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Acervo de Altino Flores é um painel visual do início do século 20 em Florianópolis

Familiares do jornalista preservaram documentos e fotos que marcaram a trajetória do intelectual na imprensa, na política, na educação, na literatura e na Academia Catari­nense de Letras

Carlos Damião
Florianópolis
20/07/2018 às 22H11

Altino Corsino da Silva Flores foi um dos intelectuais mais importantes de Santa Catarina no século 20. Trinta e cinco anos após sua morte, familiares do professor, tradu­tor, jornalista e acadêmico preservam documentos, fotos e objetos que marcaram sua rica trajetória na imprensa, na política, na educação, na literatura e na Academia Catari­nense de Letras, da qual foi um dos fundadores.

Nascido em São José, Altino Flores foi dono do jornal “O Estado” por mais de 20 anos - Álbum de família/Divulgação/ND
Nascido em São José, Altino Flores foi dono do jornal “O Estado” por mais de 20 anos - Álbum de família/Divulgação/ND


A única filha viva, Noemi Flores Boppré, 89 anos, guarda boa parte desse tesouro, que é apreciado pelos descendentes de Altino Flores, além de amigos da famí­lia. “No futuro podemos digitalizar todo esse material e socializá-lo, porque não faz sentido guardar no baú tantas preciosidades históricas”, diz o vereador Afrânio Boppré (PSOL), filho de Noemi. “Colocar esse acervo à disposição da comunidade servirá como um ‘memorial’ público de meu avô”, completa.

Entre as fotos de Florianópolis, há registros dos escom­bros do prédio da Assembleia Legislativa do Estado, destru­ído por um incêndio em 1956. Há também uma imagem mostrando como era a esquina das ruas Arcipreste Paiva e Tenente Silveira antes da construção do Edifício das Secre­tarias (depois sede da Secretaria da Fazenda e hoje do ga­binete do prefeito). A edificação de características coloniais foi demolida no início da década de 1950, durante o gover­no de Irineu Bornhausen (UDN). A escolha do local se deu por uma razão prática: a proximidade com o Palácio dos Despachos, sede do governo, e a facilidade de circulação e acesso dos secretários e funcionários públicos. O sobrado já era utilizado como extensão do palácio.

Esquina das ruas Tenente Silveira e Arcipreste Paiva. As duas edificações foram demolidas na década de 1950. - Álbum de família/Divulgação/ND
Esquina das ruas Tenente Silveira e Arcipreste Paiva. As duas edificações foram demolidas na década de 1950. - Álbum de família/Divulgação/ND


Cenas do cotidiano da cidade

Como Altino era ligado à UDN (União Democrática Nacional), foi secretário dos governos de Irineu, Jorge La­cerda e Heriberto Hülse. Sua proximidade com os líderes do partido era muito anterior à própria fundação da UDN (1945). Foi amigo e companheiro de política dos irmãos Adolfo Konder e Victor Konder; o primeiro, governador do Estado entre 1926 e 1930, o segundo, deputado estadual en­tre 1919 e 1924. Por essa razão, há inúmeras imagens dos Konder, de Irineu, Lacerda, e de outras personalidades polí­ticas das décadas de 1930 a 1950.

Nos anos 1920 ele “herdou” o jornal “O Estado” dos ir­mãos Konder, transformando o principal matutino de Flo­rianópolis num dos mais importantes de Santa Catarina. Foi dono do jornal até a década de 1940, quando numa manobra bem-sucedida do governador Aderbal Ramos da Silva, OE mudou de mãos, de linha editorial e orientação política (da UDN para o PSD, o Partido Social Democrático). Altino atuava como repórter, redator, editor e fotógrafo. Entre seus registros fotográficos constam cenas do cotidia­no da cidade, do comércio, do Miramar, das ruas históricas e do Mercado Público, e da vida nos morros.

As fotos de aspectos e personagens da cidade e do mun­do intelectual chamam a atenção de imediato. Como uma pequena imagem que mostra a Igreja Matriz (Catedral Me­tropolitana) no fim da década de 1910, ainda com os traços originais. A nova característica arquitetônica foi projetada e executada para as comemorações do centenário da Inde­pendência, em 1922. pendência, em 1922.

Catedral Metropolitana antes da radical transformação arquitetônica, fim da década de 1910 - Álbum de família/Divulgação/ND
Catedral Metropolitana antes da radical transformação arquitetônica, fim da década de 1910 - Álbum de família/Divulgação/ND


Primeira edição de “A Ilha”

Um dos tesouros mais bem guardados é a edição original (de 1900) do livro “Santa Catari­na – a Ilha”, de Virgílio Várzea, até hoje uma obra fundamental para se compreender a história, a geografia, a cultura e a gente da Ilha de Santa Ca­tarina, disponível digitalmente, graças a iniciativa da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina). Os óculos, com armação de ouro, que Altino usava para suas leituras, também estão nesse inventário de relíquias, além de inúmeras fotos familiares.

Entre personalidades intelectuais há no arquivo imagens de Cruz e Sousa (que morreu quando Al­tino tinha seis anos), do romancista Ladislau Ro­manowski, do artista plástico Estanislau Traple, do jornalista e poeta Colbert Malheiros (tio da escrito­ra e professora Eglê Malheiros), e do também jor­nalista Petrarcha Callado, cunhado de Altino, uma das testemunhas do assassinato de Crispim Mira, em 1926, dentro da redação do jornal “Folha Nova”. Militante de esquerda, Petrarcha foi preso político torturado durante o Estado Novo (1937-1945). Publi­cou em 1947 o livro “Comandos Socialistas nas Ter­ras onde Dias Velho foi o primeiro a desembarcar”.

Altino (à esq.) com o romancista paranaense Ladislau Romanowski, registro de 5 de agosto de 1928 - Álbum da família/Divulgação/ND
Altino (à esq.) com o romancista paranaense Ladislau Romanowski, registro de 5 de agosto de 1928 - Álbum da família/Divulgação/ND


Fundador da ACI

Nascido no arraial de Capoeiras, então perten­cente a São José, em 4 de fevereiro de 1892, Altino viveu toda a sua vida em Florianópolis, onde exer­ceu cargos públicos, foi professor, jornalista, tradu­tor e notável polemista literário. Além da Academia Catarinense de Letras foi fundador e primeiro pre­sidente da ACI (Associação Catarinense de Impren­sa), em 1934. Morreu em 19 de outubro de 1983. Era casado com Zilda Callado, com quem teve cinco fi­lhos: Percival, Ênio, Marília, Noemi e Zita. Além de Afrânio, são seus netos o jornalista e escritor Sérgio Lino e o dirigente esportivo Norton Boppré. Entre os bisnetos estão os jornalistas esportivos Carlos Edu­ardo (Cacau) Lino e André Lino.

Os óculos de Altino sobre a primeira edição de “A Ilha” (1900), que ele conservou com zelo de bibliófilo - Álbum de família/Divulgação/ND
Os óculos de Altino sobre a primeira edição de “A Ilha” (1900), que ele conservou com zelo de bibliófilo - Álbum de família/Divulgação/ND

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