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Domingo, 18 de Novembro de 2018
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A insustentável dureza de ser técnico

Treinador do Santos, Dorival Júnior abre o jogo e expõe falta de planejamento e má gestão das equipes no Brasil

Rafael Thomé
Florianópolis

“O homem, por não ter senão uma vida, não tem nenhuma possibilidade de verificar a hipótese através de experimentos, de maneira que não saberá nunca se errou ou acertou ao obedecer a um sentimento. Tudo é vivido pela primeira vez e sem preparação. Como se um ator entrasse em cena sem nunca ter ensaiado”. A observação existencialista é do escritor checo Milan Kundera, em seu clássico ‘A Insustentável Leveza do Ser’, mas bem que poderia ser uma síntese da vida de treinador no Brasil.

Jorge Araújo/Folhapress/ND
Treinador do Santos deu palestra em Florianópolis

 

Ao menos esta é a visão do técnico Dorival Junior, atualmente no Santos, que esteve nesta sexta-feira em Florianópolis para participar do 2º Curso de Treinadores de Futebol de Santa Catarina. “Como não tivemos formação, a nossa escola é o dia a dia, o vestiário. A soberba brasileira é muito grande, por isso, às vezes, não percebemos o que está acontecendo. Na Europa, por exemplo, o treinador tem que ter duas mil horas de estudos e práticas para chegar a um time de ponta. Eles trabalham isso [a formação] há 30 anos. No Brasil, ainda se trata o futebol como entretenimento”, disparou.

Os problemas sociais do país, que culminam com jogadores profissionais de baixa escolaridade e grande deslumbre com os luxos da vida mundana, e a ululante incapacidade dos cartolas em gerir o futebol também interferem na carreira de um técnico. “Treinador no Brasil é psicólogo, pai, organizador, formador de equipe, bucha de canhão e gerenciador de pessoas, que, no fundo, é ser gerenciador de problemas. Independente da grandeza do clube, qualquer equipe de futebol no Brasil é quaseingerenciável”, analisou Dorival Junior.

Para o treinador do Santos, se aqueles que comandam o esporte não mudarem de atitude ou não derem espaço a novos nomes, a retomada da grandeza do futebol brasileiro será muito lenta (se acontecer). “O maior problema é a gestão. Existe pressão da mídia, do torcedor – por influência da mídia –, dos conselheiros e dos dirigentes de clubes. Essa influência gera uma situação insustentável para a manutenção de um profissional. Se continuar com o imediatismo, pode vir até o Guardiola que nem ele vai aguentar”, sacramentou.

Melhoria só com planejamento e boa gestão

A acachapante goleada sofrida para a Alemanha na Copa do Mundo de 2014 escancarou o anacronismo do futebol brasileiro. Para Dorival Junior, o país precisa parar de culpar Luiz Felipe Scolari pelo fracasso e passar a promover mudanças radicais na gestão. “Depois dos 7x1, começaram a perceber que temos que nos preparar para voltar a sermos os melhores do mundo. As pessoas querem melhorias, mas não pensam em planejamento e preparação. O futebol vai se tornar melhor com tempo de treinamento, correção, ajustes e tempo de casa. As pessoas têm que ter mais paciência”, disse.

Do Bom Senso F.C. ao fortalecimento da Federação Brasileira de Treinadores, passando pelo fomento à criação de uma liga de clubes para gerenciar os principais campeonatos, é possível ver, um ano e meio depois da Copa, que há um tímido movimento de recuperação. “Precisamos de pessoas com ideais à frente da CBF e das federações. Pessoas que queiram mudanças, não que estejam engajadas por proveito próprio. Está na hora de acabar a sem-vergonhice. O futebol brasileiro precisa de coisas novas”, afirmou Dorival Junior.

Em campo, compactação é chave para vitória

Afora os problemas estruturais em sua rotina de trabalho, Dorival Junior está preocupado em aprimorar o padrão técnico e tático de suas equipes. Para o treinador,  desde o surgimento da Laranja Mecânica (seleção da Holanda das Copas de 1974 e 1978), o futebol bem jogado é fruto da compactação dos jogadores. “Taticamente, muita coisa aconteceu depois da Holanda, mas foram poucas mudanças bruscas. A grande diferença é que os europeus aprenderam a jogar em uma faixa de 30 metros de campo. Assim, trabalham a equipe e deixam as individualidades para momentos específicos do jogo”, comentou.

A dita compactação permite que os times avancem ao campo de ataque com maior velocidade, mas esse conceito demorou a chegar ao país. “Até pouco tempo atrás, os brasileiros jogavam em uma faixa de 50 metros de campo. Jogar em velocidade nem sempre é ligação direta ou ficar dependente de um carregador de bola, porque isso prejudica a compactação”, afirmou Dorival. “Dá para evoluir, é questão de treinamento, mas o futebol brasileiro quer resultado na quarta e no domingo. Se não consegue treinar uma equipe, como vai implantar um novo sistema?”

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