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Fotógrafo esmagado por croatas já cobriu guerras e quase levou tiro por Gisele Bündchen

Yuri Cortez foi derrubado pelo time da Croácia na semifinal da Copa do Mundo, ganhou beijo dos atletas e virou celebridade instantânea nesta quarta-feira

Folha de São Paulo
Moscou (Rússia)
12/07/2018 às 22H48

MOSCOU, RÚSSIA (UOL/FOLHAPRESS) - Yuri Cortez cobriu guerras, golpes de estados, viu pessoas morrerem em explosões e conheceu de perto o sofrimento humano diante de um terremoto. Ele próprio quase morreu quando foi perseguido por um segurança de Gisele Bündchen e Tom Brady. Mas nunca havia vivido um momento tão inusitado em sua carreira. Ele foi o fotógrafo derrubado pelos croatas na semifinal da Copa do Mundo, que ganhou beijo dos atletas e virou celebridade instantânea nesta quarta-feira (11).

O abraço de Modric em Mandzukic após a vitória sobre os ingleses - Fotoarena/Folhapress/ND
O abraço de Modric em Mandzukic após a vitória sobre os ingleses - Fotoarena/Folhapress/ND


O fotógrafo de El Salvador, que trabalha como chefe da agência AFP no México, estava justamente no local em que o autor do gol da vitória do time dos Bálcãs, o centroavante Mandzukic, escolheu para comemorar. Como todos os companheiros pularam em cima do atacante, ele caiu. E levou junto Yuri. No chão, o fotógrafo foi esmagado pelos jogadores. Nem assim largou sua câmera: registrou tudo em fotos que ficarão marcadas para a história. O faro de se manter em alerta vem da larga experiência.

Yuri tem 27 anos de jornalismo, que deram para ele a oportunidade de conhecer todos os lados do ser humano. Na Guerra do Iraque, em 2006, ele arriscou a sua vida para mostrar ao mundo o que estava acontecendo através do seu olhar. O preço foi alto. Viveu situações tensas, quase foi atingido por uma bomba e viu pessoas ao seu lado morrerem.

“Eu estava com as tropas estadunidenses registrando tudo e teve uma emboscada. Estávamos em comboio e apareceram soldados. Jogaram uma mina em um veículo do exército. Foi muito tenso, vi as pessoas morrerem com muito sangue. Os veículos ficaram destruídos. Os soldados ficaram aterrorizados, nervosos, uma adrenalina muito forte.”

Yuri também foi enviado à Guerra do Afeganistão, pouco depois dos atentados de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos. “A gente acompanhava os soldados no trabalho deles, tentando encontrar os líderes [da Al Qaeda, a organização terrorista responsável pelos ataques, que tinha bases no país]. Foi uma experiência muito forte também porque nós andávamos seis, sete horas por dia percorrendo zonas isoladas. E lidávamos com emboscadas, franco-atiradores.”

Outra experiência marcante foi o golpe de estado do Haiti, em 2004. Ele conseguiu registrar com exclusividade a chegada das tropas americanas e a tomada do aeroporto por parte dos EUA. Um fotógrafo que trabalhava com ele tinha contatos com o Pentágono e com as tropas de Miami. Assim, descobriu quando eles iriam chegar.

Yuri foi escondido ao aeroporto e conseguiu acesso mesmo diante de uma escuridão completa. Ele relata também muitos momentos de tensão por causa dos conflitos políticos que acabaram com a queda do presidente Jean-Bertrand Aristide —que deixou o país em um avião dos EUA. “Havia uma forma descontrolada de violência com disparos, abates. Nos atacaram, dispararam contra nós muitas vezes. Foi bastante complicado porque tinham muitos grupos paramilitares fazendo ofensiva contra o presidente.”

Um episódio não menos perigoso envolveu a modelo Gisele Bündchen. Em 2009, ele tentou registrar o casamento secreto da brasileira com o jogador de futebol americano Tom Brady na Costa Rica. Mas foi abordado por seguranças do casal que pediram o cartão de memória da máquina fotográfica. Yuri e um colega se negaram a entregar e sofreram uma perseguição que quase terminou em tragédia.

Os seguranças atiraram contra o veículo onde estavam os fotógrafos. Um dos tiros quebrou a janela traseira do veículo, atingiu o para-brisa dianteiro e ricocheteou o banco do motorista. A agência e os fotógrafos entraram na Justiça contra os seguranças. Eles foram condenados por tentativa de homicídio e sentenciados a cinco anos de prisão. Também foram condenados a pagar uma multa de cerca de US$ 10 mil (RS 38 mil na cotação atual). “Foi um processo complicado, tivemos que lutar muito porque foi contra pessoas muito poderosas que tinham muito dinheiro.”

No esporte, Yuri já cobriu quatro Copas do Mundo e tem outras competições no currículo como Copa América, Copa das Confederações e Jogos Olímpicos. Foi com toda essa bagagem que ele chegou à semifinal do Mundial na Rússia para viver uma experiência bem mais agradável. Embora a adrenalina de vivenciar a história no momento em que ela acontece seja a mesma. Ele contou com a sorte que, como diz o ditado anda lado a lado com a competência, para fazer os cliques mais marcantes da classificação croata à final.

“Foi uma experiência realmente emocionante, não esperava. Fiz muitas fotos de jogos, de Messi e Ronaldo, outros famosos que nunca cruzam a linha do escanteio. Festejam a dois, três metros. Mas os croatas vêm vindo e eu pego a minha lente 400MM e troco pela grande angular e espero eles chegarem. Mas eles chegam ainda mais perto, passam da linha, se abraçam e de repente passam por cima de mim por completo, me derrubam e caímos todos”, conta ele aos risos.

Mas como ele continuou clicando? “Penso que foi o instinto de ver a emoção dos jogadores, todos gritando e festejando. A única coisa que pensei foi seguir disparando a câmera. As fotos que tirei refletem a realidade do momento, a euforia, o grito. Eles passaram à final e isso representava muito para eles e para o país.”

Na sequência, os jogadores foram muito solidários e o ajudaram a se levantar. “O Mandzukic veio e aí todos começaram a chegar, os suplentes também. Se jogaram em cima. Depois que perceberam, me ajudaram a levantar e perguntaram se eu estava bem. O Vida me deu um beijo. Mas não deu para conversar muito, tinham que voltar à partida.”

Desde o jogo, Yuri não conseguiu dormir. Ele conta que seu celular não parou de tocar desde que apareceu em todas as televisões que acompanhavam a partida. Ele já recontou a história dezenas de vezes. Yuri não vai trabalhar na final e já está voltando para casa. Quando falou com a reportagem, estava em uma escala no aeroporto de Amsterdã, na Holanda. Mas não fará falta. Yuri já vivenciou a história mais uma vez.

“São as coisas bonitas do jornalismo, conhecer personagens muito reconhecidos e também personagens da rua, pobres, que muitas vezes têm muito mais consciência que os poderosos. Essa disparidade nos permite conhecer de perto o ser humano e compreender melhor o mundo. Eu gosto muito disso.”

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