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70% da população nas ruas da Grande Florianópolis têm trabalho remunerado, mostra pesquisa

Moradores contam como o trabalho os dignifica e como foram parar nas ruas da Grande Florianópolis

Dariele Gomes
Florianópolis
10/07/2017 às 09H11

A rua é o seu escritório, os degraus dos prédios a sua bancada de trabalho e as marquises das lojas garantem abrigo para os trabalhos em dia de chuva e frio. As mãos calejadas e sujas mostram que o marceneiro Roberto Ferreira Cavalcante, 46, mesmo em situação de rua, trabalha e acredita que a dignidade de homem começa por um exercício. A história de Cavalcante é uma das retratadas na pesquisa Pop Rua, que será lançada nesta segunda (10).

Durante o dia, Roberto Cavalcante busca trabalhos como marceneiro - Marco Santiago/ND
Durante o dia, Roberto Cavalcante busca trabalhos como marceneiro - Marco Santiago/ND



Em situação de rua há quase dois anos, Cavalcante diz que o pior das ruas não é o frio e nem a fome, mas a falta de oportunidade para sair dessa situação. “Há políticas públicas que tornam a situação de rua menos pior, mas não que nos insira novamente na sociedade. Todos os dias eu procuro “bicos” para fazer e um emprego fixo para conseguir sair dessa situação. Nos dias que eu não consigo nada para trabalhar, raras as vezes, peço dinheiro no sinal. Você sabe quanto custa para tomar um banho? R$ 10. Estou há dois dias sem”, conta o marceneiro.

Cavalcante diz ainda que, quando a situação fica muito caótica, pedir dinheiro ou comida no sinal é a solução. “Quando não há trabalho para fazer e a fome aperta, eu vou para o sinal. Procuro evitar essa situação, que para mim é constrangedora. O trabalho é que dignifica. Mas, prefiro pedir a roubar”, completa.

Com 30 anos de profissão, Cavalcante é natural de Recife, mas antes de vir para Florianópolis morou em São Paulo e Rio de Janeiro, onde arduamente trabalhou durante sete anos como marceneiro. Segundo ele, em outubro de 2014, veio a Florianópolis passar férias e em dezembro retornou a capital catarinense para morar. Ele não sabia, mas as mesmas ruas que o encantaram serviriam de abrigo dali em diante. “Fiquei deslumbrado com as belezas desse lugar. É tudo muito diferente das demais capitais brasileiras”, assegura.

Atuando como servente de obras, a crise financeira que ainda assombra o Brasil levou uma parte dos sonhos de Cavalcante para distante dele, desde o início de 2015. “Fiquei desempregado e sem condições de continuar pagando o aluguel do local que morava. De imediato, o albergue foi a solução, depois, as ruas”, lamenta.

As mãos calejadas do marceneiro não seguram só as ferramentas e madeiras no dia a dia, mas também a maior riqueza que ele possui: livros. Apaixonado pela leitura, conta que era observado todos os dias por uma mãe e filha, que passavam por ele e o viam lendo. “Até que um dia a filha pediu à mãe que fossem na livraria, pois queria ler assim como o tio da rua lia. A mãe, feliz com o exemplo que a filha tinha visto, me presenteou com o livro ‘Andando sobre as Águas’, que me renderam cinco páginas de prazer e depois foi tirado de mim.” Cavalcante foi roubado.

À noite, Roberto Cavalcanti se dedica a leitura de livros - Marco Santiago/ND
À noite, Roberto Cavalcanti se dedica a leitura de livros - Marco Santiago/ND




"Quando não há trabalho e a fome aperta, eu vou para o sinal. Procuro evitar essa situação, que para mim é constrangedora. O trabalho é que dignifica. Mas, prefiro pedir a roubar."

Roberto Cavalcante, marceneiro

 

Desprezo social é dificuldade

Fome e frio não são as maiores dificuldades enfrentadas por quem está em situação de rua na Grande Florianópolis. Para o artesão Ronny Vitor Matias dos Santos, 35, a maior dificuldade é o desprezo da sociedade. Em forma de poesia, ele diz: “Deus mandou os loucos para confundir os sábios”.

Natural de Minas Gerais, Santos morou no Rio de Janeiro, e depois de sentir que lá a oferta de drogas era muito grande, que ia se afundar no mundo dos alucinógenos, resolveu vir para Florianópolis. “Tive uma companheira, que é dependente química. Foram três anos com ela, três anos de incertezas. Até que um dia ela saiu de casa para receber um dinheiro e não voltou mais. Soube que está pelas ruas, sem dentes, sem respeito, sem alma”, conta.

Há oito meses em situação de rua, ele diz que mora em qualquer lugar, “depois de anos conturbados, você só quer paz, seja na rua ou em uma casa”, afirma. Santos diz que fuma maconha e cigarro, e que é com a sua arte de fazer pulseiras, brincos e colares, ouvindo Pink Floyd ou Engenheiros do Hawaii, que sustenta o seu vício.

“Eu não vendo minha arte. Faço uma troca justa. Dou uma obra, energia e felicidade e o outro retribui com pode. Falta olho no olho, faltam ouvidos para nos ouvirem, falta abraço. Diante tantas faltas, não roubo, utilizo do meu talento para sobreviver e o mais importante, viver em paz”, comenta Santos, enquanto confecciona uma pulseira de linhas coloridas.

Ronny: “Depois de anos conturbados, você só quer paz, seja na rua ou em uma casa” - Marco Santiago/ND
Ronny: “Depois de anos conturbados, você só quer paz, seja na rua ou em uma casa” - Marco Santiago/ND



 

Diagnóstico usa metodologia humanizada

Roberto Cavalcante e Ronny dos Santos fazem parte de 70,1% das pessoas em situação de rua que faz alguma atividade remunerada nas cidades de Florianópolis, São José, Palhoça e Biguaçu. Os dados são do Diagnóstico Social Participativo da População em Situação de Rua, o Pop Rua, organizado pelo Icom (Instituto Comunitário Grande Florianópolis), pelo Movimento Nacional de População de Rua em Santa Catarina e por organizações comunitárias. As entrevistas foram realizadas entre dezembro de 2016 e fevereiro de 2017, com 1.000 moradores de rua.

Uma proposta participativa de diagnóstico social foi desenvolvida para conhecer melhor as necessidades da população de rua na Grande Florianópolis, compreendendo suas particularidades e detectando as características e dimensões das situações de vulnerabilidade desse contexto populacional. O diagnóstico, de proposta inédita, contou com a colaboração de pesquisadores voluntários, vindos da situação de rua, para a aplicação dos questionários.

“Começamos o trabalho de pesquisa em setembro do ano passado. Tempo para que os moradores começassem a se familiarizar com a iniciativa e eles mesmos pudessem sugerir as perguntas para o questionário. Fomos construindo juntos. Foi um trabalho com a população de rua e não para a população de rua. Trabalho há cinco anos com pessoas nessa situação e é notável que para eles é muito mais fácil falar para alguém do meio, do que para um estranho”, afirma o psicólogo e coordenador de campo da pesquisa, Gabriel Amado.

Diante dessa experiência, o ex-morador de rua André Scheifer se tornou pesquisador. Conhecido em qualquer lugar onde passa, há um ano e quatro meses, Scheifer está fora das ruas. Ele construiu uma ponte de confiança com os moradores para as informações da pesquisa. “O Icom fez o que muitas instituições não fazem, que é construir com a rua e colocar a rua como ponto principal, sem impor condições, porque todo o processo foi construído de forma conjunta”, destaca Scheifer.

"Foi um trabalho com a população de rua e não para a população de rua. É notável que para eles é muito mais fácil falar para alguém do meio, do que para um estranho."

Gabriel Amado, psicólogo

 

Falta de endereço é obstáculo para emprego fixo

Embora os dados sejam positivos em relação ao trabalho que os moradores buscam, mesmo informais, a dificuldade de um emprego fixo é grande. “Quando as empresas solicitam o endereço do candidato e ele informa o do Centro Pop, ele é desclassificado da vaga, dizendo que o candidato não atendeu ao perfil ou que a empresa entrará futuramente em contato. As empresas tem receio e quando dão oportunidade, acabam por atuar em alguma atividade de forma escravista”, afirma Gabriel Amado.

O coordenador da pesquisa destaca ainda que, em caso de parceiros interessados, a ideia é continuar os trabalhos de cobrança de políticas públicas e apresentação de projetos para mudar o cenário das ruas. “A população de rua está sendo muito acessada nas últimas semanas, ganhando espaço, voz e vez. A sociedade precisa se abrir para receber esses dados e mudar os comportamentos, diante da realidade”, enfatiza.

O diagnóstico Pop Rua será lançado hoje, às 18h30, na Assembleia Legislativa. Também será apresentado um vídeo, que documentou o processo da pesquisa, com depoimentos dos envolvidos na iniciativa. O evento é aberto, basta informar a presença pelo e-mail icomfloripa@icomfloripa.org.br.

O que faz para viver?

Resultados do diagnóstico Pop Rua

Pede ou acha: 280

Construção civil, pedreiro ou pintor: 190

Lavação, guarda de carros ou flanelinha: 189

Vendedor ambulante, de doces, frutas, amendoim, flores ou jornais: 143

Catador de materiais recicláveis: 131

Carga e descarga: 97

Limpeza ou faxina: 84

Distribuidor de panfletos: 78

Outros: 203

Dos que trabalham

  • 77,8% são homens
  • 65% têm entre 30 a 49 anos

Do total

  • 70% está há menos de cinco anos em situação de rua
  • 50% vive na Grande Florianópolis há menos de um ano
  • 20% são nascidos na Grande Florianópolis
  • 92% sabem ler e escrever
  • 22% concluíram o ensino médio
  • 48% nunca tiveram acesso a nenhuma instituição profissionalizante ou de alfabetização de jovens e adultos
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