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1° de abril: o Dia da Mentira e os casos escabrosos de Floripa

Conheça as mentiras - e os mentirosos - mais famosos da Ilha da Magia; tem tainha gigante, vaca no telhado, mandioca quilométrica e até concurso de mentiras no Mercado Público

Paulo Clóvis Schmitz
Florianópolis
31/03/2017 às 19H36

Quando a polícia desconfiou dos trejeitos daquele homem de lata inspirado na série “Perdidos no espaço”, estava chegando ao fim a carreira do que passou a ser chamado, com grande dose de ironia, de “robô da Fainco”. Com rodinhas que permitiam o deslocamento pelo ambiente, olhos-lâmpadas piscando e capacidade de articular palavras, o dito robô era a grande atração da Feira e Amostras da Indústria e do Comércio, organizada pelos formandos do curso de engenharia elétrica da UFSC e que teve como sede o prédio em construção da Assembleia Legislativa de Santa Catarina, em 1968. O sujeito que estava dentro da armadura foi preso e o empresário mentor da ideia interrogado e desmascarado. “O episódio entrou para o folclore da cidade”, afirma o jornalista Carlos Damião, que o qualifica como “a grande mentira de Florianópolis”.

Afonso Veiga Filho, Valdir Dutra e Nivaldo Machado  contam suas histórias  - Marco Santiago/ND
Afonso Veiga Filho, Valdir Dutra e Nivaldo Machado contam suas histórias - Marco Santiago/ND



Estas bandas, no entanto, têm outras mentiras, talvez menores, mas nem por isso menos interessantes. Elas falam de tainhas gigantes, vacas no telhado, festas de bruxas nas pedras de Itaguaçu, rádios encontrados nas entranhas de baiacus. O Dia da Mentira já rendeu mais brincadeiras do que hoje em dia, porque a zoação era ambígua, ingênua, feita com o cuidado de não ofender o interlocutor.

“O governo vai dar aumento aos funcionários públicos”, dizia-se, dando alguns segundos para a notícia ser festejada. Depois de um tempo, o anunciante completava: “Vai ser no dia 1º de abril”. Uma expressão corriqueira no interior da Ilha – “pra mim, tu mentes” – dá a medida de como é bom desconfiar de tudo...

Circular pelas ruas do Centro de Florianópolis costuma render boas histórias, porque o ilhéu tem fama de ser um mentiroso em potencial. Além disso, num lugar que sempre teve pesca, o Mercado Público é onde o título de maior mentiroso é veladamente disputado pelos peixeiros. Nesta categoria também entram as lendas urbanas e episódios sobre cuja veracidade persistem muitas dúvidas. Afinal, Antoine Saint-Exupéry aterrissou ou não no campo de pouso do Campeche, por volta de 1930, com seu Latécoère? E os tais túneis ligando diferentes partes da cidade, partindo da Catedral Metropolitana, existiram de fato?

O diretor de peças infantis Valdir Dutra repete uma história tida como verdadeira que entrou para os anais do Teatro Álvaro de Carvalho. Estava em exibição a peça “Saudade de você”, de José Policena, monólogo em que um homem lamentava a morte da mulher. Era a década de 1960, e o teatro lotou. No entanto, segundo Dutra, “a montagem era tão ruim que todos foram saindo, só restando um espectador sentado na plateia”. O ator desceu a agradeceu por ele ter sido o único a ficar até o fim. “É que roubaram minhas muletas”, justificou-se ele...

Além de políticos que se notabilizaram por mentir, há figuras como o “senador” Alcides Ferreira, que juntava gente no Senadinho (calçadão da rua Felipe Schmidt, esquina com Trajano) para ouvir suas histórias inverossímeis. O jornalista Aldírio Simões, morto em 2004, chegou a realizar concursos de mentiras no vão central do Mercado Público, sempre com grande audiência e exímios concorrentes.

A mandioca de raiz quilométrica

Inventar mentiras parece ser o esporte predileto nestas plagas. No livro “Franklin Cascaes – Vida e arte e a colonização açoriana”, o jornalista Raimundo Caruso reproduz uma história captada pelo grande folclorista ilhéu dando conta de um pé de mandioca que nasceu na Ilha do Campeche e estendeu as raízes até o bairro do mesmo nome, na Ilha de Santa Catarina. A planta aproveitou o buraco construído por dois tatus que fugiram da casa de um certo Nazaro e que também apareceram além do canal que separa a ilha maior da ilha menor. “Primo”, disse Nazaro a um parente acerca da mandioca, “ela foi crescendo por dentro da roça morro abaixo, garrô a praia, da praia atravessou o mari e veio saí no Pontáli do lado de cá da Ihia do Desterro”.

Pupilo e principal responsável pela preservação do acervo de Cascaes, o museólogo Gelcy Coelho, o Peninha, contou com tanta convicção a história de uma festa de bruxas no Continente que aquilo passou a ser encarado como verdade. A folia terminou mal, porque o diabo não foi convidado e vingou-se petrificando as mulheres. O legado foram as pedras que ornam a praia de Itaguaçu, um dos lugares mais idílicos da Capital.

É de Peninha também o relato do homem que não tinha chumbo para caçar e usou taxinhas de sapato como munição. Depois de disparar uns tiros, encontrou várias tirivas pregadas numa árvore! Outro sujeito prendeu, de propósito, uma canoa em cima de um tronco, e o dono do barco safou-se amarrando uma corda nas pernas de um grilo, tirando a embarcação de lá. Numa casa da vizinhança, não contente em fugir, o sabiá de estimação levou a gaiola junto!

Uma Macondo de invencionices

Num dos concursos com mentirosos no Mercado Público, num 1º de abril, Aldírio Simões recebeu o advogado Vilmar Pacheco, o Pitanga, um dos manés mais empedernidos que já existiram, e que saiu-se vencedor com uma história hilária. Ele contou que foi pescar perto da ponte Hercílio Luz e deixou cair o radinho de pilha no mar. Quando fisgou um baiacu, descobriu que o aparelho tinha sido engolido pelo peixe. Ele ainda teve tempo de ouvir a narração, pelo locutor de uma rádio da cidade, de um gol do Avaí. A platéia veio abaixo! Na sequência, a emissora noticiou que o governador Pedro Ivo Campos anunciara, depois de longo jejum, um aumento de salário para o funcionalismo. A mentira estava completa!

Há relatos dando conta de que um tal de Chico Olivério, tido como o maior mentiroso da região, fez tanto das suas que foi expulso e acabou na Ilha do Campeche. É dele, acredita-se, a história do túnel submarino e do pé quilométrico de mandioca que estendeu as ramas até o outro lado do mar. “Ele merecia um monumento”, diz o museólogo Peninha, para quem “a mentira é uma coisa boa, saudável”. Ele acha que nem na Macondo de Gabriel García Marquez havia tanta fantasia e invencionice como por aqui!

A questão dos pousos de Saint-Exupéry no Campeche divide leigos e especialistas. Há quem aposte que o autor de “O pequeno príncipe” desceu ali e conviveu com pescadores como Manoel Rafael Inácio, o seu Deca, além de ter vindo à cidade e circulado pelas ruas próximas do cais e do Mercado. Para outros, a falta de documentos conclusivos desautoriza qualquer afirmação neste sentido.

O professor e pesquisador João Batista Soares é do time que prefere não acreditar na veracidade da presença do escritor na Ilha. Ex-aviador, ele afirma que nem sequer um plano de pouso foi encontrado no Aeroclube de Florianópolis dando conta do assunto.

Sobre os túneis subterrâneos, a maioria é cética porque não conhece vestígios desses caminhos que teriam sido criados como rotas de fuga em caso de invasões e bombardeios da Ilha, em conflitos e guerras do passado. No entanto, também há quem jure ter visto fotos recentes de um túnel no subsolo da igreja São Francisco, que acabou de passar por uma reforma.

Coisas escabrosas...


O dono de peixaria Marcelo Jacques, há anos no Mercado Público, conta que um pescador da Armação da Piedade pegou uma tartaruga tão grande que usou o casco do animal para fazer uma canoa...

O mesmo Marcelo costuma mentir para os amigos e para a freguesia que pegou uma garoupa tão grande que só a fotografia pesava 14,8 quilos!

Cristiano Belmiro da Silva, que trabalhou 25 anos no Mercado, narra a história do homem que pegou duas tainhas no Rio Grande (RS). Ficou com uma e marcou outra, dizendo que a pegaria em Florianópolis, quando voltasse. “E pegou mesmo”, conta ele.

O dono de bar Nivaldo Machado, nascido no dia 1º de abril, fala de um certo Heráclito, apelidado de Faquir, que dormia numa cama de ferro na igreja São Francisco. Na surdina, antes das 6h, ele se reabastecia no bar do Goiano, no Mercado, e voltava para a reclusão do resto do dia – mas convencia muita gente de sua abstinência! O Sorrentino, bar de Nilvaldo, é considerado um ponto de encontro de mentirosos juramentados.

Valdir Dutra relata que um dia o extinto cine Roxy, ao lado da Catedral, prometeu exibir “o maior faroeste americano de todos os tempos” em três sessões. O público veio em peso, mas as portas estavam fechadas. Era dia 1º de abril!

Conhecido como Betinho da Peixaria, Gilberto Zeferino conta que a mulher de um pescador reclamava tanto que ele não fazia as coisas da casa, não consertava o que era preciso, que o sujeito pegou a tarrafa e saiu sem dizer nada. Na primeira tarrafada, pegou um maço de pregos; na segunda, um martelo; na terceira, um alicate. E pôde, assim, fazer as reformas que a casa pedia...

O aposentado Lourival Dutra, o Loro, fala do vigia que viu uma vaca sobre o telhado da garagem da extinta empresa de ônibus Ribeironense, no Bom Abrigo, onde trabalhava. Pegou um cobertor e tirou o animal de lá à unha! Criança, Loro ficou impressionado e acreditou por muito tempo na mentira.

Ao lado, um amigo dele cita o bagre capturado no Ribeirão da Ilha em cujas vísceras foi encontrada a carteira de identidade de Ulysses Guimarães!

Para o dono de bar José Milton, na rua João Pinto, a maior mentira é o que as administrações vêm fazendo com o centro histórico da cidade. “São 25 anos de falsas promessas”, protesta. O Milton’s Bar & Restaurante “oferece o melhor pastel de camarão da cidade”, jura ele, com jeito de quem não está mentindo.

 

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