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Domingo, 18 de Novembro de 2018
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"A pobreza diminuiu, mas a desigualdade não", diz FHC

Confira a íntegra da entrevista do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso ao grupo RIC, que será republicada na edição deste fim de semana

João Meassi
Florianópolis
Daniel Queiroz/ND
FHC descontraído,  tendo aos fundos a avenida Beira-mar, onde falou sobre política e Brasil

Aos leitores
Em virtude de problemas técnicos na  Gráfica Riosul,  a edição de ontem do Noticias do Dia foi prejudicada com a troca e a falta de páginas em alguns cadernos. Por esse motivo, pedimos desculpas, e em respeito aos nossos leitores,  republicamos  hoje  a íntegra da entrevista exclusiva concedida pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso ao Grupo RIC.

O sociólogo Fernando Henrique Cardoso, 80 anos, duas vezes presidente do Brasil, de 1995 a 1998 e 1999 a 2002, pai do Plano Real, presidente nacional de honra do PSDB, passou a quinta-feira em Florianópolis, onde foi laureado com a comenda Anita Garibaldi, a maior honraria do Estado, e recebeu na Câmara o título de cidadão honorário de Florianópolis. Ele deu entrevista aos veículos do Grupo RIC no Hotel Majestic.
Otimista, FHC aposta no Brasil: “A vida melhorou”. Mas faz uma ressalva: “A pobreza diminuiu, mas a desigualdade não”. Ele elogiou a presidente Dilma Rousseff e deu umas estocadas no ex-presidente Lula: “O Lula acha que fez tudo e eu não fiz nada. A Dilma tem um comportamento mais civilizado”. O ex-presidente disse que não dá para conviver com corrupção, mas acredita na presidente Dilma Rousseff. “Ela não é leniente É mais firme.”
Numa entrevista de quase uma hora dada ao jornalista Paulo Alceu, FHC deu uma aula de política e sociologia. Disse que política tem que dosar razão e emoção. Sobre o PSDB, do qual disse estar afastado, acha que o partido tem que ter líderes naturais: “Não temos no PSDB uma liderança natural. Até um dado tempo, eu exerci esse papel por causa do Plano Real. O meu sucessor natural morreu, era o Mário Covas”. Sobre a situação econômica do mundo, FHC acha que está demorando demais a ajuda a Grécia. 

O senhor, ao receber a medalha Anita Garibaldi, disse que os partidos políticos estão distanciados das pessoas. Por que houve esse distanciamento e de que modo eles podem se reaproximar?
As razões dependem de cada país, não é só aqui, não. Em outros países existe um distanciamento entre a vida e a política. Aqui, o Brasil cresceu muito. A população aumentou. Novas camadas sociais que não tem conexão com a vida partidária. Há uma massa de jovens que tem outras preocupações. Basta ver o que acontece nas redes sociais. Os temas que eles discutem lá não são os temas que o Congresso Nacional discute. São outros. Há uma espécie de falta de convergência. Os partidos discutem só o poder. As pessoas não estão interessadas em poder. E não há mais como havia no passado a preocupação com uma teia de militantes no partido, diminui muito em proporção. Tem gente que só se inscreve no partido. Vai lá e faz uma fichinha e guarda no cartório. Essa pessoa não está motivada e participando efetivamente do partido.
 
Isso faz com que o voto se torne ou comece a ser desvalorizado?
Sem dúvida. As pessoas votam e esquecem em que votaram. Não cobram. Agora com internet alguns começam a cobrar, mas é uma cobrança genérica.
 
O senhor aposta nessa reforma política que está sendo discutida no Congresso?
Não. Essa reforma está sendo feita por pessoas que foram eleitas nesse sistema e por partidos que estão interessados em manter o controle. Dificilmente o Congresso vai fazer uma reforma para mexer nisso que estou dizendo. Tomara que mexa, mas vai ser difícil.
 
No seu entender a oposição hoje perdeu o ritmo? Ela perdeu o passo?
O que eu disse é que os setores populares, dominados pelo governo, não pelo PT, pelo governo, por meio de bolsas e tal, é claro que a luta lá vai ser perdida. Há outros setores da sociedade. Há trabalhadores da sociedade, operários da sociedade, a classe-média. Há muitas formas de classe média emergente no Brasil que podem não ter partido nenhum. Por que o PSDB não assume que é o partido da modernização, da conduta ética correta, de mudar para um Brasil mais ativo e mais dinâmico, que participe do mundo, assumir o que ele é.  Em vez de disputar com o PT quem dá mais assistência.  Eu acabei com o assistencialismo quando fui para o governo. Tem que ter dignidade. Tem que ter direito ao trabalho. Ter uma bolsa para mandar o filho para a escola é um direito. Não é uma assistência. Quem inventou essas bolsas que estão ai fui eu. Só que não tirava proveito político. O governo atual tirou e ganhou esse eleitorado. Tem gente que não se sente representado. Por que o PSDB não encarna essa coisa mais dinâmica, mais nova. Aqui no Sul, o PSDB ganha eleição porque tem mais sociedade, mais organização, menos Estado e mais mercado. 
 
Então o PSDB está fora do ritmo?
No meu entender estão todos fora do ritmo. O PSDB também está fora do ritmo, tem uns lugares que não, mas em geral. Se não tivesse fora do ritmo não estaríamos nos perguntando o que nós vamos fazer.  Agora teremos um seminário grande no Rio de Janeiro, em novembro, para reorientar o PSDB. O que me preocupa menos é a disputa. Quem disputa tem uma solução clássica. Quem disputa tem prévias.  Disputa entre filiados. Você não pode impedir que uma pessoa tenha ambição a isso e aquilo

O senhor tem uma relação educada, uma relação respeitosa com a presidente Dilma. Como é isso?
Quem tinha relação próxima minha era o Lula. Desde 1974. E até hoje nós nos encontramos. O Lula, depois que eu deixei a presidência, imaginei que ele fosse ter um comportamento como a Dilma está tendo agora. Tratar com respeito um ex-presidente. Mas não, passaram a me tratar um inimigo. Uma bobagem. Um erro. Quando você já foi presidente não está mais com essa gana de querer disputar com outro. O Lula passou a achar que fez tudo e eu não fiz nada. Bobagem. Eu fiz, ele fez, a Dilma vai fazer e o Brasil se constrói com o esforço de muitos de nós.

A crise que a Europa vem enfrentando pode respingar aqui e trazer problemas para o Brasil?
Pode. Depende do que resolvam lá. Estão atrasando muito a resolução da crise. Eu acho que há muito tempo que a Grécia não pode pagar o que está devendo. Tem que fazer algum tipo de moratória. O nome é feio, mas estão chamando de reestruturação. Mas é a mesma coisa. Se demorar muito a resolverem o problema, isso vai ter um choque enorme. Vai haver falta de liquidez. Talvez até de insolvência.

O senhor declarou que imaginar um mundo sem drogas é o mesmo que imaginar um mundo sem sexo. A droga vem estimulando a criminalidade. O senhor participa de movimentos que combatem a droga. Esse combate está sendo utópico?
Está perdido. Não se está combatendo o foco correto. Está se combatendo só a repressão. Só na produção da droga e no contrabando, no tráfico, não no consumo.  Não está havendo esforço para baixar o consumo. Ora, enquanto o consumo for elevado isso quer dizer que tem lucro. Se tem lucro as pessoas se sentem motivadas a se jogar na droga. Por que não fazer o que foi feito com o cigarro? Campanhas sistemáticas contra o uso do cigarro. Proibição em vários lugares. O cigarro está diminuindo muito o seu uso.  A droga, a gente tem a sensação que é um problema da Polícia. Não é da família. Não é das pessoas. Mas é.  Hoje o consumo está chegando a quase todo mundo. É preciso mudar o foco. Fazer campanhas de prevenção. Dar tratamento aos dependentes.  E não estigmatizar.  Dizer: bom, você está fora do jogo porque você é drogado. Não, é preciso recuperar. E também tem que ver qual o uso que ele faz da droga. Porque o uso da maconha o tempo todo é um perigo. Ela produz efeitos psicológicos graves. Cria psicose. Uma vez ou outra, é como a cachaça, como o vinho. Se tomar toda hora é muito grave. Tem que regulamentar.  São as famílias que tem que controlar. Ah!  Não se pode fingir que o filho não está fumando maconha. Tem que discutir. Isso faz mal. Se continuar assim terá tal efeitos.  Tem que marcar a pessoa no dia a dia. Não é a polícia só.  Repressão tem que existir. É no contrabando que se dá o crime organizado, a violência. Tem que consertar os recursos do governo na repressão no combate ao criminoso. E não botar na cadeia quem usa droga. No Brasil já não põe na cadeia quem usa droga.  

O senhor sempre apostando no Brasil?
Para mim isso é fundamental. Veja, mesmo com o que está acontecendo esse é um grande país. Com tudo: com violência, com drogas, com pobreza, com corrupção... Falta de organização política. O Brasil vai para frente. É um povo fantástico. É uma sociedade fantástica.  As empresas crescem.  As universidades crescem. A mídia cresce. Vocês são um exemplo disso.  Eu acredito muito no Brasil.

 

O maior símbolo de bravura catarinense foi entregue a FHC
O sociólogo e ex-presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, recebeu o maior símbolo de bravura catarinense. A medalha do Mérito Anita Garibaldi foi entregue pelo governador Raimundo Colombo, no Teatro Pedro Ivo Campos, em Florianópolis.
A honraria é dada aos cidadãos que se destacam por serviços prestados ao Estado de Santa Catarina e ao Brasil. “Fernando Henrique merece este reconhecimento por uma questões de justiça. Seus oito anos de governo o consagraram na memória da nação e sua imagem cresce como referência. Como homem público e cidadão brasileiro ele deu uma grande contribuição ao país. Não só no plano real ou no modelo da ação social que ele criou, mas principalmente pelo exemplo que a figura FHC representa para todos nós”, destacou o governador.
Nascido no Rio de Janeiro, em 1931, Fernando Henrique afirmou-se desde o final dos anos 60 como um dos mais influentes intelectuais latino-americanos na análise de temas como os processos de mudança social, desenvolvimento e dependência, e democracia. “Meus primeiros trabalhos como sociólogo se desenvolveram em Santa Catarina. É um imenso orgulho para mim, hoje, retornar a este Estado, observar o quanto ele cresceu e saber que contribuí para este desenvolvimento”, afirmou FHC.
O ex-presidente destacou, ainda, que as ações que realizou em prol do Brasil só foram possíveis com o envolvimento político de diversas frentes que unidas fizeram o país sair da crise. “Se foi possível fazer alguma coisa pelo Brasil, em determinado momento, não foi virtude pessoal minha. Se tive algum mérito foi de sentir que era chegada a hora de juntar todos e unificar forças para realizar mudanças que fizessem o país progredir. Quando se está em momento de crise é mais fácil abrir novos caminhos”, disse. Uma das principais iniciativas desenvolvidas pelo governo FHC foi o Bolsa Escola que substituiu o assistencialismo e a caridade pública no Brasil.
O mérito Anita Garibaldi, criado em 1972, agracia pessoas físicas e jurídicas nacionais e estrangeiras que se destacaram no campo de suas atividades de forma notável ou relevante e que tenham contribuído para o engrandecimento do Estado ou do país. “Nesta manhã, eu recebo essa homenagem generosa e que me deixa satisfeito. Ser condecorado com a Medalha Anita Garibaldi, pelo que ela simboliza, é muito gratificante para mim. Só espero que este reconhecimento feito hoje possa ser lembrado por muito tempo”, destacou Fernando Henrique.

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