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Agapito foi o último administrador do saudoso bar pertencente à família Katcipis

Reduto reunia ilhéus de boa cepa, de estudantes e trabalhadores a líderes políticos, funcionou até 1990

Paulo Clóvis Schmitz
Florianópolis
29/12/2017 às 21H59

Quando a casa estava lotada, os mais descolados abriam mão das mesas do bar, sentavam-se sobre os sacos de feijão da venda anexa e gritavam para o atendente Agapito, filho do proprietário: “Anota aí mais uma cerveja com linguiça”. A bebida era a mais gelada da cidade, na avaliação de bebedores de todos os calibres, e o salame costumava vir dentro de um apetitoso pão de trigo. Era essa a rotina no Katcipis, boteco que ficava na esquina das ruas Esteves Júnior e Almirante Lamego, a poucos metros da praia de Fora, que desapareceu com a construção do aterro da avenida Beira-mar Norte. O bar atravessou mais de seis décadas e marcou época como ponto de parada de incontáveis de ilhéus de boa cepa, de estudantes e trabalhadores a líderes políticos como Nereu Ramos, Jorge Lacerda e Aderbal Ramos da Silva.

Democrático bar, na esquina das ruas Esteves Júnior e Almirante Lamego, foi fundado  em 1923 - Acervo Carlos Damião/ND
Democrático bar no casarão à direita, na esquina das ruas Esteves Júnior e Almirante Lamego, foi fundado em 1923 - Acervo Carlos Damião/ND



O último administrador do bar pertencente à família Katcipis, o acima citado Agapito, morreu no sábado passado, dia 24, em Florianópolis, aos 89 anos. Ele era filho do fundador Anastácio Katcipis, que abriu o estabelecimento em 1923 e o arrendou mais de meio século depois, em 1979. Por conta da longevidade, o bar chegou a ser o mais antigo da cidade em operação, até fechar as portas em 1990, dando lugar a outros ramos de comércio em frente à praça Esteves Júnior e pertinho do Colégio Catarinense. Para várias gerações de frequentadores, ele foi o mais tradicional ponto de encontro e de venda de aperitivos da Capital.

Um dos assíduos fregueses do Katcipis, o jornalista Raul Caldas Filho escreveu uma reportagem no “Jornal de Santa Catarina” em 1986 (o texto, depois, foi publicado no livro “O solitário das Galés”, de 2006) dizendo que o bar “sempre manteve um alto padrão e um serviço de primeira, façanha difícil de ser igualada, seja na Ilha ou além mar”. O estabelecimento nasceu como loja de secos e molhados (com o nome de Casa Venizellos) e boteco (bar Náutico), administrados por Anastácio e pelo irmão Antônio Katcipis. Gregos da ilha de Kastelorizon, eles vieram para o Brasil em 1911, fixando-se no Rio de Janeiro e se mudando para o Sul depois da morte de um terceiro irmão, Agapito, enquanto mergulhava em Cabo Frio (RJ), em 1917.

Agapito, filho de Katcipis, o juiz Raul Tavares da Cunha Mello (em pé) e o o radialista Ciro Barreto (à esq.) - Giovani Lorenzen/divulgação/nd
Agapito (à esq.), filho de Katcipis, o juiz Raul Tavares da Cunha Mello (em pé) e o o radialista Ciro Barreto - Giovani Lorenzen/Divulgação/ND



Local reunia todas as tribos

Na reportagem do “Santa”, Raul Caldas Filho conta que o Katcipis era um espaço democrático e que em mesas próximas podiam sentar Nereu e Celso Ramos, ex-presidente da República e ex-governador do Estado, respectivamente, e um adversário como Adolfo Konder, também com passagem pelo palácio do governo. No então bar Náutico (nome que não pegou, preterido pela denominação Katcipis) se reuniam políticos, jornalistas, comerciantes e intelectuais – em diferentes épocas, passaram por ali figuras como Leoberto Leal, Rubens de Arruda Ramos, Martinho de Haro, Meyer Filho, Salim Miguel, Oswaldo Rodrigues Cabral, José Matusalém Comelli, Antônio Bulcão Viana, Delfim Peixoto Filho e Espiridião Amin.

Foi em 1940, com a idade de 12 anos, que Agapito, um dos dez filhos de Anastácio, passou a trabalhar na casa. Durante quase quatro décadas, ele usou seu temperamento franco para administrar a índole nem sempre pacífica dos frequentadores, aguentando o barulho, as altercações sobre política e os fregueses que não faziam menção de ir embora, achando que podiam beber até de manhã. Com sua longa barba, ele anotava os pedidos e as contas dos clientes em papel rústico de pacotes de cigarros e nunca esquecia as dívidas que alguém eventualmente fingisse ignorar.  Passou os últimos anos de vida em Santo Antônio de Lisboa e, de acordo com amigos, falava pouco dos tempos do velho bar.

Um dos frequentadores do Katcipis era o jornalista Luiz Henrique Tancredo, que lembra das conversas regadas a cerveja que terminavam com um longo – e às vezes trôpego – caminho até em casa, na rua Crispim Mira, não sem antes deixar em suas residências alguns amigos de copo, como o barão Udo Von Wangenheim. “A cidade era uma vila e andávamos à noite por ruas calmas sem receio algum”, conta ele, falando da Bocaiúva e da Trompowsky, por exemplo. “O bar reunia gente de todas as tribos”, ressalta. “As discussões políticas envolviam até mesmo gente que não dominava o assunto. E, para melhorar, o Agapito era um grande gozador”.

 

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