Domingo, 18 de Novembro de 2018
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Entramos no universo drag para entender mais dessa arte. Um convite à quebra de tabus e reflexão sobre temas urgentes como identidade de gênero e respeito à diversidade.

Floripa

Ilha da

Magya

Sente o colar gelado, as pulseiras, o batom pesado craquelando na boca, a alcinha caindo... Bem-vinda Aline, bem-vinda Katy Uabba, bem-vinda Dadá!

Elas são drags, artistas de uma vertente de que grande parte das pessoas já ouviu falar. Mas você sabe realmente o que é a arte drag? Não tem muita certeza? Nós te ajudamos.

Durante dias, o Notícias do Dia mergulhou nesse universo e acompanhou artistas da capital catarinense nas rotinas de preparação para um espetáculo e aulas da oficina G-Drag, que ocorreu até o ano passado e por enquanto está suspensa por falta de apoio. No curso, são oferecidas técnicas para o desenvolvimento desse ofício que, acreditem, tem referências que remontam à Grécia Antiga.

Nossa “mentora” foi a professora que criou a oficina, Samanta Daus Silvius, natural de Tubarão e formada em artes cênicas pela Udesc (Universidade do Estado de Santa Catarina). Ela também é diretora do espetáculo cuja montagem acompanhamos e, atualmente, continua na luta para consolidar o merecido espaço das drags no mundo artístico em Florianópolis, para além da vida noturna.

Reflexão, quebra de tabus e discussão sobre temas urgentes – como violência doméstica, racismo, homofobia e gordofobia – fizeram parte do nosso dia a dia durante essa experiência. Sempre com muito humor, improvisação, dança e close. Tudo a ver com a arte drag e uma ótima combinação para promover o respeito e barrar as ondas de ódio que tanto se espalham.

Navegue no infográfico e conheça mais sobre essa vertente artística, para se libertar das concepções equivocadas – que muito circulam por aí –, e não fazer feio quando surgir o assunto.

LESGOW!

Engraçada, extravagante, ácida, discreta… O perfil da drag é construção permanente. É o artista que cria a sua personalidade drag, definindo sua aparência e características. Siga os passos para não dar close errado:

#1O que é uma Drag

Ser drag é, acima de tudo, ser ator ou atriz. Isso porque a drag nada mais é que um personagem, montado e caracterizado pelo artista.

Atenção: o termo drag não está relacionado à orientação sexual ou identidade de gênero. Drag é um trabalho artístico. É arte que diverte, incomoda, quebra tabus e faz refletir. A cena drag inclui homens e também mulheres, como é o caso da Samanta Daus Silvius – com a personagem Sandelícia – e seu namorado, Adriano Medeiros, que também se monta.

“O gênero e a identidade do artista não são parâmetros para validar ou não a legitimidade da expressão artística de uma drag. Não há necessidade e nem sentido em nomear e classificar uma obra de arte pelo gênero do artista que está por trás”, enfatiza Samanta.

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Vídeo: O que as pessoas pensam sobre Drags

#2O nascimento da drag

O nascimento de um novo ser. Assim começa o processo de criação de uma drag, que desenvolve sua personalidade, opiniões pessoais, tipo de humor, trejeitos e história de vida. As características da drag se mostram com o tempo, como ocorre com as pessoas.

“O artista dá vida a um novo ‘ser’, dotado de personalidade própria. Um ser que além de entreter, também questiona temas sociais, políticos e culturais. Acontece todo um processo de montagem, planejamento e percepção. Penso que drags são personagens únicos e pessoais”, diz Samanta.

É comum no mundo drag os chamados “amadrinhamentos”. Ou seja, a mãe drag transmite seus conhecimentos sobre a arte à afilhada, que muitas vezes acaba por adotar o mesmo sobrenome de quem passou os ensinamentos.

#3Cada drag uma personalidade, um mundo à parte

Floripa cada vez mais emerge como uma terra de onde florescem grandes drags. Para entender como elas ganham vida, conversamos com artistas em etapas de criação e já mais avançados na profundidade de suas personagens. Ainda que recém-criada, a personalidade da drag já mostra seus traços marcantes.

Clique nos perfis e veja com quem mais se identifica.

Aline Paddle

Artista: Maikon Andretti, 27 anos

Aline Paddle é uma sonhadora, um pouco “patricinha”, como define o artista, e aspirante a modelo internacional – já fez teste até para a Victoria’s Secret. De personalidade ingênua, não vê maldade em nada.

“A Aline representa um pouco as pessoas que não têm conhecimento e que também acham que não precisam. Acho legal quando provocamos reações, não só do riso de quem concorda e gosta, mas também de quem estranha e vê com maus olhos.”

Dadá Brasil

Artista: Dalton Madruga da Silva, 22 anos

Sagitário com ascendente em sagitário e lua em sagitário. Assim se descreve o artista por trás da drag Dadá Brasil, que dá os primeiros passos em sua criação. Inspirada na webcelebridade Inês Brasil, Dadá é afro-brasileira e quer levantar a bandeira das suas origens com muita dança, batuque e close.

“A Dadá é brazuca, muuuuito brazuca. Ela escuta Ivete Sangalo adoidada, adora os barzinhos de esquina. Ela está na feira fazendo suas compras sobre um belo salto alto, dando muito close. Dadá é povão.”

Katy Uabba

Artista: Alesandro Melo, 20 anos

Filha do deus Dionísio e da deusa Afrodite, Katy Uabba espalha o amor. A alta costura não a representa: ela é muito mais chegada em um brechó. Katy ama bebidas e sua favorita é... Catuaba.

“A Katy Uabba é selvagem, afrodisíaca. Ela é toda brega, over, exagerada, barulhenta. As drags fazem com que as pessoas se questionem. Usamos de uma imagem exagerada justamente para fazer as pessoas questionarem gêneros, padrões, o que é certo ou errado.”

#4Hora da montação

Estrelando:

Mawu Robichaux's

O maquiador Tonny Ferrer, 22 anos, é quem dá vida à personagem Mawu Robichaux’s. Ele mostrou como é a rotina de uma drag em dia de montação. O tempo para que isso aconteça? Quase três horas!

A ideia de poder viver a vida de um personagem totalmente diferente foi o que levou Tonny ao universo drag. O interesse começou em 2012 e o artista passou a encarnar Mawu em 2014. Quando não está sob o glamour de Mawu, Tonny tem uma rotina tranquila: trabalha como maquiador em Florianópolis, desenha roupas e estuda inglês – ele ganhou um curso de um mês de maquiagem de cinema em Nova York e se prepara para a viagem.

Um traço marcante de Mawu é sua ligação com a religião. E essa característica não surgiu à toa: na adolescência, Tonny começou a ter interesse em estudar diferentes vertentes religiosas, o que lhe deu conhecimento para se libertar de dogmas e se aceitar como homossexual. No passado, Mawu era uma alta entidade voodoor, mas perdeu seu status e hoje habita o corpo de um jovem rapaz: Tonny.

“A Mawu é ácida, uma personagem a se temer, que vem para quebrar estigmas e tabus sobre religiões. Mawu é leonina, com jeito mandão, brigão e de personalidade forte. Ela representa todo o preconceito, todo o sofrimento que eu vivi e que resolvi transformar em arte. Ser drag é ser empático com os problemas dos outros e, acima de tudo, saber transformar esses medos, assim como se transforma o seu rosto, em algo bonito”, diz Tonny.

Forte e cheia de personalidade, Mawu, aos 50 e poucos anos, não desce do salto. Vamos de Tonny e Mawu.

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Vídeo: Hora da montação

#5Sem close errado! Glossário das drags

#6Eu também posso ser uma drag?

Estrelando:

Samanta

Ser drag é arrasar na maquiagem e se aventurar por esse mundão, certo? Errado. A arte drag envolve a construção minuciosa de um personagem, e para mantê-lo vivo é preciso técnica e [muito] treino. Sendo assim, grande parte dos artistas busca oficinas, cursos e tutoriais, para desenvolver capacitações corporais e vocais, produção de figurino, entre outras ações.

“É como um treinamento para atores, porque as drags também interpretam e dão vida a algo. Embora a construção da drag seja muito pessoal, elas precisam de técnicas. Isso porque, quando não se tem contato com o teatro e a dança, por exemplo, fica um pouco mais difícil de manter a drag viva no corpo. É importante entender quem é você e quem é o personagem”, explica Samanta.

Escola de Drags - Floripa da Magya (Foto: Marco Santiago)
Escola de Drags - Floripa da Magya (Foto: Marco Santiago)
Escola de Drags - Floripa da Magya (Foto: Marco Santiago)
Escola de Drags - Floripa da Magya (Foto: Marco Santiago)
Escola de Drags - Floripa da Magya (Foto: Marco Santiago)

#7Ser Drag vai além da montação

A drag, por si só, já é uma ferramenta de debate sobre gênero e padrões de beleza, pois mostra como é possível ser diferente daquilo que é considerado socialmente aceito. É romper ainda com a ideia enraizada que classifica o que é “de mulher” ou “de homem”, como roupas, comportamentos e habilidades.

“Não importa o gênero do artista que está por trás, o que importa é o que aquela persona quer transmitir. Entendemos que é algo muito novo para a sociedade, mas, em um primeiro momento, o que a drag propõe é uma discussão sobre gênero e padrões aceitáveis da sociedade. O homem vestido de drag discute muito gênero, e a mulher vestida de drag discute padrões de beleza, comportamento e o que é socialmente aceitável”, observa Samanta.

FINISH!

SÓ QUE NÃO

Tem drag que dá close em Floripa há 17 anos, projeto fotográfico criado para dar visibilidade à arte na cidade, youtuber local que está conquistando seu espaço na internet e, é claro, um pouco de como foi o espetáculo “Apocalipsync”. Sintoniza a playlist bapho e conheça a cena da Capital. Lesgow!

A cena Drag em Floripa

Embora tenha crescido nos últimos anos, a cena drag de Florianópolis ainda é pequena quando comparada ao eixo Rio-São Paulo, por exemplo. Essa popularização aconteceu, mesmo que a passos vagarosos, com a exposição da arte em filmes, na web e em reality shows, como no norte-americano “RuPaul’s Drag Race”, que estreou em 2009.

Drags de Floripa formaram o elenco do espetáculo Apocalipsync”, dirigido por Samanta Daus Silvius - Foto: Vinicius Gucvi e Henrique Goulart

“Isso trouxe foco para uma arte que é comumente marginalizada. Estou certa de que a arte drag tem todo o potencial necessário para amadurecer cada vez mais no Brasil e tornar-se um expoente crítico e contestador”, diz Samanta Daus Silvius.

Atualmente, drags são chamadas principalmente para fazer apresentações, discotecagem e cuidar da recepção de festas, baladas e eventos de vários tipos. Em Florianópolis existem casas noturnas, como Concorde Club, 1007, Jivago, Blues Velvet e Treze, que promovem inclusive festas focadas nessa temática, com DJs, bartenders e recepcionistas montadas.

Festas de Floripa são focadas na temática drag, inclusive com DJs, bartenders e recepcionistas montadas - Fotos: Zaira Zeferino

O cachê, no entanto, continua sendo um grande embate, já que a valorização da arte é baixa e “mal paga a maquiagem”, lamentam os artistas. Nesse cenário, surge um questionamento: o que falta para essa vertente artística ganhar espaço também nos teatros?

“É uma arte cara, porque tem um treinamento muito grande, maquiagem, figurino, e na maioria das vezes o cachê pago nas baladas é de R$ 150. Também é difícil chamarem aqui em Floripa, em outras cidades é mais comum. O que estamos tentando fazer é parar de depender das baladas e migrar para os teatros”, destaca Samanta.

APOCALIPSYNC – A BUSCA PELO ESPAÇO NOS TEATROS DE FLORIANÓPOLIS

Reflexão, quebra de tabus e muita diversão. A arte drag é completa, reunindo dança, canto, atuação, improvisação e discussão sobre temas relevantes. Então por que, mesmo com todas essas atribuições, ainda não conquistou seu espaço definitivo nos teatros? Para estimular a realização desse tipo de espetáculo, foi criada a peça “Apocalipsync”, que teve duas apresentações na Udesc, em Florianópolis.

Dirigido por Samanta, o espetáculo teve plateia lotada nos dois dias e estávamos lá para comprovar: foi sucesso total. A peça discutiu de modo atraente temas urgentes como violência doméstica, racismo, homofobia e gordofobia, com muito humor e também momentos de tensão.

Veja em 1 minuto como esse close foi certíssimo:

Apresentação das g-drags

NA INTERNET E NAS EXPOSIÇÕES

Rafael Valentini conquistou espaço na internet com sua drag Vic Haila - Foto: Fernando Cysneiros/The Drag Series

O acesso à internet trouxe voz e visibilidade a grupos que antes ficavam à margem do que era considerado arte. No caso do YouTube, muitos artistas viram uma boa oportunidade para expor seus trabalhos e ideias a pessoas de diferentes partes do mundo. Um deles é o maquiador Rafael Valentini, de Florianópolis, que há 12 anos vive a cena drag.

Em 2015, com a visibilidade que começava a ganhar sua drag Vic Haila, Rafael decidiu mergulhar de vez nesse universo e investir em um canal no YouTube.

Com mais de 10 mil inscritos, no perfil que tem o nome do artista, Rafael Valentini, são publicados tutoriais de maquiagem e vídeos de montação.

“Em muitos vídeos convido outras drags da região, o que é uma forma de divulgar o trabalho delas”, diz Rafael.

Um dos vídeos, em que as drags se montam como Pokémons, chamou a atenção da produção do programa “Legendários”, da Record, rendendo a Vic Haila duas participações na atração. Neste mês, ela ainda esteve nas gravações de um episódio do programa Amor & Sexo, da TV Globo.

Canal traz tutoriais de maquiagem e vídeos de montação - Foto: Rafael Valentini/Arquivo Pessoal

Drags como protagonistas

Foi na internet que o projeto Montadas também encontrou um meio de buscar visibilidade para as drags no meio artístico. Na proposta, que já ganhou até exposição em uma casa noturna de Florianópolis, os amigos Matheus Faisting e Richard Nunes fotografam drags da região que tenham algum tipo de ligação, em diferentes cenários.

A história por trás da criação das personagens fez parte das sessões de fotos e contribuiu com o tom da primeira temporada do projeto. Enquanto Richard deu vida à drag Morgana Molochi, Matheus foi responsável por fotografar as modelos.

Briselda Moon - Foto: Matheus Faisting

Emme Le'Mont - Foto: Matheus Faisting

Linda Loca Hammer - Foto: Matheus Faisting

Morgana Molochi - Foto: Matheus Faisting

SELMA LIGHT: HÁ 17 ANOS DANDO CLOSE

Natural de Santa Vitória do Palmar (RS), em 1998 Selma Bastos chegou a Florianópolis para adotar a cidade como seu lar. Dois anos depois, ela se montou como drag pela primeira vez, como um desafio para enfrentar o preconceito. “Hoje as pessoas conseguem ver isso como um trabalho, mas até então não era assim”, comenta Selma.

A drag Selma Light ganhou vida em 2000 (à esquerda), e atualmente (à direita) é referência na Capital - Foto: Arquivo Pessoal

Inspirada em Nany People e Léo Áquila, Selma, hoje com 42 anos, encontrou na montação uma forma de também abraçar sua identidade de gênero. “Ganhei mais coragem e perdi muitos bloqueios”, conta ela, que com sua personagem Selma Light se apresentava na extinta balada Mix Caffé e, eventualmente, passou a receber o público em outras festas.

“Eu descia do palco e conversava com as pessoas. Muita gente tinha medo da drag, e eu procurava usar o meu trabalho para falar o que realmente pensava”, conta. De forma lúdica, Selma promovia diálogos sobre gênero e sexualidade, tendo inclusive ministrado palestras em escolas e grupos de escoteiros. Em 2006, ela ajudou a organizar a primeira Parada da Diversidade de Florianópolis.

Referência entre as drags da Capital, a artista vê a cena atual com algumas ressalvas. “Elas vêm com o mesmo anseio que eu tinha na época, mas ainda têm muito que descobrir”, afirma. Segundo ela, cada drag tem um processo de autodescoberta próprio, que foi facilitado com o acesso às informações com a internet. “Mesmo assim, ainda há bastante preconceito. O pessoal tem medo daquilo que é liberto demais.”

A personalidade, no entanto, continua sendo um fator crucial na composição das novas drags. Muitas, de acordo com Selma, assumem a personalidade de seus ídolos e deixam de lado as próprias peculiaridades. O trabalho, explica, exige que o artista seja maquiador, cabeleireiro, ator, comunicador e performer. “Também é preciso muita atitude e estudo. Não adianta subir no palco e carregar o seu preconceito para o público”.

Músicas para ajudar a sua drag interior a ganhar vida

  • 1

    Dear Santa bring me a man

    (Alaska, Courtney Act & Willam)

  • 2

    Dressed to Kill

    (Sharon Needles)

  • 3

    Sissy That Walk

    (RuPaul)

  • 4

    Run the World (Girls)

    (Beyoncé)

  • 5

    I Adore You

    (Adore Delano)

  • 6

    Your Makeup is Terrible

    (Alaska Thunderfuck)

  • 7

    Gandaia

    (Karol Conka)

  • 8

    Boy Is a Bottom

    (Willam)

  • 9

    Supermodel (Your Better Work)

    (RuPaul)

  • 10

    Flawless Remix

    (Beyoncé & Nicky Minaj)

7 dicas para despertar sua Drag

Floripa, Ilha da Magya

  • Beatriz Carrasco, Gustavo Bruning

    Produção e execução

  • Marco Santiago

    Fotografia

  • Diêgo Deyvison

    Design e desenvolvimento

  • Gustavo Bruning, Bruno Ropelato

    Edição e produção visual

  • Mariju de Lima, Dariene Pasternak

    Planejamento e edição

  • Marcelo Santos

    Revisão