No Dia das Crianças, ND traz à luz projeto em Florianópolis que proporciona momentos de protagonismo a crianças destituídas de suas famílias

Apadrinhamento afetivo - Marco Santiago/ND

O apadrinhamento afetivo e a transformação na vida de crianças em abrigos

No Dia das Crianças, ND traz à luz projeto em Florianópolis que proporciona momentos de protagonismo a pequenos destituídos de suas famílias


REPORTAGEM: VIVIANE DE GÊNOVA
EDIÇÃO: BEATRIZ CARRASCO
FOTOS: MARCO SANTIAGO/ND e ARQUIVO PESSOAL


Quando tinha oito anos, Marieli era uma menina tímida na presença de estranhos, mas mantinha as peraltices típicas da infância quando estava com os colegas de quarto e com as cuidadoras do Lar Recanto do Carinho, onde morava. Assim como outras crianças, também tinha seus momentos de rebeldia, como nas vezes em que precisava tomar algum medicamento. Era persistente, diziam as cuidadoras.

E foi justamente em um dia desses, em que reclamava da necessidade de tomar um remédio, que ela conheceu Marcus e Fernanda, jovem casal que havia se voluntariado como padrinhos afetivos no abrigo. Os dois já tinham visitado a casa de acolhimento e demonstrado interesse em apadrinhar uma criança. A afeição por Marieli foi instantânea, mas o casal preferiu esperar que a direção da casa indicasse quem mais necessitava de afeto naquele momento. A indicação foi justamente a de Marieli.

Com a primeira aproximação, durante o episódio do remédio, Marieli não só se acalmou como teve a confiança conquistada pelo casal. Foi aí que começou a história de muito afeto e carinho. Neste Dia das Crianças, o Notícias do Dia celebra a data com aqueles que dedicam tempo a pequenos desconhecidos, que precisam de atenção e amor.

Marieli Carvalho Costa hoje tem 22 anos, não está mais no abrigo, mas continua vivendo em Florianópolis. A relação que construiu com seus padrinhos é tão grande que, 14 anos depois, as visitas entre eles continuam frequentes e sólidas.

“Sempre me senti acolhida. É ter alguém para contar, como se fosse pai mesmo. Não que no abrigo seja ruim, porque também foi bom lá, mas é a possibilidade de ter outra vida. E essa relação de carinho é até hoje”, diz Marieli.

Quando pensa em seus padrinhos, ela diz que tem muitas histórias boas para recordar. O empresário Marcus Vinícius Ludvig e a mulher, Fernanda Ludvig, são pais de Manoella, um ano mais nova que Marieli, o que contribuiu para que as duas crescessem amigas.

“Sempre saímos todos juntos. Eles nos levavam para passear, conhecer lugares novos. E hoje eles também me ajudam muito com minha filha”, diz Marieli, que é mãe de Maria Sophia, de dois anos, e está grávida de sete meses da Valentina.

Marcus e Fernanda levavas Marieli para passeios com a filha Manoella - Arquivo Pessoal
Marcus e Fernanda levavam Marieli (na primeira foto à esquerda, de rosa) para passeios com a filha Manoella - Arquivo Pessoal


Marcus conta que os laços com a afilhada foram se fortalecendo com a aproximação de Marieli com sua família, possível por meio das visitas ao abrigo e durante os passeios permitidos nos fins de semana, quando ela era criança.

Durante as conversas, a orientação e o carinho sempre estiveram presentes. “Sempre a incentivamos a estudar, a tomar um redirecionamento religioso. Às vezes ela me chamava de padrinho, às vezes me chamava de pai, mas nunca exigimos uma nomenclatura. Preferimos deixá-la bem à vontade”, diz o empresário.

Marcus hoje também é padrinho da filha de Marieli, Maria Sophia, de dois anos - Arquivo Pessoal
Marcus hoje também é padrinho da filha de Marieli, Maria Sophia, de dois anos. Última foto mostra a amizade que continuou entre Marieli e Manoella - Arquivo Pessoal


O cuidado, no entanto, era para que a afilhada não saísse de sua realidade. Por isso, ele e sua família buscavam o equilíbrio, oferecendo a Marieli o que suas condições permitiam. “Mostrar que ela sempre teria os padrinhos à disposição dava segurança. Ela voltava tranquila para o abrigo, sabendo que estaríamos ao seu lado. De vez em quando ela perguntava: ‘mas e quando eu crescer?’ Quando você crescer, eu respondia, seu padrinho e sua madrinha vão continuar”, conta.

Hoje, Marcus se considera feliz e satisfeito por ter colaborado com o desenvolvimento da afilhada, num processo que envolveu toda a família. Sobre o vínculo formado, ele assegura: “Nós sempre aprendemos muito mais que o pouco que pudemos proporcionar a ela”.

Amor e amizade dos padrinhos continua até hoje, com Marieli grávida da segunda filha - Arquivo Pessoal
Amor e amizade dos padrinhos continua até hoje, com Marieli grávida da segunda filha - Arquivo Pessoal


Lar incentiva apadrinhamento desde a fundação

O Lar Recanto do Carinho, no bairro Agronômica, em Florianópolis, é uma das casas que conseguiram desenvolver um projeto próprio de apadrinhamento afetivo para os abrigados.

A casa foi aberta em 1992 para receber crianças portadoras do vírus HIV que eram abandonadas em Santa Catarina. O propósito mudou com o passar dos anos e hoje o lar abriga crianças e adolescentes de Florianópolis que sejam vítimas de violência, além de funcionar como uma creche para filhos de ex-acolhidos.

O gerenciamento do projeto de apadrinhamento afetivo mantido pelo Recanto do Carinho é feito pela própria casa, mas todo o processo é acompanhado pelo Juizado de Infância e Juventude.

Para evitar problemas, só entram neste programa as crianças que estão destituídas e que têm pouca possibilidade de adoção. Atualmente, três estão nessa situação: duas acamadas e um adolescente de 17 anos, com deficiência intelectual.

Só entram neste programa as crianças que estão destituídas e que têm pouca possibilidade de adoção - Marco Santiago/ND
Lar Recanto do Carinho funciona no bairro Agronômica desde 1992 - Marco Santiago/ND


Segundo a coordenadora Márcia Lange Rila, esse cuidado acontece para que os acolhidos não sofram com o vínculo quebrado com seus padrinhos, já que após eventuais adoções ou volta para a família, pode ocorrer o afastamento.

 “Se você é madrinha ou padrinho afetivo, terá uma relação maior com essa criança. E se ela volta para a casa? Alguns pais até gostam disso, é uma ajuda para eles. Mas se essa criança for adotada, dificilmente o adotante vai querer um padrinho que era do abrigo”, explica.

Márcia, que acompanhou de perto a história entre a família de Marcus e Marieli, diz que a relação de confiança e amizade entre eles é a verdadeira razão do projeto.

“É um apadrinhamento que vem de anos. O objetivo é isso: acompanhar a criança quando ela sair da instituição também, dar esse suporte. Não precisa leva-la para morar contigo, mas poder dar esse suporte emocional e mesmo financeiro. Dar a oportunidade para ela poder contar com esse padrinho”, acentua.

Só entram no programa as crianças que estão destituídas e que têm pouca possibilidade de adoção - Marco Santiago/ND
Só entram no programa as crianças que estão destituídas e que têm pouca possibilidade de adoção - Marco Santiago/ND


Voluntariado pode mudar uma vida

Apesar do projeto de apadrinhamento afetivo não estar disponível para todas as crianças, a coordenadora Márcia Lange Rila explica que todos os 16 acolhidos do lar podem ser beneficiados com momentos de atenção e carinho por meio do projeto de voluntariado.

Os voluntários que já estão na casa há pelo menos seis meses podem, além de fazer visitas semanais, também levar crianças do abrigo para passeios esporádicos.

Essas saídas precisam ser autorizadas previamente pelo Juizado e sempre acontecem em pequenos grupos e com voluntários aleatórios. Pessoas interessadas também podem contribuir com as crianças do abrigo por meio de um programa de apadrinhamento financeiro, voltado principalmente àquelas que dependem de um suporte maior para seu desenvolvimento motor ou intelectual.

Projeto também promove uma rede de conhecidos ao abrigado - Marco Santiago/ND
Projeto também promove uma rede de conhecidos ao abrigado - Marco Santiago/ND


Como se voluntariar

Os interessados que quiserem se voluntariar no Lar Recanto do Carinho podem ajudar de diversas formas: nos cuidados internos dentro da casa com as crianças, na montagem de festinhas de aniversário ou datas especiais, no transporte para escolas e consultas médicas e até mesmo em fretes de eventuais doações, já que o lar não tem transporte próprio.

As reuniões para o cadastro de novos voluntários são realizadas sempre na última quarta-feira do mês, às 14h. É preciso ser maior de idade. O interessado deverá passar por uma entrevista com o psicólogo da casa e, em seguida, o lar chamará conforme a necessidade.

Interessados que quiserem se voluntariar no Lar Recanto do Carinho podem ajudar de diversas formas - Marco Santiago/ND
Interessados que quiserem se voluntariar no Lar Recanto do Carinho podem ajudar de diversas formas - Marco Santiago/ND



Projeto de apadrinhamento foi regulamentado pelo ECA

Embora muitas entidades já trabalhem há anos com projetos próprios para seus amparados, o apadrinhamento afetivo foi regulamentado no ano passado pela Lei 13.508/17, que faz alterações no ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente).

Com base na legislação, foi instituído um Termo Estadual de Cooperação Técnica entre Tribunal de Justiça, Ministério Público de Santa Catarina e dez ONGs e abrigos de acolhimento em Florianópolis.

A ideia é implantar o programa na Capital, moldando um projeto piloto que, eventualmente, poderá servir como guia para outros municípios do Estado. De acordo com o promotor de Justiça Marcelo Wegner, da 9ª Promotoria da Infância e Juventude do MP-SC, reuniões periódicas têm marcado essa discussão.

Modo como o apadrinhamento afetivo deverá funcionar ainda está sendo definido - Marco Santiago/ND
Modo como o apadrinhamento afetivo deverá funcionar ainda está sendo definido - Marco Santiago/ND


Os encontros contam também com a participação de representantes de órgãos oficiais, como OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), Conselho Municipal da Criança e do Adolescente e governo do Estado.

 “O apadrinhamento é uma forma de aproximar pessoas da comunidade que queiram se vincular a uma criança ou adolescente, sem, necessariamente, adotá-lo”, diz o promotor.

“A ideia é estimular a amizade entre o padrinho e o afilhado. Depois, se o vínculo ficar mais forte, nada impede a adoção. Mas o importante é trazer essa criança para essa relação afetiva, até mesmo para ela ter suporte no futuro”, explica.

Para Wegner, o programa também trará como benefício a criação de uma rede de conhecidos ao abrigado, com pessoas que poderão lhe ajudar em diversos aspectos futuramente, como apoio emocional, profissional e até financeiro.

Conforme o promotor, nem todos os abrigos de Florianópolis têm potencial para a implantação, já que crianças muito novas poderão ficar de fora do programa. De qualquer forma, tudo está sendo pensado em conjunto, tendo como inspiração as experiências de sucesso criadas pelas próprias casas de acolhimento.

O modo como o apadrinhamento afetivo deverá funcionar ainda está sendo definido, mas a expectativa é de que, no começo de 2019, algumas entidades já estejam aptas a oferecê-lo. O Poder Público poderá, eventualmente, entrar com a fiscalização e a capacitação de profissionais para lidar com o programa.