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Sábado, 17 de Fevereiro de 2018
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"A crise é generalizada", afirma economista de Santa Catarina

Luiz Henrique Belloni Faria diz que momento exige planejamento a longo prazo e que brasileiro precisa ter educação financeira

Redação ND
Florianópolis
Eduardo Valente
Belloni Faria defende diminuição dos gastos com manutenção da máquina pública

A palavra crise tem sido citada com frequência cada vez maior os noticiários, o debate político e as conversas nas esquinas do país. Com a inflação ameaçando disparar, a redução no consumo, a queda nos níveis de emprego e na arrecadação do governo, o cenário é pintado com cores nada animadoras pela mídia e pelos partidos de oposição ao Planalto. O presidente da OESC (Ordem dos Economistas do Estado de Santa Catarina), Luiz Henrique Belloni Faria, concorda que o momento preocupa e que uma mudança de quadro não será possível no curto ou médio prazo. Ele também afirma que é necessário investir na educação financeira dos brasileiros, que gastaram muito nos anos de crédito fácil e hoje estão endividados e sem dinheiro para manter os antigos padrões de consumo.

Fala-se muito em crise, em aumento do desemprego, em ameaça de recessão. Como presidente de uma entidade que congrega os economistas de Santa Catarina, como o senhor vê o quadro atual da economia no país?
Vivemos um momento muito preocupante, e a maioria das pessoas sente o problema, mas não sabe bem o que está acontecendo. A explosão da crise já era previsível para muitos profissionais da nossa área. Tanto que as empresas com economistas em seus quadros – e onde eles tenham voz ativa – estão sofrendo menos. A visão da crise é generalizada e poucos setores da economia não vêm sendo afetados. Há dificuldades no comércio, no setor automotivo e no ramo das terceirizações.

Ao que o senhor atribui a piora no quadro, com a escassez de dinheiro no mercado e a queda no consumo?
O crescimento que assistimos nos últimos anos se acentuou quando o governo liberou totalmente o crédito, sem observar as contraindicações que havia nisso, resultando no grande endividamento familiar que enxergamos hoje. Com mais créditos e prazos, a população partiu para a compra compulsiva, aproveitando as ofertas e promoções que vieram com o dinheiro fácil. Hoje, a sociedade está sem recursos, o dinheiro não circula, não passa por várias mãos, como deveria ocorrer – e é isso que movimenta a economia.

O senhor vislumbra uma saída no médio prazo, ou dar a volta por cima exigirá uma longa espera?
Não consigo pensar em recuperação sem uma economia sustentada. Para isso, é preciso ter planejamento e programas com até 20 anos de execução. Porém, os mandatários querem agradar a todos, pois sempre há uma eleição logo adiante. A Argentina, por exemplo, só se sustentou enquanto teve a paridade do peso com o dólar, mas esse é um crescimento sem alicerces, e os êxitos são eventuais. Por aqui, a visão geral é de que a mudança de expectativas não é para o curto prazo, até porque o problema afeta as indústrias da linha branca, os produtos de informática, os veículos e outros setores.

O ajuste fiscal anunciado pelo governo pode dar resultados?
O governo mexe nas aposentadorias, no seguro-desemprego e no auxílio-doença, eleva o IPI e outros tributos, aumenta a gasolina e taxa alguns produtos importados, mas não fala em subir o tributo sobre o lucro líquido dos bancos. O corte anunciado este ano, de R$ 69,9 bilhões, tem um impacto de 5,5% sobre o total do orçamento, mas em 2012, quando o corte chegou a R$ 55 bilhões, o índice foi maior, de 6,2%. Ou seja, a economia, em termos percentuais, é a menor dos últimos anos, desde a crise de 2008. De qualquer maneira, esse corte ia acontecer também se Aécio Neves fosse eleito, porque as diretrizes são totalmente mal traçadas.

O senhor falou em endividamento da população. Como fazer as famílias consumirem menos depois de anos de facilidades para comprar o que queriam?
O governo deveria se preocupar em dar orientações de educação financeira aos brasileiros. Assim, combateria a compulsividade nas compras e haveria uma auto-reeducação das pessoas. Os economistas podem ser muito úteis nessa hora. Defendo que haja cadeiras de educação financeira familiar nas escolas, mesmo sabendo que os resultados só virão no longo prazo. De sua parte, além de educar as pessoas, porque se trata de um problema social, o governo deveria economizar cortando ministérios, diminuindo os cargos em comissão e o custeio da máquina pública, que hoje alcança valores exorbitantes. A OESC (Ordem dos Economistas do Estado de Santa Catarina) criou o programa Fale Diretamente com o Economista (que pode ser acessado no site www.oesc.org.br), que ajuda as pessoas a solucionarem problemas de ordem econômica. Ali, percebemos que 80% dos questionamentos denunciam o desespero das pessoas por causa do endividamento.

Os problemas econômicos da China e da Grécia podem afetar o Brasil?
A situação da China e da Grécia pode repercutir muito no Brasil. Com a China, especialmente, o Brasil aumentou as trocas, pelo grande volume de exportação de commodities. Se o crescimento chinês, que já foi de 11% ao ano, se mantiver em 7%, ainda será um mercado estrondoso. Hoje, somos dependentes deles.

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