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Os bastidores do 1º Congresso Internacional de Operações de Choque, em Florianópolis

Entre palestras e reencontros no evento que ocorreu em Florianópolis, histórias colecionadas sob distintas patentes foram contadas ao jornal Notícias do Dia

REPORTAGEM: MARCONE TAVELLA
Especial para o Notícias do Dia

A atividade policial em operações de choque desperta os melhores sentimentos nos PMs França, Bomfim, Silveira e Gomes. Sonho, paixão, orgulho e nostalgia são algumas das expressões comuns ao falarem do grupo de missões especiais. Histórias colecionadas sob distintas patentes e que foram contadas ao jornal Notícias do Dia esta semana entre palestras e reencontros oportunizados pelo 1º Congresso Internacional de Operações de Choque, realizado em Florianópolis.

Para o coronel Carlos Alberto Araújo Gomes Júnior, comandante-geral da Polícia Militar de Santa Catarina (PM-SC), o choque está na sua formação policial. Foi ele quem criou, em 1988, o Pelotão de Polícia de Choque de Joinville, dando início a uma carreira de comando forjada nas patrulhas da paulista Rota e consagrada em livro pela capacidade de negociação no controle de distúrbios civis, como na greve dos professores estaduais, em 2011, e nas manifestações de junho de 2013.

"A tropa de choque é um bisturi que deve ser operado de maneira minuciosa, solucionando o problema com o menor dano possível", descreve.

Congresso ocorreu nesta semana em Florianópolis - Divulgação
Congresso ocorreu nesta semana em Florianópolis - Divulgação


As lições tiradas em embates com movimentos sociais do porte da Revolta da Catraca, de 2004 e 2005, são capítulos significativos também na trajetória do tenente-coronel Maurício Silveira, atual comandante do Grupamento de Polícia de Choque da PMSC.

"Não somos melhores que nenhum policial, trabalhamos diferente para fazer a diferença", enalteceu Silveira.

Entre seus 70 comandados, coube ao capitão Victor Bomfim Monteiro liderar a organização do Congresso, que trouxe 12 palestrantes, incluindo representantes das forças policiais da França, Portugual, Argentina e Chile. No grito de guerra final, na foto de encerramento do evento, o homem parrudo não conteve as lágrimas.

"Sentimento de missão cumprida, de paixão por vestir esta farda", explicou.

Farda que é sonho para o soldado Emilson França do Rêgo Júnior. Formado em um curso preparatório de 60 dias no Mato Grosso do Sul, ele aguarda uma vaga no seleto grupo para poder também colecionar suas histórias.

Múltiplos, preparados e pouco acionados

São quatro as vertentes da atividade policial de choque, como explica o coronel Araújo Gomes.

"O patrulhamento tático móvel, que remete aos camburões da Rota-SP; as operações especiais, com ações cirúrgicas em situações de alto risco; a cobertura e escolta em eventos, como nos jogos de futebol e, por fim, o controle de distúrbios civis, que envolve manifestações, reintegrações de posse e desobstrução de vias", enumera.

Coronel Araújo Gomes participou do evento - Divulgação
Coronel Araújo Gomes participou do evento - Divulgação


Para atuar em alto nível em cenários tão distintos, o tenente-coronel Silveira observa três princípios.

"Tem que ter disciplina e obedecer ordens, porque uma atitude isolada dele, fora do conjunto e do treinamento, acaba deixando toda a equipe em situação fragilizada. Controle emocional também é importantíssimo, já que esse policial vai ser ofendido, xingado, recebido com pedrada e ele não pode levar para o lado pessoal e querer resolver sozinho. Por fim, ele precisa de ter resistência à fadiga e à cargas elevadas de estress", disse.

Embora múltiplos e capacitados, é a força menos empregada pela polícia.

"É uma ferramenta altamente qualificada na mão de um comandante, mas só utilizada quando se esgotam os recursos ou em uma missão específica da operação. Trata-se, portanto, de um policial diferenciado, com uma energia interna gigante e autocontrole desenvolvido. Eles treinam, treinam e treinam e muitas vezes nem saem do ônibus", explica Gomes.

A missão dos búfalos

Um misto de susto e orgulho tomou conta do policial militar Carlos Alberto Araújo Gomes ao se deparar com a foto do filho policial estampada na página do jornal. A matéria narrava o confronto ocorrido em uma reintegração de posse em uma fazenda no município de Garuva, Norte de Santa Catarina.

Era o final dos anos 80 e as forças de segurança tinham pouca informação sobre o recém-criado Movimento dos Sem Terra (MST). O então tenente Araújo Gomes, comandante dos 18 homens que formavam o Pelotão de Polícia de Choque de Joinville, recebeu a missão que surpreendeu o pai e quase lhe tiraria a vida.

Ele conta que o trabalho era dar cobertura aos funcionários das terras, que haviam conseguido o aval da Justiça para resgatar os búfalos que estavam sendo carneados para sustento de 250 assentados.

"Um dia antes, tínhamos cercado o acampamento com mais de 200 homens. A tensão chegou a tal nível que o comandante da ação decidiu recuar e alertar ao juiz que a reintegração de posse, naquelas condições, ia terminar em feridos", lembrou.

O cumprimento da ordem foi adiado e, no dia seguinte, sem informações precisas do setor de inteligência, Gomes e seus 18 comandados decidiram aproveitar a tarefa de proteção aos funcionários para fazer um reconhecimento do terreno.

"Em um descampado, os sem-terra haviam revirado a terra com arado para dificultar a entrada de viaturas. Dois dos nossos homens ficaram próximo à porteira, com os carros, e o restante seguiu por um capão de mato até encontrar a primeira barreira dos invasores", disse.

Na confusão, recorda-se o hoje comandante geral da PM-SC, dois homens foram presos.

"O restante dispersou, seguindo por um caminho entre dois morros. Decidimos avançar, mesmo com os presos, e poucos metros adiante encontramos a segunda barreira. Estavam armados com foices, pequenos porretes com pregos, artilhadeiras. Discutimos de forma acalorada e eu insisti que tinha ordem judicial para passar e ia passar", contou.

Congresso contou com troca de experiências - Flávio Tin/ND
Congresso contou com troca de experiências - Flávio Tin/ND

O golpe da foice

O confronto, que durou cerca de 15 minutos, segundo o coronel Araújo Gomes, iniciou com um golpe que tinha como alvo seu pescoço.

"Quando eu disse que íamos passar de qualquer jeito, a campesina que estava conversando comigo foi na direção dos sem-terra e eu já alertei a tropa que íamos seguir em frente. Quando olho para a mulher, ela está voltando em minha direção com a foice erguida", lembra.

Gomes conseguiu se esquivar, mas acabou indo ao chão.

"Ela tentou outro golpe e um dos policiais segurou o movimento com a carabina. Nosso grupo, então, se recompôs e, em seguidas fomos abrindo caminho com bombas de efeito moral. Os sem-terra dispersaram contornando o morro, atravessaram o acampamento que estava levantado ali e foram dar de cara com os dois policiais que estavam na porteira, cuidando das viaturas", conta.

Com armas em punho, os dois sargentos foram mandando que as pessoas se abaixassem. Quando a tropa liderada por Araújo Gomes chegou ao carro para avisar do ocorrido ao Batalhão por rádio, a reintegração estava concluída.

"Como havia uma ordem prévia do juiz para cumprir caso desse alguma alteração, nós fomos cumprindo de barraca em barraca. Acabando ali, fomos para os carros e nos deparamos com a cena: uma névoa de resto de fumaça das granadas, cheiro de gás lacrimogênio e de pólvora e duzentas pessoas sentadas, cabeça entre as pernas, sem nenhum ferido", recorda-se.

Dia de folga faz de PM do Choque herói (Capitão Bomfim)

Enfrentar o perigo, controlar o estresse, tomar decisões rápidas e resistência à fadiga foram algumas das características, comuns na formação de um policial de choque, que transformaram o capitão Victor Bomfim em herói no verão passado. No dia 28 de novembro, ele curtia folga em uma prainha, nas proximidades da Guarda do Embaú, quando foi surpreendido com pedidos de socorro que vinham do mar.

"O mar estava bem revolto, eu nem tinha entrado na água, quando avistei o casal sendo arrastado pela correnteza", lembra.

Capitão Victor Bomfim - Divulgação
Capitão Victor Bomfim - Divulgação


O goleiro Marcelo Lomba, do Internacional, que coincidentemente estava ali, e um amigo foram na direção de Roger Bertotto Granella, que se aproximava de um costão próximo. Bomfim nadou em direção à Pamela Machado Oliveira, que já se encontrava atrás da linha de arrebentação.

"Eu sem equipamento, ela não sabia nadar, eu consegui agarrar com muito esforço e vim rebocando ela até a areia. Demorou bastante e eu cheguei extenuado na praia, quando ela começou a pedir pelo namorado", recorda-se.

O capitão lembra de olhar para o costão e avistar o Marcelo e o amigo na praia, olhando para a água.

"Como eu estava muito cansado, procurei por alguma coisa que pudesse me dar estabilidade na água, pois ele tinha mais de 100 kg e não eu não ia conseguir. Lembrei de estar com duas garrafas pet na mochila. Esvaziei ambas e entrei na água pelo costão, alcançando o Roger, que já estava roxo", disse.

Como a ressaca impossibiltou a saída pela areia, Bomfim, Roger e quatro salva vidas que chegaram depois ficaram cerca de 2h na água até a chegada do resgate motorizado.

Foi somente ao chegar na areia, exausto, que ele percebeu que o rapaz que estava junto ao grupo era goleiro do Inter. Marcelo bateu no ombro do capitão e dizia a todos.

"Esse cara é um herói! Ele é um herói".

Batizado em reintegração

A primeira missão do tenente-coronel Maurício Silveira como comandante do Grupamento de Polícia de Choque da PM-SC foi uma reintegração de posse em Navegantes, ordenada em janeiro de 2016.

"Era um terreno da prefeitura que foi cedido para a Infraero, mas havia sido invadido por cerca de 450 pessoas. Foi muito tenso, porque ás 6h, quando chegamos, eles ativaram as barricadas de fogo para impedir nosso acesso", recorda-se.

Silveira conta que o Choque buscou uma outra rua e entrou por trás da barricada, dispersando as pessoas com gás lacrimogênio e tiros com munição de borracha.

"A negociação demorou muito, cerca de 4 horas, e é algo que não pode ocorrer em uma reintegração. A tropa fica estressada e os níveis de tensão aumentam muito", explicou.

De 2016 para cá, Silveira conta orgulhoso que só houve novo confronto na greve dos caminhoneiros, em maio deste ano, com operações em Biguaçu e Imbituba.

"A partir de Navegantes começamos a gerar procedimentos para as ações e estamos encerrando esse ano com cerca de 30 cumprimentos de reintegração de posse sem nenhum confronto", destacou.

França quer ter a chance no seleto grupo de missões especiais da PM-SC - Divulgação
França quer ter a chance no seleto grupo de missões especiais da PM-SC - Divulgação


Pronto para o patão

Integrante do 21º Pelotão de Patrulhamento Tático (PPT) da PM-SC, Emilson França do Rêgo Júnior foi longe para estar apto a ingressar no Grupamento de Polícia de Choque catarinense. PM desde 2014, o soldado mira fazer parte do grupo desde as primeiras experiências com o patrulhamento tático, o patão, como é conhecido no jargão policial.

No último dia 25 de outubro ele se formou no curso de Choque da PM-MS. Foram 60 dias intensos de treinamento, experimentando situações reais e ampliando os conhecimentos no controle de distúrbios civis. Uma das missões que mais o impressionou foi ter feito o policiamento do jogo Flamengo e Fluminense, no Maracanã, em estágio dos alunos no Rio de Janeiro.

“Eu sou flamenguista, mas o que marcou mesmo foi perceber que dependia do nosso pequeno grupo a segurança de 40 mil pessoas, naquele estádio imenso”.

Participante do I Congresso Internacional de Operações de Choque, França quer ter a chance no seleto grupo de missões especiais da PM-SC.

“Pude agregar bastante conhecimento e espero em breve poder contribuir com o Choque. É uma tropa especializada, extremamente cirúrgica, e tem um espírito de união muito forte. Espero contribuir com a doutrina de patrulhamento que tive contato”, disse.