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Terça-Feira, 13 de Novembro de 2018
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Futebol amador é ganha-pão de atletas na Grande Florianópolis

Contraste com as cifras bilionárias do mundo profissional é evidente, mas também há pontos em comum

Matheus Joffre
Florianópolis

A janela internacional de transferências, que fechou no último dia 2, bateu o recorde e movimentou US$ 3,36 bilhões (cerca de R$ 8 bilhões), 29% a mais do que o saldo de 2012. Também foi marcada pela negociação mais cara da história, a do meia-atacante galês Gareth Bale, que se transferiu do Tottenham, da Inglaterra, para o espanhol Real Madrid por € 100 milhões. Cifras exorbitantes principalmente quando comparadas à realidade do futebol amador de Florianópolis, onde não há o vínculo do atleta com o clube e os jogadores recebem entre R$ 100 e R$ 250 por partida.

 

Divulgação
Rosane Lima/ND
"A diferença é tão grande e, no fundo, fazemos a mesma coisa", diz Davy Adriano

 

Em 2004, uma resolução no Código Brasileiro Disciplinar do Futebol acabou com o vínculo do atleta não profissional com os clubes e o futebol amador passou a atender à lei do quem dá mais. “Antes, era preciso uma liberação do clube, havia uma compensação financeira. Mas hoje, às vezes, o jogador sai até mesmo no meio da competição, por não estar satisfeito com a reserva ou por uma ajuda de custo maior. Virou uma verdadeira prostituição”, desabafou o presidente do Avante, Edevaldo Lisboa, o Feijão.

Davy Adriano, o camisa 10 do Avante, que o diga. Passou por 10 clubes na Grande Florianópolis, entre idas e vindas no time de Santo Antônio de Lisboa, além da base do Joinville. “No início, isso era o meu ganha pão. Eu tinha um emprego na construção civil e o futebol amador ajudava na minha renda. Hoje, estou um pouco melhor e escolhi ficar no Avante. Mas muitos ainda jogam por necessidade e quando oferecem um trocado a mais, acabam trocando de time”, ponderou. “Mas o engraçado são essas cifras milionárias que rolam no futebol profissional. A diferença é tão grande e, no fundo, fazemos a mesma coisa”, refletiu.


Sonhos interrompidos

Como Davy Adriano, muitos atletas do futebol amador, também tentaram carreira no profissional. Mas falsas promessas, a falta de estrutura de alguns clubes e os baixos salários fizeram muitos desistir do sonho e optar pelos gramados amadores.

Nascido na comunidade de Nova Trento, no Maciço do Morro da Cruz, Davy abandonou de vez o sonho de jogar profissionalmente, aos 21 anos, para ajudar em casa. “Sou filho único de uma família humilde. Então, tive que correr atrás desde cedo. Enquanto times como o Guarani de Palhoça pagavam um salário de R$ 600 mensais, eu tirava R$ 250 por jogo no amador e R$ 1 mil por mês”, contou o camisa 10 do Avante, que chegou a ter propostas para ir para Alemanha e para a França, mas que não passaram de promessas.

Outro jogador do Avante, Ivan Sarrá, 31, foi mais persistente. Tentou o profissional até os 27 anos, quando defendeu o Santa Quitéria, no Maranhão, mas a filha e a necessidade de uma segurança financeira fizeram o atacante desistir e ficar apenas no amador. “Teve uma época que meus pais até me ajudaram, mas depois tive uma filha e não podia mais correr esse risco. Não dá pra trocar o certo pelo duvidoso”, resumiu.


Artilheiro da Segunda Divisão, troca Fazenda por Ipiranga antes da final

Destaque do Fazenda e artilheiro da Segunda Divisão de São José, o atacante Juninho transferiu-se para o Ipiranga na última semana e não disputará o último jogo da decisão pelo ex-time. O jogador tinha propostas de vários clubes da Grande Florianópolis, mas já tinha dado sua palavra para o presidente Eliatar Silva, o Tatá, de que acertaria com o Ipiranga quando começasse a Primeira Divisão.

Além de Juninho, apenas mais um atleta do Ipiranga recebe uma ajuda de custo por jogo. A base do time é formada por jogadores da região, como os irmãos Geovane e Gevanir Bruch, que moram ao lado do campo. “O pessoal do Fazenda já sabia. Quando acertei com eles, disse que viria para o Ipiranga. Vim pela amizade com o Tatá, com o pessoal todo. Não sou estrela, nem nada. Só vou receber uma ajuda de custo porque tenho que vir de Palhoça. Mas espero valer a confiança e o investimento dele”, afirmou.

 

 

Rosane Lima/ND
Rosane Lima/ND
Avante oferece toda a estrutura do clube, plano de saúde e outros benefícios

 


Estrutura e ambiente ainda pesam na decisão dos atletas

Mesmo com caminho livre para escolher em qual time jogar, com o fim do vínculo dos atletas não profissionais com os clubes, alguns jogadores ainda preferem deixar o dinheiro em segundo plano e optam pela melhor estrutura. É o caso de Hildo Cunha, o Verruga, que recebeu uma proposta de R$ 250 para atuar pelo Cerâmica, de Palhoça, mas decidiu ficar no Avante por um valor menor, apesar de não ter um emprego fixo.

Além da ajuda de custo por jogo, o Avante oferece toda a estrutura do clube, plano de saúde e outros benefícios. “Às vezes, não vale a pena o cara trocar de time para ganhar um pouco a mais e não ter nenhum amparo. Aqui sei que posso contar com o pessoal do Avante e que tenho uma boa estrutura por trás”, afirmou Verruga.

O ambiente também é um fator positivo para que os jogadores queiram permanecer no clube e se refletem nos resultados. Finalista nas últimas quatro edições da Copa Floripa, o Avante levou o caneco em três e foi vice-campeão da Copa RIC Interligas este ano. “Este grupo está junto desde 2009 e, de lá para cá, estivemos praticamente em todas as finais. O ambiente é de amizade e já extrapolou os limites do campo”, revelou Feijão. “O pessoal se reúne direto para fazer uma carne, tomar uma gelada ou curtir uma balada. Menos eu que sou comprometido”, brincou Diego Balada, que tem o apelido por conta do gel no cabelo.

 

 

Flávio Tin/ND
Flávio Tin/ND
"Não dá para chamar de amador, mas de futebol não profissional", diz Daivison

 


Amador é sinônimo de segurança para goleiro do Cerâmica

O goleiro Daivison Luiz, 33, do Cerâmica Silveira, de Palhoça, foi mais longe. Passou por Criciúma, Atlético-PR, Paraná, Foz do Iguaçu, Figueirense e Guarani de Palhoça até encontrar a segurança que sempre procurou no amador.

Em 2009, Daivison acertou com o Cerâmica e iniciou uma parceria com o clube, que cede o espaço para a academia de goleiros do atleta, a única do Sul do Brasil. “Com a estrutura e a organização que temos hoje, não dá para chamar de amador, mas de futebol não profissional. Aqui tenho todas as condições para fazer o meu trabalho, mais do que muitos clubes por onde passei. E essa parceria é baseada em uma relação de confiança, que não existe no futebol profissional. Não é apenas pelo dinheiro, mas sim pela valorização do atleta”, afirmou.


Boxes

Ajuda de custo por jogo no futebol amador

Entre R$ 100 e R$ 250

5 maiores salários anuais no futebol profissional

Cristiano Ronaldo (Real Madrid): € 17 milhões

Messi (Barcelona): € 16 milhões

Neymar (Barcelona): € 15 milhões

Ibrahimovic (PSG): € 14,5 milhões

Falcão García (Monaco): € 14 milhões


10 transferências mais caras

Gareth Bale: € 100 milhões (Do Tottenham para o Real Madrid)

Cristiano Ronaldo: € 94 milhões (do Manchester United para o Real Madrid)

Zinedine Zidani: € 75 milhões (Da Juventus para o Real Madrid)

Ibrahimovic: € 69 milhões (Da Internazionale para o Barcelona)

Kaká: € 65 milhões (Do Milan para o Real Madrid)

Edinson Cavani: € 64 milhões (Do Napoli para o PSG)

Luís Figo: € 61,5 milhões (Do Barcelona para o Real Madrid)

Hulk: € 60 milhões (Do Porto para o Zenit)

Falcão García: € 60 milhões (Do Atlético de Madrid para o Mônaco)

Fernando Torres: € 58 milhões (Do Liverpool para o Chelsea)

Não há transferências no futebol amador desde uma resolução baixada pela CBDF em 2004, que acabou com o vínculo do atleta com os clubes

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