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Abrigando inúmeras obras de arte, casarão dos anos 1950 é a residência oficial dos governadores de Santa Catarina

Casa d'Agronômica, em Florianópolis, tem rico patrimônio cultural

Abrigando inúmeras obras de arte, casarão dos anos 1950 é a residência oficial dos governadores de Santa Catarina


Reportagem: Andrea da Luz
Imagens: Daniel Queiroz
Edição: Sendy Luz


Quem entra na Casa d'Agronômica, residência oficial do Chefe do Executivo catarinense, pode sentir a suntuosidade e a calma que impregnam o lugar. A edificação em alvenaria branca com grandes janelas de madeira apresenta estilo colonial misto, com traços das arquiteturas brasileira, portuguesa e espanhola.

Fica entre a rua Delminda Silveira e a avenida Beira-Mar Norte. Envolta por um jardim impecavelmente cuidado e permeado de espécies como figueira, pau-brasil, pinus, eucalipto e coqueiros, ocupa uma área de 50.000 metros quadrados e sua decoração requintada mescla obras de artistas catarinenses e estrangeiros.

Foto: Daniel Queiroz/ND

A casa abriga muito mais do que história. Traz a oportunidade de viver parte da cultura e da tradição do nosso Estado. E é justamente por isso que a atual primeira dama, Nicole Torret Rocha Moreira, resolveu abrir a residência para visitações guiadas, permitindo que crianças e adolescentes de escolas públicas e privadas possam ter acesso a esse patrimônio cultural. "Penso que é uma chance de despertar um olhar para o lado bom da política, para que as crianças possam inclusive se ver aqui um dia", afirma Nicole.

Passeie por dentro da casa

As visitas começaram no último dia 9 de maio e são realizadas todas as quartas-feiras, em dois períodos, por meio de agendamento. Porém, já está sendo analisada a possibilidade de abrir duas vezes por semana, devido a alta procura. A primeira dama explica que a ampliação do programa de visitas terá que ser bem organizado porque são cerca de 20 crianças mais os professores em cada período do dia."Nos surpreendemos com o tanto de escolas interessadas", revela.

Obras de arte que encantam

Foto: Daniel Queiroz/NDConfira a galeria de imagens (Obras de arte)

Nicole é uma apreciadora das artes plásticas e aponta as telas preferidas na nova casa: "Mulheres do Engenho", do catarinense Martinho de Haro (1907-1985), grande pintor de paisagens, desenhista e muralista nascido em São Joaquim; "Carro de Boi" e "Bandeira do Divino", ambas de Willy Alfredo Zumblick.

A obra "Carro de Boi" fica no Gabinete do Governador, um espaço pequeno e um tanto escuro, realçado por essa pintura cujos traço revelam uma luz natural tão perfeita que parece que a iluminação vem de fora da tela.A obra "Carro de Boi" fica no Gabinete do Governador, um espaço pequeno e um tanto escuro, realçado por essa pintura cujos traço revelam uma luz natural tão perfeita que parece que a iluminação vem de fora da tela.

Já a "Bandeira do Divino" fica na imensa sala de estar e encanta pela perfeição dos detalhes e por retratar um costume religioso que faz parte de várias cidades de Santa Catarina até hoje. Pessoas comuns, numa cena comum, mas de uma beleza ímpar. Zumblick nasceu em Tubarão (1913-2008) e nunca frequentou escolas de Artes, mas traduziu com maestria os fatos históricos, a religiosidade e a cultura de Santa Catarina para o universo da pintura. A única contribuição que o pintor recebeu foram os ensinamentos do artista alemão Frederico Guilherme Lobe da Escola de Belas Artes de Porto Alegre.

Foto: Daniel Queiroz/ND

Além dessas obras, o rico acervo também inclui pinturas de Di Cavalcanti, Ernesto Meyer Filho, do croata cubista Silvio Pléticos que mudou-se para Santa Catarina em 1968, Valda Costa, Rodrigo de Haro, Hassis, do escultor e desenhista alemão Ervin Curt Teichmann, Vera Sabino, do espanhol Antônio Mir e muitos outros.

É bem interessante notar a presença de trabalhos de Vivalda Terezinha da Costa, conhecida como Valda Costa, uma artista plástica negra e pobre nascida em 1953 no Morro do Mocotó em Florianópolis. Suas obras sofreram influência de Martinho de Haro pois foi discípula dele e era também sua modelo principal. Foi comparada aos grandes de expressão nacional, até com Di Cavalcanti, e caiu nas graças da sociedade florianopolitana nos anos 1970/80. Destacou-se na cena artística de uma cidade na época ainda provinciana. Viveu intensamente com glamour, porém sofreu as consequências de uma vida com drogas e álcool. Morreu pobre, em 1993, mas deixou um belo legado que são as suas obras.

Foto: Daniel Queiroz/ND

Uma das obras de outra artista florianopolitana, Vera Sabino, também pode ser apreciada: é um acrílico sobre tela chamado Santa Catarina de Alexandrina. Vera nasceu em Florianópolis em 2 de novembro de 1949 e foi reconhecida nacionalmente e até no exterior, retratando a cultura, tradições e costumes catarinenses. Participou de mais de 60 exposições, sendo duas na França e Estados Unidos. Sua marca registrada é a técnica usada por ela em suas obras, com tinta acrílica e Eucatex. Calcula-se que Vera tenha mais de 8 mil obras espalhadas pelo mundo, em países como China, Açores, França e África do Sul.

Seis ambientes em espaços que se integram

Foto: Daniel Queiroz/NDConfira a galeria de imagens (Hall de entrada)

As visitações são permitidas apenas na parte térrea e social da casa. O Hall de entrada, que se abre para a Avenida Beira-mar Norte permite avistar um lindo chafariz logo em frente à csa. Também abriga um piano de cauda, que Nicole toca de vez em quando. Ele faz parte do patrimônio da residência, mas segundo informações da assessoria de comunicação, não há registros de sua origem e data de fabricação.

Foto: Daniel Queiroz/NDConfira a galeria de imagens (Gabinete do governador)

À direita do hall está o Gabinete do Governador, onde ele pode realizar parte de seu trabalho sem precisar deslocar-se até o Centro Administrativo, no Norte da Ilha.

Foto: Daniel Queiroz/NDConfira a galeria de imagens (Salão de eventos)

Seguindo em frente depois do hall, chega-se ao Salão de Eventos, utilizado para ampliar o número de mesas e assentos em ocasiões de grandes eventos que precisam espaço maior para almoço ou jantar. Serve ainda como auditório quando o governador precisa discursar. O salão teve as plantas trocadas - agora acolhe espetaculares orquídeas brancas que ajudam a iluminar o local - e dá acesso ao segundo andar da casa - parte residencial - através de uma escada digna de telas de cinema.

Foto: Daniel Queiroz/ND

À esquerda do Salão de Eventos ficam as salas de estar, arejadas, suntuosas, com muitos sofás confortáveis e uma lareira.

Foto: Daniel Queiroz/NDConfira a galeria de imagens (Salão Vermelho)

À direita, fica o salão de reuniões, mais conhecido como Salão Vermelho, que tanto serve como sala de jantar durante eventos cerimoniosos quanto para reuniões oficiais.

Foto: Daniel Queiroz/NDConfira a galeria de imagens (Sala de almoço)

Por fim, há a Sala de Almoço, com uma mesa grande e espaçosa onde a família toma café e almoça diariamente.

Troca de residência e mudanças na rotina

Casados desde outubro do ano passado, o casal se mudou para a residência oficial há cerca de um mês, mas segundo a primeira dama já estão bem ambientados. "Meu pai era magistrado, por isso morei em muitas cidades no período em que frequentei do primeiro ao oitavo ano. Foi praticamente um ano em cada casa, então tive de me adaptar a ambientes bons, mas também aos hostis. Acho que a gente tem que se adaptar porque a vida é assim e eu já estou bem ambientada", conta.

Entre os motivos para a mudança estão a reforma do apartamento do casal e o fato de estarem morando no bairro Coqueiros, longe do Centro Administrativo e do Centro da cidade. "Minha vida é toda aqui no Centro, incluindo a escola do meu filho, mas o primordial foi para que o Eduardo (governador) tivesse mais qualidade de vida, levando menos tempo para se deslocar ao Centro Administrativo e podendo até vir almoçar em casa ou despachar aqui do Gabinete", revela.

Foto: Daniel Queiroz/ND

Quanto à rotina, Nicole se mostra envolvida em várias frentes e tenta equilibrar as demandas de toda mulher - casa, trabalho, filhos, casamento. Acostumada a estar na linha de frente e "meter a mão na massa", a advogada passou a liderar a equipe de comunicação que cuida das redes sociais do governador Eduardo Pinho Moreira. "Isso ocupa três ou quatro tardes na semana, mas já batemos muitas metas e aumentamos em mais de 200% o engajamento nas redes sociais em menos de um mês", comemora.

Nicole defende que o papel da primeira dama é também de "intercessora", pois muitas pessoas a procuram em vez do governador. Ela também preside a Fundação Nova Vida, instituição que mantém projetos sociais voltados à assistência de pessoas com vulnerabilidade e em situação de risco, sobretudo crianças, adolescentes e idosos. "Assumi uma Fundação cansada, com alguns processos obsoletos e acredito que possa levar uma outra energia, outra luz para a instituição", afirma.

Foto: Daniel Queiroz/ND

Saiba mais

A Casa d’Agronômica foi construída entre os anos de 1952 e 1954 e inaugurada em 1955 pelo governador Irineu Bornhausen. Até 1955, os governadores ocupavam o Palácio Cruz e Sousa (que atualmente abriga o Museu Histórico de Santa Catarina) ou residiam em suas casas particulares.

A partir de então, a Casa d'Agronômica passou a ser utilizada como residência oficial dos governadores catarinenses. Já residiram ali as famílias dos seguintes governadores: Irineu Bornhausen; Jorge Lacerda; Heriberto Hülse; Celso Ramos; Ivo Silveira; Colombo Machado Salles; Antônio Carlos Konder Reis; Jorge Bornhausen; Henrique Córdova; Esperidião Amin; Pedro Ivo Campos; Casildo Maldaner; Vilson Kleinübing; Paulo Afonso Vieira; Esperidião Amin; Luiz Henrique da Silveira; Leonel Pavan; João Raimundo Colombo e atualmente é residência do Governador Eduardo Pinho Moreira e sua família.