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Acervo da Ditadura em Santa Catarina narra período sombrio da história política brasileira

Documentos sobre presos integram o acervo de instituto vinculado à Udesc

Paulo Clóvis Schmitz
Florianópolis
26/06/2017 às 22H51

As fotos do corpo de Higino João Pio, prefeito eleito de Balneário Camboriú, após a morte nas dependências da Escola de Aprendizes de Marinheiros, em Florianópolis, em 1969, chocam a todos, e não poderia ser diferente com as bibliotecárias do Instituto de Documentação e Investigação em Ciências Humanas da Udesc (Universidade do Estado de Santa Catarina). Ele aparece em diferentes situações, na posição de enforcado, deitado depois da autópsia, com a marca de um fio no pescoço, em imagens feitas de cima, de lado e em closes que mostram o rosto contorcido. O relatório da Comissão Estadual da Verdade acerca do político é um dos mais completos e impressionantes do Acervo da Ditadura em Santa Catarina, que vai ser apresentado hoje, às 15h, no IDCH, vinculado ao Centro de Ciências Humanas e da Educação da Udesc.

O acervo é o resultado do trabalho do Coletivo Catarinense Memória, Verdade e Justiça, que passou anos levantando informações acerca das prisões, perseguições, inquéritos, retaliações, torturas e mortes de opositores do regime militar após o golpe de 1964. Ele contém, por exemplo, o relatório e o processo sobre o deputado Paulo Stuart Wright, desaparecido durante os anos de chumbo e cujo corpo nunca foi encontrado. Ali estão o passaporte do deputado, reportagens, gravações e objetos da família. Só em relação aos pedidos de indenização há 455 processos com cópia no acervo. “A ideia é mostrar e disponibilizar o material, para que esses fatos não aconteçam mais”, diz a coordenadora do IDCH, Fernanda de Sales, que também é professora do Departamento de Biblioteconomia e Gestão de Informação da Udesc.

Bibliotecária Iraci Borszcz é uma das responsáveis por organizar as informações - Daniel Queiroz/ND
Bibliotecária Iraci Borszcz é uma das responsáveis por organizar as informações - Daniel Queiroz/ND



Uma vez apresentado de forma oficial, nesta terça-feira, o acervo estará disponível para a consulta de pesquisadores, estudiosos e familiares das pessoas presas, torturadas ou mortas na ditadura. Embora o material esteja digitalizado e gravado em DVDs, as consultas podem ser feitas in loco, com exceção de documentos que envolvem questões de direito autoral ou de autorização das famílias. A partir de um sumário de tudo o que foi reunido, os interessados também podem acessar os processos de indenização, pois foi provado que a tortura, desaparecimento ou morte foram crimes cometidos durante a repressão. A lista de presos políticos em Santa Cataria inclui nomes conhecidos como Anita Pires, Manoel Dias, Salim Miguel, Sérgio da Costa Ramos, Derlei Catarina de Luca, Edison Andrino de Oliveira, Nelson Wedekin e Nery Clito Vieira.

Crime parecido com o de Vladimir Herzog 

A riqueza do Acervo da Ditadura em Santa Catarina está também nas fotos, biografias, livros, revistas, filmes, reportagens de jornais locais e de fora do Estado, folders, cartazes e banners das décadas de 60 e 70. “Por enquanto, as pastas serão mantidas na ordem e na forma que chegaram”, diz a bibliotecária Iraci Borszcz, do IDCH. Ela espera que a sede do instituto, localizado numa casa antiga da rua Visconde de Ouro Preto, ao lado do Corpo de Bombeiros, seja reformada para que haja mais espaço e o material possa ser visto e consultado com mais conforto pelos interessados. “A intenção do Coletivo é conscientizar a população sobre o período da ditadura, e a Udesc, sendo pública, deve dar às pessoas o direito de conhecer os dados levantados pelas entidades que compõem o coletivo”, reforça Fernanda de Sales, coordenadora do instituto.

O caso de Higino João Pio chama a atenção porque tem similaridades com a morte do jornalista Vladimir Herzog no Doi-Codi (órgão de inteligência e repressão do Exército) de São Paulo, em 25 de outubro de 1975. Segundo o laudo da época e a versão dos órgãos de segurança, Pio teria se enforcado no banheiro da cela, no dia 3 de março de 1969, mas as fotos demonstram os mesmos equívocos do episódio de Herzog – os pés tocam o chão e há evidências de que ele foi pendurado com um fio no registro do chuveiro depois de morto.

Em 2014, o jornal Notícias do Dia publicou uma série de reportagens sobre os 50 anos da ditadura e ouviu, entre outras pessoas, o empresário Júlio Cesar Pio, filho do ex-prefeito, em Balneário Camboriú. “Creio que denúncias mentirosas e rixas políticas provocaram tudo isso”, afirmou o empresário sobre a morte do pai. Higino era do PSD (Partido Social Democrático), agremiação que apoiou o golpe militar, e foi o primeiro prefeito do município, que se emancipara de Camboriú em 1965. Ele era amigo do governador Ivo Silveira e do ex-presidente João Goulart, que tinha um imóvel no balneário e descia de hidroavião próximo à praia para veranear com a família.

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