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Sexta-Feira, 24 de Novembro de 2017
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À espera do solstício, pesquisadores refazem trilhas a pedras que servem de observatórios do sol

Proposta é obter apoio público para polo turístico e de pesquisas arqueológicas e astronômicas no morro da Galheta, Leste de Florianópolis

Edson Rosa
Florianópolis
Luiz Evangelista/ND
Vista do nascer do sol na Fortaleza da Barra

 

A curiosidade do menino e a inquietação do pescador que sonhava conhecer o mundo pelo mar transformaram a vida de Adnir Ramos, o Maninho. Sem precisar sair da Fortaleza da Barra da Lagoa, onde criou e mantém o IMMA (Instituto Multidisciplinar de Meio Ambiente e Arqueoastronomia), na área do Parque Municipal da Galheta.

Aos 50 anos, ele se diverte quando lembra o tempo em que precisava filar bandejão no Restaurante Universitário da UFSC, garantir o peixe para sustento dos irmãos mais novos e dar conta das tarefas universitárias.

Formado em biblioteconomia, com pós-graduação em antropologia, os estudos o ajudaram a interpretar parte dos mistérios do mundo. Mas é o magnetismo das rochas com suas estranhas formas que o instiga a continuar percorrendo as trilhas dos morros do Zé Coelho, do João Caetano e do Zeferino, no Alto da Galheta, para contemplar o céu e as estrelas. O sol em especial.

Não foi por acaso que o pescador localizou os agrupamentos de pedras sobrepostas que formam pequenas janelas. São frestas de onde se vê o nascer do sol nos solstícios e equinócios, eventos celestes que marcam a troca das estações do ano. “É um grande calendário luno-solar”, costuma repetir diante dos grandes blocos rochosos, monumentos megalíticos que permitem determinar pontos cardeais e uma série de alinhamentos astronômicos.

Junto aos dolmens, também foram descobertas inscrições rupestres, marcas deixadas povoações antigas. Segundo o astrônomo Alexandre Amorim, rochas sobrepostas sobre três bases são evidências de que antigos habitantes do litoral, coletores que viviam de caça e pesca milhares de anos antes da chegada dos europeus, tinham conhecimentos de astronomia.

Sabedoria utilizada para marcar as estações do ano, com instrumentos de medição do tempo que ainda hoje permitem compreender a mecânica do movimento solar.

“As pesquisas, divulgadas pelo IMMA geram questionamentos que permanecem sem resposta. Uma razão a mais para se lutar pela preservação desses sítios arqueoastronômicos”, argumenta Maninho.

Caminhada para ver o nascer do sol

A semana que antecede ao solstício de inverno será de trabalho intenso para os integrantes do IMMA. Uma das tarefas mais importantes e cansativas será a abertura de trilhas fechadas pelo mato desde o ano passado. O acesso principal ao sítio da Galheta, a partir da Fortaleza da Barra, tem manutenção periódica e está bem cuidado. “Mas, outros caminhos mantemos fechados o resto do ano, para preservar pontos de observação ainda pouco conhecidos e evitar a presença de vândalos”, explica Adnir Ramos.

Para o fim de semana, está prevista mais uma edição da caminhada astronômica do Leste da Ilha, a 23ª desde o início das pesquisas, em 1986. Depois de curso teórico, no sábado à tarde o grupo será guiado até o topo do morro, seguindo as trilhas aos pontos de observação demarcados. Uma das paradas será na Pedra do Trono, de frente para o mar da Galheta, onde quem senta, segundo Adnir Ramos, ”tem a sensação de ter controle absoluto do universo”.

Passarão a noite acampados junto ao dolmen da oração, ao lado da Pedra Virada, para observar a lua cheia e, na manhã seguinte, o nascer do sol. “Estes megalitos estão alinhados com monumentos semelhantes existentes em outras partes do mundo”, diz o pesquisador.

Sabedoria que vem ao amanhecer

As formações rochosas usadas para  olhar o céu começam no quintal da casa de Adnir Ramos, junto ao canal da Barra da Lagoa. Mas se concentram no alto do morro, de frente para o Leste, onde a luz matinal parece brotar do mar.

Ainda em busca de respostas para os mistérios da vida na terra, Adnir Ramos se rende ao poder do sol. Como acredita que os povos antigos se voltavam para Leste em busca da luz do conhecimento, o pesquisador que nunca deixou de tarrafear nos costões da Barra da Lagoa e praias dos arredores, vê no amanhecer o primeiro passo da ciência. "É o homem tirando sabedoria do universo", ensina.

As pedras também são fonte de inspiração e conhecimento para Maninho, que desde menino tentava entender como uma foi parar sobre a outra. Queria ser marinheiro, viajar pelo mundo embarcado em navio, mas, em 1986 estava a bordo do Marisca, bote de sete metros usado nas pescarias na costa, quando viu as primeiras inscrições rupestres. Foi quando começou a decifrar os mistérios das rochas para fazer a leitura do céu.

Vandalismo e planta exótica ameaçam sítio  

Cansado de ser chamado de “lunático”, Maninho não pretende mudar a opinião dos incrédulos.  “Questione quem quiser, o importante é ver para entender”, diz. E não desiste do ideal de transformar o sítio arqueológico e astronômico da Galheta em ponto turístico aberto à visitação pública, com potencial e estrutura para atrair visitantes nacionais e estrangeiros.

Para tanto, espera resposta da Floram (Fundação do Meio Ambiente de Florianópolis) à proposta de parceria. A prioridade é a conservação das trilhas e, principalmente, derrubada dos plantios de Pinus elliottii, espécie invasora que se prolifera pela encosta do morro. “É a maior praga. Onde cresce, acaba com as árvores nativas e altera o ecossistema local”, argumenta.

Em alguns trechos, pontos de observação astronômica chegaram a ficar encobertos pelas árvores exóticas, importadas da América do Norte na década de 1960 com pretexto de reflorestar áreas desmatadas da Ilha. É o caso da pedra do Pensador, teoricamente alinhada a oeste com a cidade inca de Machu Pichu, no Peru. Também apoiada sobre três bases, lá de cima o pôr do sol ganha uma dose a mais de misticismo e poesia.

Enquanto o apoio oficial não vem, os próprios integrantes do IMMA se encarregam de proteger o que resta da mata nativa. Às vezes em mutirão, mas quase sempre sozinho, há 20 anos Maninho tenta conter a invasão, num trabalho incansável. “Hoje, o pínus é uma das principais causas de poluição e assoreamento da Lagoa da Conceição”, diz.

A oficialização do sítio astronômico, com manutenção e identificação das trilhas aos dolmens, também evitaria a presença de vândalos. Algumas pessoas fazem fogueiras ao lado das pedras, descaracterizando importantes pontos de observação. “E não se dão conta do risco de o fogo se espalhar pelo morro”, alerta.  Segundo Maninho, o único apoio público ao projeto ocorreu em 1996, na administração Angela Amin, quando a prefeitura realizou levantamento topográfico e geodésico das “pedras sagradas” da Galheta.

Leste da Ilha

Sítios arqueoastronômicos

Pedra do Frade

 Localizado no costão da Barra da Lagoa, após a travessia da ponte pênsil e a prainha, pela trilha das piscinas naturais. Cerca de 10 minutos de caminhada pelo costão revela duas colunas de pedras que se destacam em relação ao ambiente e permitem a observação de um intervalo do horizonte. 

Diante da pedra do Frade,  ocorre o nascer do Sol na época do solstício de verão do hemisfério sul, conforme foi catalogado pelo pesquisador Keler Lucas. Este mesmo sítio está relacionado com o solstício de inverno, a sudoeste da pedra do Frade, quando o sol nasce entre as duas rochas. No mesmo costão, há quatro petroglifos em forma de rede, linhas cruzadas e onduladas, o que pode indicar a  do homem pré-histórico.

Ponta do Gravatá

São várias formações rochosas pitorescas, e uma delas chama a atenção. Trata-se de pedra similar a um cubo, repousada sobre uma plataforma no limite de abismo de cinco metros. Neste ponto é possível observar a linha do horizonte tocando o ponto entre a pedra e a plataforma. Neste cruzamento de linhas ocorre o amanhecer no solstício de verão. Na praia, diversos amoladores são sinais deixados por antigas civilizações na Ilha.

 

Morro da Galheta

Sítio está relacionado principalmente com os equinócios embora haja alinhamentos solsticiais. Em relação aos equinócios, há o alinhamento de três pedras com cerca de três metros de diâmetro. Uma sobreposta à outra, e a terceira a cerca de três metros a leste das primeiras.  A oeste, próximo a uma parede rochosa, percebe-se minúscula janela de onde se avista a linha do horizonte, e o nascer o sol no solstício de inverno. O único vestígio arqueológico nas proximidades é uma inscrição rupestre descoberta por Adnir Ramos na trilha conhecida como Caminho dos Reis.

Movimentos do sol

Solstício: a época do ano em que o Sol incide com maior intensidade em um dos dois hemisférios. Durante o solstício, o sol surge no ponto mais afastado do equador celeste ao realizar o seu movimento aparente no céu.

Equinócio: o momento em que o sol incide com maior intensidade sobre as regiões que estão localizadas próximo à linha do equador.

Dolmens: monumento do período neolítico, de forma circular ou poligonal, formado por duas ou mais pedras verticais e onde assenta uma grande pedra, formando assim uma espécie de abrigo. Muito se tem especulado sobre a utilidade de tal construção, mas sabe-se que praticamente em todas elas apareceram restos de esqueletos e utensílios usados na época, deduzindo-se então que funcionaria como túmulo. Há ainda arqueólogos que acreditam tratar-se também de um espaço de culto, de um observatório ou de um relógio solar. Período em que o homem sai das cavernas e começa a se organizar.

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