dinha, como é conhecida, causou comoção nas redes sociais.

A notícia de que a aposentada estava procurando emprego aos 104 anos logo chegou à família do antigo patrão, que correu para explicar que a parada foi temporária e que ela estava recontratada. “Quando eu a visitei ela estava muito triste. Queria apenas continuar trabalhando e quando postei a foto dela, os filhos do ex-patrão ficaram sabendo. E foi só alegria quando eles voltaram a entregar os retalhos para a produção das estopas”, comentou Plácido.

Objetivo era não ficar parada

Disciplinada, dona Dinha é daquelas que não deixa o trabalho para depois. Vai montando as estopas e nem lembra de contar quantas faz em um dia. Quando o pessoal chega para buscar a produção a meta já foi batida.

“Ela chorou muito porque estava desempregada. Não pelo financeiro, mas porque gosta de fazer, de não ficar parada. Trabalhava esses anos todos na mesma empresa e teve medo das portas fecharem. Foi quando isso parou na internet e a reação das pessoas nos surpreendeu. Ela monta e eu costuro. Já não está mais sem emprego”, conta a filha, Terezinha Angeli Fagundes, 70, que mora com a mãe e juntas formam uma dupla imbatível na produção.

O trabalho exige bastante paciência. Pedaço à pedaço, delicadamente, ela dispõe dos pequenos tecidos num pano maior. Dobra e empilha na mesa. A costura é feita na própria casa. É na última dependência da residência de madeira, que ficam guardadas as sacolas das estopas e as máquinas. Sentada ali, em frente a janela, dona Dinha vê os dias passarem mais rápido.

Plácido expôs o caso nas redes sociais e a família do ex-patrão recontratou dona Dinha - Reprodução/Rede Social/ND
Plácido expôs o caso nas redes sociais e a família do ex-patrão recontratou dona Dinha - Reprodução/Rede Social/ND


“Gosto de trabalhar, sem fazer nada não dá. Precisava arrumar um serviço para fazer. Na roça eu plantava milho, feijão, mandioca. Meu pai morreu, casei, fiquei viúva aos 37 e tinha as crianças para alimentar. O sogro mandou dar os filhos, porque dizia que não criava. Fiquei até 80 anos na lavoura e estão todos criados”, argumenta.

O segredo da longevidade

Dormir tarde, acordar cedo. Como qualquer pessoa, a rotina de Bernardina não é muito diferente. Ativa, não costuma ter horário certo para deitar. Se aparecer o sono, lá vai ela para a cama que divide com a filha. Odeia dietas e não se priva de um bom churrasco, onde prefere a gordura da carne. Com pai italiano e mãe brasileira, adora polenta misturada ao leite, diretamente do fogão à lenha, usado todos os dias, mesmo no verão.

De boa memória, ela lembra detalhes da vida sofrida. O maior segredo de “durar tanto”, como ela mesma diz, está nos calos das mãos. Medo da morte não tem. Pelo contrário, diz que está pronta, caso o “povo do céu”, necessite chamar por ela. “Ela está melhor que nós todos juntos. Sem colesterol, nem diabete, anda por tudo, uma visão perfeita e lúcida. É só alegria. Mas, também quando tem uma dorzinha, ai ela reclama, fica manhosa”, conta aos risos a filha.

Pelo documento de identidade, cuja data é 12 de abril de 1910, Dinha já completou 107 anos. O registro, no entanto, foi feito errado, porque antigamente o acesso ao cartório era mais difícil e os filhos sempre eram registrados depois de alguns anos, sem que os pais soubessem precisar a data. “Meu pai, Angustine Francis Angeli veio da Itália, conheceu minha mãe Maria Pera Angeli aqui, eles casaram e tiveram 10 filhos, sou a mais nova. Todos já faleceram. Vou até onde Deus quiser, porque trabalhei muito nessa vida”, complementa.

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