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Problema ou solução: cerveja dentro dos estádios catarinenses divide opiniões

Ministério Público alega "vício de inconstitucionalidade" e promete ir ao STF, se preciso, para impedir a prática; clubes, por outro lado, alegam benefícios e já colhem frutos

Diogo de Souza
Florianópolis
06/09/2018 às 21H03

O tema divide opiniões: trata-se de uma droga lícita que sugere culpados, mas é vista como solução e até intitulada de lubrificante social. O comércio e consumo de cerveja dentro dos estádios de futebol está longe de completar um ano em Santa Catarina e já causa imenso – e inconclusivo debate. Depois do quarto e último clássico entre Avaí e Figueirense na temporada, o assunto voltou à mesa dos órgãos em todas as esferas.

A Lei 17.477, de 11 de janeiro de 2018, que dispõe sobre a venda e o consumo de cerveja em estádios de futebol em SC está ameaçada. Não que isso seja uma novidade, Ministério Público e Polícia Militar, ainda na época em que o PL era debatido na Assembleia Legislativa, asseguravam possíveis e danosos efeitos nos estádios.

“A nossa experiência e nossa posição é clara, não tem nenhuma dúvida que isso contribui e muito para práticas e atos de violência, tumulto e desordem”, disse o promotor Eduardo Paladino, que atua junto à 29ª Promotoria do MPSC (Ministério Público de Santa Catarina).

Em entrevista concedida à reportagem do ND, o promotor garantiu que há um consenso não só no Estado, mas do Ministério Público em todo o País sob o argumento do “vício de inconstitucionalidade”.

Recentemente, antes do jogo entre Figueirense e Avaí, válido pelo primeiro turno da Série B 2018, MP e PM ventilaram a hipótese de realizá-lo com torcida única. Dentre os argumentos, um relatório com quase dez centímetros de altura contendo uma série de registros, ocorrências e demais problemas atendidos e/ou solucionados pelos policiais.

“Não só dos clássicos, mas de todos os jogos. Sempre que há anormalidade, violência, tumulto, a PM encaminha esses relatórios. A gente não tem dúvida que esse fato [a liberação da cerveja] tem trazido maior dificuldade para a manutenção da ordem. A nossa conclusão é muito segura nesse sentido”, acrescentou Paladino.

O promotor ainda revelou que, em caso de negativa junto ao Tribunal de Justiça do Estado, a intenção é recorrer ao STF (Supremo Tribunal Federal).

“O MP até tentou, entrou com uma medida junto ao TJ e aguarda o julgamento. Se aqui não for positivo, vai se buscar o Supremo Tribunal Federal”, prometeu.

Promotor Eduardo Paladino - Eduardo Valente/divulgação
Promotor Eduardo Paladino - Eduardo Valente/divulgação

Alteração do torcedor “comum” e trauma

O jogo que terminou com a derrota do Avaí por 1 a 0 para o Figueirense deixou marcas. Além do caso envolvendo um torcedor alvinegro que caiu da arquibancada visitante, algumas brigas foram registradas dentro do estádio, sobretudo, entre torcedores dos mesmos clubes.

O major Fernando Vidal, chefe de Operações junto ao 4º Batalhão da Polícia Militar, que comandou o trabalho na tarde do último sábado, no Sul da Ilha confirmou que os problemas registrados dentro da Ressacada foram “comuns”, sem casos “emergenciais”.

Para o comandante da PM, coronel Araújo Gomes, não há como comprovar um número, seja maior ou menor, a partir da liberação da cerveja. No entanto, revelou o relato dos “oficiais que comandam os jogos” e a percepção sobre a mudança de comportamento dos chamados “torcedores comuns”. “Os torcedores comuns, que não são os ligados às organizadas, não apresentavam problemas comportamentais e, desde então, passaram a apresentar”.

Questionado sobre um posicionamento oficial, o comandante garantiu que a “PM vem se empenhando para que dê certo, entendendo como uma atividade legislativa”.

O torcedor César Senem, 51, é assessor parlamentar e teve problemas no último jogo. César, que é moderador da página Avaí Minha Eterna Paixão, revelou ter sido confundido por um torcedor avaiano que o agrediu em uma situação descrita como “humilhante” devido a todo contexto.

Além da confusão, César revelou ter testemunhado uma série de outros problemas. “Vi umas pessoas chutando vidro, bate-boca dentro do banheiro, intolerância, falta de educação. Não é só no clássico, é confusão entre os próprios torcedores. Quer dizer que se o Avaí jogar contra um time qualquer, vai ter briga igual?”, indagou o assessor.

Sobre a venda da cerveja nos estádios, se revela contrário. “É uma droga, é um problema social do mundo inteiro. Sou contra o comércio dentro do estádio, não do lado de fora. Do lado de fora gera emprego e impostos”, finalizou.

Nova alternativa de renda

O projeto, de autoria dos deputados Rodrigo Minotto (PDT) e Manoel Mota (MDB), passou por quatro comissões antes de ser discutido em plenário: Constituição e Justiça, Segurança Pública, dos Direitos Humanos e de Prevenção e Combate às Drogas.

Foram nove anos desde que, a partir do Estatuto do Torcedor, o comércio e consumo de cerveja nos estádios de futebol do País foram proibidos.

Para a SCClubes (Associação de Clubes de Futebol Profissional de Santa Catarina), presidida por Francisco Battistotti, do Avaí, a medida permitiu um incremento nas receitas dos clubes e, paralelo a isso, não diagnosticou problemas. “A volta da comercialização da cerveja nos estádios de futebol permitiu, sim, um incremento na receita dos clubes e teve, inclusive, venda de propriedades. E não há nenhum caso registrado de que a venda de cerveja nos estádios tenha gerado algum episódio de violência”, resumiu uma nota encaminhada pela assessoria.

A FCF (Federação Catarinense de Futebol) adotou a mesma linhagem onde afirma, em nota encaminhada pelo presidente Rubens Renato Angelotti, ser a favor do “consumo civilizado” que “satisfaz o desejo do torcedor, que culturalmente, toma sua cerveja para acompanhar o time do coração”.

Angelotti reforça ainda uma espécie de impulsão trazida pela nova medida. “Igualmente o consumo de cerveja nos estádios impulsiona parcerias comerciais dos clubes, motivando mais torcedores a comparecerem aos jogos”, ressaltou.

No Estreito, novas parcerias são celebradas

No Figueirense, antes mesmo da medida fechar um ano, é motivo de comemoração e incremento das receitas. O clube fechou parcerias comerciais juntamente com espaços para os torcedores reunirem-se, dentro do estádio, para confraternizar e fomentar a paixão pelo clube. “Criamos dois espaços denominados ‘botecos’, com locais para reunir as pessoas”, adiantou Diogo Martins, gerente administrativo do Furacão.

“Tivemos um faturamento a mais em torno de 40% e percebemos a entrada do torcedor mais cedo para as partidas”, ilustrou. “Posso garantir que o clube está muito satisfeito, assim como o feedback dado pelos nossos torcedores. Vale salientar que reformulamos toda estrutura dos bares com o apoio de novos patrocinadores”, finalizou. Outro ponto salientado pelo clube, em vídeo, diz respeito ao aquecimento também do setor alimentício que, a reboque, teve mudanças.

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