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Figueirense virou sociedade anônima com atuação de citados na Lava Jato

Durante o processo de transição, equipe catarinense contou com aporte financeiro de citado em laudo da Operação Lava Jato em outubro de 2016

Folha de S.Paulo
São Paulo (SP)
21/03/2018 às 14H45

DIEGO GARCIA

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Fato raro em clubes brasileiros, o Figueirense iniciou processo em 2017 para se transformar em uma sociedade anônima. Com a mudança, concluída em janeiro, 95% das ações do time passaram a ser da holding Elephant, do advogado Cláudio Vernalha, que hoje preside o Figueirense S.A.

Durante o processo de transição, a equipe catarinense contou com aporte financeiro de Marcos Meira, citado em laudo da Operação Lava Jato de outubro de 2016.

Teve também atuação de Cláudio Honigman, apresentado no clube como investidor e conhecido por atuar em ações suspeitas de lavagem de dinheiro com Ricardo Teixeira, ex-presidente da CBF. Ele recebeu depósitos de empresa controlada pelo doleiro Alberto Yousseff.

Honigman participou do início do projeto, no segundo semestre de 2017. O presidente do Figueirense, Cláudio Vernalha, confirma a atuação do empresário.

“O Cláudio Honigman veio porque conhecia muita gente no mercado financeiro internacional. Veio para tentar desenhar uma estrutura de investimentos que não deu certo”, afirmou Vernalha.

Honigman entrou na mira do Ministério Público Federal em 2011 por suspeita de lavagem de dinheiro em negócio com Teixeira e o ex-presidente do Barcelona Sandro Rosell, preso na Espanha. O trio trouxe um avião para o Brasil com valor declarado de US$ 1. Eles também foram investigados por suspeitas de desvio de dinheiro em amistoso da seleção. A investigação está com grau máximo de sigilo.

Em 2009, ele e seu pai receberam R$ 75 mil da MO Consultoria, empresa controlada por Youssef e investigada pela Polícia Federal por movimentar recursos do doleiro. A MO também pagou R$ 170 mil de pensões alimentícias para a família de Honigman por meio de cheques depositados na conta de seu advogado. 

Funcionários do Figueirense relatam que Cláudio Honigman esteve constantemente no clube nos últimos meses. O ex-CEO Alexandre Bourgeois disse à Folha de S.Paulo ter sido avisado de que o empresário era um dos investidores da operação com a Elephant.

“Pouco depois de eu assumir como CEO, passei a pedir mais informações sobre os investidores que entraram no Figueirense e o formato dessa operação. Com minha insistência em busca de dados sobre esses investidores, fui forçado a sair”, disse Bourgeois, que ficou apenas 70 dias no cargo, entre agosto e outubro de 2017.

O presidente Cláudio Vernalha rebate a versão do ex-CEO.

“Isso é dor de cotovelo do Bourgeois. O Honigman não virou sócio, não é investidor e nem fez muito no clube. Prestou um serviço que, se funcionasse, poderia haver discussão sobre vir a ser sócio ou trabalhar no clube. Ele era um prestador de serviços não remunerado”, afirma Vernalha.

Ex-diretor das categorias de base, Sérgio Guerrero relatou à Folha de S.Paulo que Honigman executava ações no clube.

“O próprio Vernalha me disse que ele [Honigman] era investidor. De vez em quando aparecia lá querendo mandar gente embora. Me chamou e disse que ia mandar um funcionário meu embora. Essa postura e o jeito desse Cláudio Honigman nunca me agradaram, mas como eu era apenas um funcionário, obedecia. Ele dava as ordens no Figueirense”, afirmou Guerrero.

O funcionário demitido por Honigman mencionado por Sérgio Guerrero foi procurado pela Folha de S.Paulo  e confirmou a história, mas pediu para ter seu nome preservado.

“Ninguém falava o que [o Honigman] era. Ele era um cara sinistro, entrava em reuniões de comissão técnica, chegava acompanhado e dizia que ia construir um monte de coisas porque tinha contatos, mas a verdade é que ele não sabe nada de futebol. É um cara suspeito e mal-educado, ninguém gosta dele no clube”, disse Claudio Grillo, ex-analista de desempenho do Figueirense.

Grillo e Guerrero fazem parte de uma equipe de profissionais contratada por Bourgeois, mas que foi demitida no fim do ano, meses após a saída do ex-CEO.

O atual presidente Cláudio Vernalha nega que Honigman tivesse participação no dia a dia do clube.

“O Cláudio Honigman mora em Nova York, ele veio ao Figueirense para fazer as coisas, mas não deu muito certo, é meu amigo pessoal, a gente conversa de vez em quando e não tem nada de vínculo com o Figueirense. Como não conseguiu fazer o que veio fazer, continua sem vínculo com o Figueirense”, disse Vernalha.

Procurado pela Folha de S.Paulo, Cláudio Honigman afirmou que preferia não responder às perguntas da reportagem no momento.

Presidente do clube à época da transição, Wilfredo Brillinger foi procurado diversas vezes, mas não atendeu aos telefonemas e nem respondeu às mensagens da reportagem. 

Investidor

O advogado Marcos Meira atuou no Figueirense em meio à transformação do clube em sociedade anônima.

A  Folha de S.Paulo teve acesso a planilhas que mostram pelo menos dois aportes de R$ 1 milhão cada feitos por Meira à empresa gestora dos recursos da holding Elephant durante a transição para S.A.

“O Meira fez um contrato de mútuo conversível, ele podia ou não tornar-se sócio, e optou por não tornar-se sócio, pois ele achou que o futebol é dinâmico e depende de resultado. Foi tudo declarado, inclusive no Imposto de Renda dele”, diz Vernalha.

O contrato de mútuo é um empréstimo em que o valor repassado pode ser convertido em ações na empresa em que o dinheiro foi investido.

“Fiz um contrato de mútuo com o Cláudio Vernalha, se ele usou ou não isso [o valor] não diz respeito a mim. Meu contrato é com ele, minha relação é com ele. Isso que importa. Não tenho nada com o Figueirense. Não tive interesse em investir no futebol”, disse Meira à Folha de S.Paulo.

Na Lava Jato, Meira foi citado em outubro de 2016, quando um laudo feito pela Polícia Federal apontou que seu escritório recebeu R$ 11,2 milhões da Odebrecht entre 2008 e 2014. Em 2010, o pai de Marcos Meira, José de Castro Meira, então ministro do STJ, considerou prescrita dívida de R$ 500 milhões cobrada pela Procuradoria Geral da Fazenda da Braskem, um braço da Odebrecht.

“Meu pai se aposentou há cinco anos e eu continuo advogando para a Odebrecht, faço isso desde 2000. Advogava já antes de ele ser ministro e depois também. Se tivesse algum problema, não estaria advogando”, afirmou Meira à Folha de S.Paulo. “Não existe nenhuma investigação em meu nome. Não tem nenhum impedimento contra mim ou os processos em que eu atuei”, completou. 

Em 2016, a assessoria de Meira informou que, na participação do então ministro no julgamento, seu voto como relator “acatou na íntegra o parecer do Ministério Público, sem qualquer decisão sobre o mérito da causa”.

Exceção

O Figueirense é o único clube das Séries A e B do Brasileiro que virou uma sociedade anônima, empresa que divide seu capital em ações e limita a responsabilidade de seus sócios ao preço das ações adquiridas. As demais equipes são caracterizadas como associações, entidades sem fins lucrativos.

“A garantia dada pelo parceiro na operação são os investimentos [que serão feitos no clube]. Eles assumiram os passivos, foi feita uma auditoria e tudo o que o clube devia até o fim de 8 de janeiro eles têm a responsabilidade de pagar”, disse Nicolau Haviaras, presidente do Conselho Deliberativo do Figueirense.

O investidor, no caso a Elephant, assumiu dívidas de R$ 85 milhões e comprou por 20 anos, renováveis por mais 15, os 95% da sociedade anônima com promessa de investimentos, em operação que foi aprovada e finalizada no dia 8 de janeiro de 2018.

“Na época, só foi apresentado [como investidor] o Cláudio Vernalha. O investidor atual é a Elephant, com o Cláudio, e quando chegam outros somos informados”, afirma Nicolau Haviaras.

Nas próximas duas décadas, a holding recolhe os lucros da sociedade anônima, da qual o clube Figueirense tem apenas 5%, e detém todos os ativos e passivos relativos ao futebol da agremiação.

Casos parecidos ocorreram no futebol brasileiro no fim dos anos 1990.

“O Bahia e Vitória chegaram a criar sociedades anônimas, mas o modelo não deu certo”, afirma o advogado Eduardo Carlezzo.

Contraponto

Após a publicação da matéria, o Figueirense emitiu nota, na manhã desta quarta-feira (21). Veja na íntegra:

A diretoria do Figueirense Futebol Clube esclarece que as informações veiculadas na matéria do jornal Folha de São Paulo desta quarta-feira (21), não correspondem com a realidade.

Qualquer recurso existente ou que venha a ser aportado e destinado ao clube está coberto pela legalidade. O Figueirense esclarece ainda que a transformação do clube em empresa ocorreu muito antes do ingresso dos atuais gestores, e foi aprovado após longa discussão no Conselho Deliberativo do Clube.

O Figueirense está no caminho certo, com pessoas sérias e de reputação saudável. Devemos respeito e transparência ao nosso torcedor, que é o nosso maior patrimônio desde a fundação do clube.

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