Terça-Feira, 23 de Outubro de 2018
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Com altas taxas de suicídio em Santa Catarina, Setembro Amarelo busca romper o tabu do silêncio sobre o tema

Setembro Amarelo e a prevenção do suicídio: é possível recomeçar

Com altas taxas de suicídio em Santa Catarina, campanha nacional busca romper o tabu do silêncio sobre o tema

Reportagem: Gustavo Bruning
Edição: Beatriz Carrasco e Schirlei Alves
Fotos: Flávio Tin
Arte: Cristina Oliveira


“Se não tivéssemos inverno, a primavera não seria tão agradável: se não experimentássemos algumas vezes o sabor da adversidade, a prosperidade não seria tão bem-vinda”. 

A frase da poetisa Anne Bradstreet traz uma dupla referência a ser contemplada neste 23 de setembro: o início da primavera e a capacidade de resiliência que se estende da natureza ao ser humano. Em Florianópolis, os garapuvus amarelos florescem com a estação das flores, marcando também a fase final de uma importante campanha de valorização da vida: o Setembro Amarelo, mês de prevenção do suicídio.

Segundo o mais recente levantamento da Secretaria de Estado da Saúde, 3,8 mil pessoas tiraram a própria vida em Santa Catarina entre 2010 e 2016. Nesse contexto, acende um alerta vermelho: a faixa etária dos idosos, entre 60 e 69 anos, teve aumento de 70% no período de seis anos (de 41 para 70), enquanto a faixa etária anterior a essa, de 50 a 59 anos, registrou aumento de 51% (de 96 para 145) nos casos de suicídio, no mesmo período.

“Muitos acabam não reprogramando a vida. Chegam aos 70 anos e ainda têm muita energia criativa, então devem aprender a aproveitá-la”, avalia a psicóloga Anita Bacellar. “Da mesma maneira que a natureza faz o seu trabalho, a mente humana precisa continuar oxigenando o processo evolutivo e de aprendizagem, independente da idade”, contextualiza a especialista.

Setembro Amarelo - Arte/ND
Arte/ND

Eu renovo, tu renovas, nós renovamos

A renovação é uma velha amiga do aposentado José Vilela Sobreira Sobrinho, o Vilela, de 76 anos, um dos voluntários por trás do CVV (Centro de Valorização da Vida) em Santa Catarina. O goiano, que mora no Estado desde 1965, começou no projeto em 2002.

“Eu me encantei pela filosofia do acolhimento e de trabalhar o ‘ouvir’, porque a gente tem uma dificuldade de fazer isso”, comenta Vilela. Hoje, ele divulga a iniciativa por meio de palestras sobre a prevenção do suicídio, participa do treinamento de novos voluntários e atua como um dos porta-vozes do CVV.

“Nós não nos prendemos no problema que a pessoa está vivendo. Nós centramos na pessoa”, conta o ex-funcionário de banco, que atualmente ainda trabalha com assessoria empresarial e é um dos responsáveis pelo GASS (Grupo de Apoio aos Sobreviventes de Suicídio), uma roda de conversa que envolve tanto sobreviventes quanto familiares.

"A empatia não é sentir o que você sente. É eu ser tão humano quanto você e compreender o que você sente”, detalha. Para Vilela, não tem preço a oportunidade de ser um canal para que pessoas angustiadas possam se abrir. "Eu faço cursos, leio, participo de rodas, vou a seminários. Enquanto eu tiver cabeça, quero continuar", conta.

José Vilela Sobreira Sobrinho, o Vilela, de 76 anos, um dos voluntários por trás do CVV - Flávio Tin/ND
José Vilela Sobreira Sobrinho, o Vilela, de 76 anos, um dos voluntários por trás do CVV - Flávio Tin/ND


Na avaliação dos especialistas, o aumento de casos de suicídio no público que se aproxima ou cruza a terceira idade também está ligado à "desadaptação" na chegada a este período.

"Ela pode ter a ideia de que tudo o que construiu ao longo da juventude pode virar nada. A nossa sociedade aproveita pouco a aprendizagem que as pessoas tiveram ao longo da vida, e isso a faz questionar a própria contribuição para a humanidade e para si mesma", diz a psicóloga Anita Bacellar.

A relação com a aposentadoria e o distanciamento dos filhos, por exemplo, também costumam ser fatores que levam a situações de risco. "Como projetamos continuar o nosso crescimento com essa realidade que fala o tempo todo de fracasso?", questiona Anita.

“Os números mostram que temos que pensar em ações específicas para a população que se aproxima da terceira idade, assim como hoje temos para os jovens”, destaca a psiquiatra Lilian Lucas, presidente da ACP (Associação Catarinense de Psiquiatria).

Essas pessoas, segundo a psiquiatra, têm os quadros de doenças crônicas, incapacidades físicas, incidência maior de depressão. O fato de se sentirem pesos para suas famílias, também pode predispor a uma situação delicada.

Idosos, observa o voluntário Vilela, estão entre o público que procura o CVV. “Eles falam muito da solidão, de não ter com quem conversar. Eles até têm filhos, mas se sentem muito excluídos”.

Mais de 90% dos casos poderiam ser evitados

Tão importante quanto cuidar da saúde física, é cuidar da saúde mental. O suicídio, explica Lilian Lucas, está relacionado a um adoecimento mental, que costuma ser ocasionado por depressão, ansiedade ou uso de drogas. “Quando há um histórico familiar e a pessoa está deprimida, há um fator de risco”, observa a psiquiatra.

A soma de predisposição genética e adoecimento são agravantes. “É como uma emergência médica. Se tem alguém que está com esse risco e com esses pensamentos, além de essa pessoa precisar ser ouvida e cuidada de forma acolhedora, precisa da avaliação de um médico”, continua Lilian. “Dizemos que mais de 90% dos casos seriam evitáveis com tratamento da doença mental”, completa.

Os anos de voluntariado no CVV ensinaram Vilela que todos estão sujeitos ao que chama de "vazio existencial". "Você encontra pessoas extremamente realizadas financeiramente com depressão", observa.

A sensação de incapacidade é apenas uma das que permeia pessoas em situação de risco. A prevenção do suicídio envolve também conscientizar a população sobre os gatilhos que podem levar à depressão. Nesse contexto, o diálogo surge como uma importante ferramenta de prevenção.

"Dependendo do nível do risco, resolver o problema sozinho pode ser muito difícil. Por isso a conversa é importante, ela ajuda a pessoa a enxergar o processo de evolução", ressalta Anita Bacellar. A meta é sair de um pensamento estático, que diz que o fracasso não tem solução, para um pensamento móvel, gerador de crescimento.

Garapuvu - Flávio Tin/ND
Flávio Tin/ND


Com canais de atendimento 24h por telefone, internet e presencial, o CVV oferece apoio emocional e trabalha com a prevenção do suicídio em diversas regiões do país há mais de 50 anos. Em março de 2017, a ONG e o Ministério da Saúde assinaram um acordo de cooperação técnica, que garantiu que as ligações se tornassem gratuitas e o projeto recebesse verba de expansão. Em Santa Catarina, o CVV iniciou as atividades em 1992 e hoje opera com 42 voluntários.

De acordo com a porta-voz do CVV em Florianópolis, Carmen Lacerda, o elemento recorrente entre as histórias das pessoas que procuram o serviço é a dificuldade em lidar com as perdas.

“Todas as situações que levam um indivíduo ao estresse ou à tristeza profunda costumam ser consequência de um processo de perda. Já a intensidade disso é proporcional ao valor que esse objeto tinha para essa pessoa”, comenta Carmen.

Entre os casos mais frequentes há pessoas que perderam alguém pela morte, os que mudaram de cidade ou perderam a condição de casada. Tem também os que perderam a saúde, o emprego ou a condição social, causando a perda da estabilidade econômica. Além das perdas, os gatilhos podem ser o abuso de substâncias, brigas ou uma demissão.

O fato é que a forma como as pessoas se relacionam com os obstáculos da vida e uma possível tensão podem levá-las ao estado psicológico crítico. A solução, neste caso, é construir um raciocínio de superação.

Os sinais

Os alertas de comportamento que podem desencadear o suicídio não são tão difíceis de decifrar. A ideia de que a pessoa não avisa, é falsa na avaliação das especialistas. Mudanças de atitude, isolamento, tristeza ou prejuízo na capacidade de trabalho são alguns exemplos relacionados por Lilian Lucas.

 “A falta de esperança e de planos para o futuro, além da ideia de que as coisas não têm saída, também são preocupantes”, ressalta a psiquiatra.

Sinais - Arte/ND
Arte/ND


O trabalho de conscientização que vem sendo realizado por meio de campanhas de prevenção ao suicídio tem contribuído para a identificação das situações de risco. A abordagem, no entanto, ainda é insuficiente e os índices de suicídio continuam altos, alerta a psicóloga Anita Bacellar. "Esses projetos podem ser uma fonte de esperança para pessoas em situação de risco, ajudando-as a ligar para alguém ou a procurar ajuda médica", ressalta.

A depressão sem risco de suicídio deve ser tratada antes que chegue a esse quadro, observa Lilian, ao reforçar que o cuidado deve ser dobrado quando já houve uma tentativa prévia.

Anita, que define a questão como um problema multifatorial, explica que todas as causas possuem um gatilho psicológico. "Tudo isso dificulta a interação da pessoa com os obstáculos da vida, e isso pode fazer com que ela não queira enfrentar as dificuldades com medo de não conseguir superá-las, o que é o estado evolutivo", explica.

 “O suicídio não é uma opção porque a pessoa é forte ou fraca, é um ato de desespero”, reforça a psiquiatra. “Ela está sofrendo muito e se vê sem opções, quando na verdade existem inúmeras”.

Suicídio na infância: os sinais são claros

Estão enganados os pais que pensam que as crianças não apresentam sinais quando estão em situações de risco. Em Santa Catarina, a Secretaria de Estado da Saúde contabilizou ao menos 30 suicídios de crianças e adolescentes entre 10 e 14 anos, entre 2010 e 2016.

“Elas também falam muito claramente quando têm vontade de morrer ou estão deprimidas”, destaca a psiquiatra Lilian Lucas. “As crianças podem ser mais impulsivas ou não avaliar bem o risco, achando que nada vai acontecer”, explica.

Podem, também, sofrer de transtornos mentais precocemente ou participar de jogos perigosos, para os quais são “facilmente atraídas quando estão deprimidas”, descreve a especialista.

Na adolescência: tabu atrapalha a ajuda

Segundo o Sistema de Informação sobre Mortalidade, em 2017 o suicídio foi a quarta maior causa de morte entre pessoas de 15 a 29 anos no Brasil – 11 mil tiram a própria vida por ano. Isso se deve, em parte, ao fato de jovens desta faixa etária serem mais influenciáveis. “O tabu atrapalha muito a chegada da ajuda”, destaca Lilian.

Para a psicóloga Anita Bacellar, os jovens de hoje estão sufocados pelas demandas e transições do mundo. "Esses jovens entram em um mundo que é deles, mas que ainda possui um formato de regras muito antigas. Isso acaba aprisionando o processo de criação e de se tornarem adultos", explica.

O forte vínculo de sucesso a conquistas pessoais, como passar no vestibular, atropela o processo de formação do jovem, salienta a psicóloga.

Para os adolescentes, algumas das situações deprimentes envolvem ainda as mudanças no corpo e hormonais, momentos de vulnerabilidade, exigências para escolher uma profissão e a compreensão da sexualidade.

As dificuldades, nestes casos, não costumam cercar apenas os próprios adolescentes e é comum que os pais tenham trabalho para enxergar o sofrimento do filho. "Eles sofrem muito com isso e não conseguem ajuda-los sozinhos. Os que conseguem interagir com esses problemas são os mais proativos, que reconhecem que o filho não está bem”, afirma Anita.

“Os mais jovens usam muito o chat”, conta o voluntário Vilela, sobre a procura pelo CVV. “No início ficava entre 15 e pouco e mais de 20 anos, mas nos últimos tempos essa faixa está chegando aos 40 anos”, detalha.

Nos últimos 16 anos, Vilela lidou com os mais diferentes casos. “Já teve crianças, dava pra saber pela voz, que estavam sozinhas em casa, estavam assustadas e precisavam muito ligar”, relembra.

Na vida adulta: mudanças e perdas

Um dos principais fatores que leva ao suicídio é a depressão, uma doença conhecida por ter grande risco de aparecer em diferentes momentos ao longo da vida. O aumento dos índices de suicídio na faixa etária de 20 a 29 anos, em Santa Catarina, conforme a pesquisa da OMS, é atribuído pela psiquiatra Lilian Lucas ao fato de as pessoas terem mais acesso a meios letais.

A presença de doenças crônicas, perda de pessoas próximas ou de empregos, assim como mudanças comuns nesta idade, como a troca de cidade ou o afastamento de amigos, também deixam as pessoas mais suscetíveis.

“É preciso que os colegas e amigos sejam incisivos quando notam as mudanças de comportamento. Não adianta só dizer que vai passar, que acontece com todo mundo e que há coisas boas na vida”, afirma a Lilian. “Isso pode piorar as coisas, porque a pessoa pensa nas coisas boas e ainda assim se sente mal”, completa a psiquiatra.

Comportamento por gênero

No período de 2011 a 2016, 69% das tentativas de suicídio no Brasil foram de mulheres. Ainda assim, os homens são os que costumam ter mais dificuldade para procurar ajuda.

"A mulher sempre esteve mais próxima das questões ligadas à emoção e à sensibilidade", diz Anita Bacellar. "Então, para elas ainda é mais fácil procurar ajuda".

Regiões de maior incidência em SC, ainda sem explicação

Segundo boletim epidemiológico divulgado nesta semana pelo Ministério da Saúde, a região Sul do Brasil concentra a maior taxa de suicídios do país nos últimos dez anos. Além disso, é a segunda onde ocorreu o maior número de tentativas: 25,1% do total nacional.

Em Santa Catarina, entre 2010 e 2016 municípios do Médio Vale do Itajaí foram os que registraram o maior número de casos de suicídio no Estado. Na região ocorreram 483 dos 3.867 suicídios no período – o equivalente a 12,4%. A segunda maior incidência é na Grande Florianópolis, onde foram 479 casos.

A relação dos casos com as regiões precisa de uma análise ampla. “O que se pensa é que em todo o Sul do Brasil temos muita imigração europeia, que pode ser um dos fatores que explicaria esses índices mais altos em algumas áreas”, avalia Lilian Lucas. “A população europeia tem um risco maior de suicídio, o que talvez seja um fator genético”, completa.

Tabela suicídio SC - Arte/ND
Arte/ND

Quanto mais eu falo, mais alguém me compreende

É no quarto andar de um prédio no Centro de Florianópolis que fica localizada a sede do CVV em Florianópolis. Em uma sala estreita, porém aconchegante, um espaço privado recebe quem precisa ter a voz ouvida. Mais além, ao fim do corredor, um terminal recebe ligações do 188. Há também um segundo terminal, que segue inoperante devido à falta de recursos.

Cada ponto do CVV se sustenta sozinho, explica Carmen Lacerda, uma das encarregadas do órgão na capital catarinense. "Fazemos brechós e noites da pizza para angariar fundos. Também recebemos contribuições dos voluntários. Foi assim, depois de muitos anos, que compramos a sala que temos hoje".

Carmen já era uma das porta-vozes do CVV quando o voluntário José Vilela Sobreira Sobrinho ingressou no projeto. Para ser voluntário, é preciso ter no mínimo 18 anos e realizar um curso de 30 horas. “Ensinamos a ouvir compreensivamente e a dialogar construtivamente”, explica.

“Basta ter boa vontade e querer ajudar. Passamos a filosofia de trabalho, como ouvir sem julgamento”, conta Carmen. O voluntário escolhe o dia e o horário em que vai atender, que deve ser um período de quatro horas e meia por semana.

Como ajudar - Arte/ND
Como ajudar - Arte/ND


Além dos canais por telefone (188), e pela internet, existe atendimento presencial nos 13 centros espalhados por Santa Catarina. Todas as alternativas são gratuitas. Na capital catarinense, o CVV fica aberto das 8h às 20h, na avenida Hercílio Luz, número 639, sala 408, no Centro.

Em Santa Catarina, de janeiro a julho de 2018, 355 voluntários fizeram 178 mil atendimentos, que, segundo a ONG, podem ter sido originados de qualquer parte do Brasil. A média diária de ligações diárias feitas de dentro do Estado é de 320. Em 2017, o 188 recebeu 2 milhões de ligações de cidadãos em busca de ajuda, o dobro do ano anterior.

“A gente dá todo o espaço possível para que ela conte a sua história”, explica Vilela. “Partimos do princípio que quanto mais eu falo, mais percebo que alguém está me compreendendo e me sinto reforçado”, declara.

Para voluntariar no CVV não é preciso ter nenhuma formação específica – entre os voluntários estão professores, médicos, funcionários públicos e advogados, por exemplo. Atualmente há 2.900 voluntários espalhados por 23 estados, e um curso para preparar novos integrantes da ONG está marcado para 8 de outubro. “O que todos têm em comum é a vontade de ajudar o próximo e transformar o mundo em algo melhor”, lembra Vilela.

Por que a abordagem sobre suicídio é um tabu?

A difícil abordagem do suicídio remete à época em que as pessoas que tiravam a própria vida não podiam ser enterradas da forma convencional, sendo consideradas “pecadoras”.

"Era uma forma da sociedade, com a melhor das intenções, dizer que as pessoas não deveriam fazer isso, pois coisas ruins aconteceriam”, afirma a psiquiatra Lilian Lucas. Hoje, sabe-se que o tabu fez com que as pessoas fugissem do assunto, causando o adoecimento mental e falta de orientação.

Para o voluntário Vilela, a divulgação do problema também só tende a facilitar a sua compreensão. "Rompendo o tabu, sem romantizar o suicídio, podemos levar a informação a todos, como se levou em relação à Aids no passado", relembra.

É importante que familiares e amigos não fiquem só na conversa e encaminhem a pessoa para um tratamento de saúde. “As pessoas estão acostumadas a temer o desconhecido, então como o funcionamento mental sempre foi mais difícil de ser entendido do que uma fratura, por exemplo, há esse tabu”, destaca Lilian.

Atendimento é gratuito

Pessoas com sintomas de ansiedade e depressão podem procurar atendimento gratuito oferecido nas Unidades Básicas de Saúde. Em Florianópolis – que totalizam 49 -, as equipes médicas contam com suporte do NASF (Núcleo de Apoio à Saúde da Família).

Conforme a coordenadora de saúde mental da Secretaria de Estado da Saúde de Santa Catarina, Deisy Mendes Porto, casos mais severos, crônicos e persistentes devem procurar uma das unidades do CAPS (Centro de Atenção Psicossocial), que fazem parte da RAPS (Rede de Atenção Psicossocial). 

Já casos de risco ou de tentativas de suicídio devem ser encaminhados diretamente a hospitais e UPAs (Unidades de Pronto Atendimento), ou informados ao Samu pelo telefone 192. “É preciso obter orientações precisas, tirar o acesso a meios letais e não deixar a pessoa sozinha”, explica a psiquiatra Lilian Lucas.

No Estado, há 100 unidades disponíveis, sendo quatro em Florianópolis: o CAPS Ponta do Coral, na Agronômica, que atende adultos com transtornos mentais em geral; o CAPSI, no mesmo bairro, que atende crianças e adolescentes de até 18 anos; e os CAPSAD, focados em dependentes químicos, localizados no Pantanal e no Estreito.

Atendimento - Arte/ND
Atendimento - Arte/ND


Governo promete investimento em prevenção, mas pesquisa na área ainda é rara

Em 2009, Santa Catarina foi o primeiro estado brasileiro a aprovar uma lei que instituiu a Semana Estadual de Valorização da Vida. O período, na época, foi definido como a segunda semana de maio. No mesmo mês, este ano, o Ministério da Saúde anunciou que o Estado seria um dos beneficiados com recursos federais para ações de prevenção ao suicídio.

A estimativa é de que R$ 1,4 milhão seja aplicado em ações realizadas em seis capitais, incluindo Florianópolis. Os locais foram considerados prioritários para as ações da RAPS devido ao alto índice de suicídio registrado na última década.

A redução da taxa de mortalidade faz parte dos ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável) até 2030. Além disso, o Brasil foi um dos países que assinou o Plano de Ação em Saúde Mental 2015-2020, lançado pela OPAS (Organização Pan-Americana da Saúde) com o intuito de acompanhar o número anual de mortes e o desenvolvimento de programas de prevenção.

Segundo a psiquiatra Lilian Lucas, as pesquisas relacionadas a tentativas e suicídios ainda são insuficientes. Entre as carências está a falta de dados relacionados ao suicídio infantil. Esse problema também pode ser atribuído ao fato de muitos médicos não relatarem os casos. “Nem todos os médicos notificam as tentativas, como deveria ser. Em parte porque há o tabu, mas também porque ocorre uma desinformação”, comenta.

Em 2011, a notificação de tentativas de suicídio passou a ser obrigatória. Entre 2011 e 2016, segundo o Sistema de Informação sobre Mortalidade, foram notificadas 176 mil lesões autoprovocadas. Destas, 27,4% (48 mil) foram tentativas de suicídio.

“Os médicos que atendem tentativas – e também suicídios – devem nos dar nos próximos anos um cenário mais realista. Muitas vezes, com jovens, o suicídio passa como se fosse um acidente de trânsito”, aponta a presidente da ACP.

Um levantamento feito pela Secretaria de Saúde de Florianópolis estima que para cada caso de suicídio, existam de dez a quarenta tentativas não consumadas. Além disso, para cada tentativa documentada, conforme a secretaria, devem existir outras quatro que não são registradas. Isso significaria que entre 230 e 1,1 mil tentativas de suicídio deixam de ser notificadas por ano.

Plano Estadual de Prevenção ao Suicídio

Uma das alternativas recentes é o Plano Estadual de Prevenção ao Suicídio, criado pela Secretaria Estadual da Saúde. O projeto consiste na capacitação de profissionais e na criação de estratégias para divulgação de informações que incentivem pessoas com doenças ou transtornos mentais a procurar ajuda com profissionais de saúde.

De acordo com a presidente do Conselho Estadual de Saúde, Cleia Aparecida Clemente Giosole, o plano será abordado nas próximas reuniões do conselho. “Temos que ver de que maneira os conselhos poderão ajudar na divulgação desse projeto, para que a pessoa busque o tratamento certo e minimize a situação”, afirmou.