Quinta-Feira, 20 de Setembro de 2018
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Florianópolis recicla apenas 7% dos resíduos coletados na cidade

Caminho do lixo:

Florianópolis recicla apenas 7% dos resíduos coletados na cidade


 

O costume foi herdado ainda quando criança com o saber fazer da vida na roça: o que é de comer volta para terra, vidro só vai fora se quebrar e apenas o que não tem como ser reaproveitado vira lixo. Na casa de Maria Lair Marafiga, 61, e José Oride Barros, 60, cada resíduo tem seu lugar. Nos fundos do quintal, numa das transversais do Rio Vermelho, o resultado mais imediato são alfaces viçosas, cebolinhas, beterrabas, cenouras e salsinhas, todas cultivadas a base do orgânico que vem da cozinha —e da cozinha da vizinhança. E é quando coloca o único saco do que realmente precisa ser recolhido na lixeira pela Comcap (Companhia de Melhoramentos da Capital) que Maria tem dúvidas. O problema da sociedade e do lixo não acaba ali. Na verdade, a cadeia que dará o destino correto ao resíduo —ou transformá-lo em lixo— está apenas começando.

Implantada em 2010 com o objetivo de enfrentar os principais problemas ambientais, sociais e econômicos decorrentes do manejo inadequado dos resíduos, a PNRS (Política Nacional de Resíduos Sólidos) previu o fim dos lixões, redução na geração de resíduos e a destinação final correta através do aumento da reciclagem e da reutilização. Aquilo que tem valor econômico e pode ser reciclado ou reaproveitado volta para ser reutilizado das mais variadas formas possíveis. Tubo de televisor vira piso hidráulico, de placas-mãe se extraem pedras preciosas e a latinha pode virar latinha infinitamente. O rejeito —tudo que não é reciclado ou reutilizado, deve ter destino ambientalmente correto: aterros sanitários ou usinas de incineração.

As metas do plano previam o fim de lixões até 2014 e uma taxa de reciclagem de pelo menos 20% até 2015. No entanto, passados seis anos da implantação do PNRS, apenas 1.055 (18%) dos municípios contam com algum tipo de programas de coleta seletiva. E apenas Santa Catarina conseguiu erradicar completamente os lixões.

Mas mesmo estando na vanguarda da reciclagem —com 30 anos de coleta seletiva e chegando em 100% dos bairros— Florianópolis continua longe das metas estabelecidas pela PNRS (Política Nacional de Resíduos Sólidos) para os municípios da região sul: 43% de reciclagem para resíduos secos (da coleta seletiva) e 30% para resíduos orgânicos (ainda sem coleta específica na cidade).

Só em 2015, a Prefeitura de Florianópolis empregou R$ 163 milhões em coleta, limpeza urbana, transporte e destino final para 202 mil toneladas de resíduos produzidos na cidade (13% do orçamento). O que poucos sabem é que a maior parte do que foi recolhido através das coletas convencionais (93,08%) foi parar no aterro sanitário de Biguaçu, administrado pela Proactiva. Apenas 6,92% dos resíduos foi efetivamente reciclado.

Com espaço limitado cedido pela Comcap (Companhia de Melhoramentos da Capital) no Itacorubi e com equipamentos ultrapassados, a ACMR (Associação de Coletores de Materiais Recicláveis) consegue triar e separar apenas metade das 971 toneladas de material recolhido através da coleta seletiva por mês. O restante é encaminhado para associações de catadores da região, elevando ainda mais os custos da companhia que realiza serviço de manejo dos resíduos. O quadro é pior na coleta convencional, não existe nenhum tipo de separação.

Coleta seletiva reduziu na cidade

Publicada em junho, a pesquisa divulgada pela organização Cempre (Compromisso Empresarial para Reciclagem) aponta uma redução no volume da coleta seletiva de Florianópolis no primeiro semestre deste ano. Segundo dados da pesquisa, a quantidade de reciclado recolhido pela Comcap caiu de 1.100 toneladas por mês para 971 toneladas. No mesmo período, o custo da coleta seletiva na cidade saltou de R$ 1.159,401 por tonelada para R$ 1.966,65. Realizada em 18 cidades onde existe coleta seletiva, a pesquisa também aponta redução no volume de reciclado em Brasília, Curitiba e Santos.

Para Maria Lair Marafiga, que atualmente comercializa na vizinhança os produtos orgânicos que não na horta nos fundos da casa, o que a Política Nacional de Resíduos Sólidos busca “é algo tão simples que não dá para entender como ainda não funciona”, como ela mesma diz. Aos 61 anos, empiricamente, ela e o marido cumprem com os principais objetivos propostos pelo plano, que podem ser resumidos em reduzir reutilizar e reciclar: “Vidro de conserva, aqui em casa, nunca vai fora, vai servir para fazermos outra conserva ou para eu colocar os temperos que faço para vender, o mesmo acontece com o saquinho plástico”, conta. “Não entendo como as pessoas são capazes de jogar o coador de papel com a borra de café e tudo no lixo, isso estraga o lixo, e a borra de café é riquíssima para as plantas”, exemplifica.

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*Veja mais detalhes sobre a reciclagem em "Ensinamentos da lata".

Mesmo prevendo multas e até mesmo enquadramento por crimes ambientais para quem descumprir a Política Nacional de Resíduos Sólidos, governantes, fabricantes, importadores, distribuidores, comerciantes, cidadãos e titulares de serviços de manejo dos resíduos urbanos ainda engatinham para que o país alcance de fato as metas estabelecidas.

"Na verdade, a Comcap coleta todo o material que é separado nas residências. Se isso representa 7% do total e esse número é pequeno, muito embora seja bastante elevado em nível nacional, é porque a mudança de comportamento das pessoas, necessária para a ampliação da coleta seletiva, até hoje não ocorreu”, justifica Marius Bagnatti, presidente da Comcap. A média nacional de reciclagem dos município é de 3%.

Cada tonelada de lixo que entra no aterro sanitário da Proactiva em Biguaçu custa R$ 150 aos cofres do município. Em 2015, só com o serviço de transporte e destino final foram empregados R$ 25 milhões. A Política Nacional de Resíduos Sólidos exige que os serviços de coleta, transporte, tratamento e destinação final tenham sustentabilidade financeira. O código tributário municipal, no artigo 315, da mesma forma, preconiza que os custos básicos anuais com os serviços de coleta sejam repassados ao contribuinte, no entanto os custos de transporte e aterramento até hoje não são cobrados de forma direta e são arcados pelo caixa comum do município. Florianópolis consegue arrecadar através das taxas apenas 30% do custo do lixo da cidade

Central do Itacorubi consegue processar apenas 50% da coleta seletiva - Bruno Ropelato
Sem capacidade para triar mais material, Central de Triagem Automatizada custaria R$ 11,5 milhões.- Bruno Ropelato


Central do Itacorubi só recicla 50%

Apenas 50% de todo o resíduo que Florianópolis recolhe através da coleta seletiva —971 toneladas por mês— são triados na cidade, no galpão da ACMR (Associação de Coletores de Materiais Recicláveis), no Itacorubi. Ali, trabalham diariamente 62 catadores regularmente cadastrados pelo município. A outra metade do material é levada para fora da cidade e distribuída entre associações de catadres da Grande Florianópolis, fator que tem contribuído para elevação do custo da coleta seletiva.

Para o presidente da ACMR, Moacir Rodrigues dos Santos, 40 anos, é preciso modernizar e ampliar o espaço para as centrais de triagem. “Hoje nós não damos conta de todo o material. Já se pensou em uma central de triagem automatizada, mas custa muito caro”, afirma Moacir.

Os equipamentos disponíveis no galpão são uma esteira e alguns compactadores fornecidos pelos compradores do material. Praticamente sem condições de investimentos, a associação depende da Comcap para promover as melhorias que precisa. A instalação de uma Central de Triagem Automatizada custaria R$ 11,5 milhões.

Se não bastasse, 22% do que chega a associação através da coleta seletiva vira rejeito e não pode ser reciclado. E isso acontece por vários motivos, desde a falta de uma coleta seletiva mais eficiente —como dia do vidro, do plástico, do orgânico, etc— até a contaminação dos produtos no descarte inadequado na fonte, como embalagens com restos de comida, por exemplo.