Domingo, 23 de Setembro de 2018
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Modelos alternativos como compostagem, reutilização de óleo e biogás provam eficiência

Revolução necessária

Modelos alternativos como compostagem, reutilização de óleo
e reciclagem de eletrônicos provam eficiência

Quando se fala em reaproveitamento do resíduo a primeira coisa que vem à cabeça de muitos é a reciclagem —transformar embalagens e produtos sem utilidade em insumos. Mas para que os aterros sanitários recebam somente rejeito —os cerca de 20% de lixo que produzimos e não pode ser reaproveitado— é preciso que se tenha também o manejo adequado do resíduo orgânico.

As metas do PNRS são de 43% de reciclagem para resíduos secos (da coleta seletiva) e 30% para resíduos orgânicos (que ainda não possui coleta específica na cidade).

Levantamentos apontam que cerca de 40% dos resíduos da coleta convencional de Florianópolis —mais de 85 mil toneladas ao ano— são compostos de matéria orgânica. Mas apenas 1% deste volume é desviado do aterro sanitário de Biguaçu, onde o município paga R$ 150 por tonelada. Sem coleta para os orgânicos, a cidade vive à mercê de iniciativas isoladas e do comprometimento individual de algumas pessoas.

É o que faz o casal Maria Lair Marafiga, 61, e José Oride Barros, 60, no bairro Ingleses. Depois de separar o reciclado e de mandar o que é orgânico para a horta, nos fundos de casa, o casal descarta quase nada de rejeito para o aterro sanitário de Biguaçu: “Eu pico o orgânico e coloco em grandes sacos de rafia. Misturo melaço e em um mês ele está pronto para ser usado como adubo”, conta José Oride, que atualmente complementa a renda da família com a comercialização de orgânicos livres de agrotóxicos no bairro.

Tecnologia social desvia 10 toneladas de orgânicos por mês na Chico Mendes

O controle da infestação de ratos e outros animais que se alimentavam nas lixeiras da Chico Mendes, na região continental de Florianópolis, só foi possível depois que a comunidade se propôs a refletir sobre o destino que estava dando aos restos de alimentos. Eis então que uma revolução se armou.

Em janeiro de 2009, com o apoio do Cepagro (Centro de Estudos e Promoção da Agricultura de Grupo), a Revolução dos Baldinhos se propôs a entrar nas casas das pessoas para falar da importância da separação dos resíduos orgânicos. Em 2013, o projeto foi premiado pela Fundação Banco do Brasil na categoria Tecnologias Social. O programa consiste no recolhimento de orgânicos nas casas do moradores, duas vezes por semana, e na compostagem do material com feno. O resultado é o adubo orgânico que enriquece as hortas da comunidade e é comercializado para a agricultura urbana —única remuneração do projeto. Neste ano de 2016, a Revolução dos Baldinhos deverá bater a marca de mil toneladas de resíduos processados através da compostagem.

Revolução dos Baldinhos envolve comunidade da Chico Mendes na produção de adubo orgânico - Marco Santiago
Revolução dos Baldinhos envolve comunidade da Chico Mendes na produção de adubo orgânico - Marco Santiago


“Atualmente o projeto consegue desviar 10 toneladas de orgânicos por mês do aterro sanitário. Já chegamos a compostar 20 toneladas, mas devido limitações de espaço não conseguimos avançar”, afirma o coordenador do eixo urbano do Cepagro, Marcos José de Abreu.

Além de promover a educação ambiental, gerar envolvimento comunitário e reduzir a proliferação de doenças, só com o desvio do orgânico gerado na comunidade para o aterro de Biguaçu o projeto promove uma economia de pelo menos R$ 150 mil aos cofres públicos. No entanto, a expansão da “Revolução dos Baldinhos” e a aplicação do projeto em outras partes da cidade ainda aguardam iniciativas do poder público.

Em 2017, Florianópolis deverá gerar 505 mil toneladas de resíduos que deverão custar R$ 76 milhões aos cofres públicos para serem levados ao aterro sanitário. Cerca de 40% do material será composto por matéria orgânica.

“A implantação desse projeto em outras regiões da cidade poderia desviar mais da metade de tudo que é encaminhado para o aterro e gerar não só economia, mas também desenvolvimento social. É um modelo descentralizado, que bate de frente com a lógica que temos hoje. Falta vontade política, ninguém quer fazer isso, mas é urgente”, aponta Abreu.

O modelo já serviu de inspiração para outras cidades do país. É o caso de São Paulo, onde os restos de feiras e podas de parques na Lapa são enviados para compostagem num projeto piloto da Prefeitura. Deve ser também o modelo a ser adotado nas novas centrais de tratamento de orgânicos a serem implantadas nos aterros desabilitados de São Matheus e Bandeirantes, também em São Paulo.

O volume de desvio promovido pela Revolução dos Baldinhos não são computados pela Companhia de Melhoramentos da Capital. Uma das lutas é que o município possa remunerar o programa por tonelada desviada do aterro, para que tão esperada ampliação do projeto para outras regiões da cidade possa sair do papel.

A cidade que mais recicla óleo de cozinha

Outra medida alternativa que vem dando certo em Florianópolis é o programa Reóleo, promovido pela Acif (Associação Comercial e Industrial de Florianópolis). Visando reduzir o impacto que o descarte do óleo de cozinha provoca no sistema de esgoto, conscientizando a população e promovendo o descarte adequado do óleo saturado, o programa já arrecadou três milhões de litros de óleo vegetal, transformando a capital catarinense na cidade que mais recicla óleo no mundo.

São quase 200 pontos de coleta espalhados por Florianópolis, São José, Palhoça, Biguaçu, Governador Celso Ramos, Antônio Carlos e Anitápolis. Após o recolhimento o óleo vai para a reciclagem onde é transformado em sabão em barra.

Criado em 1998, o programa também promove o Projeto de Educação Ambiental, desde 2002, por meio de palestras lúdicas e inovadoras para as crianças. Dentre os prêmios recebidos ao longo da sua história, o Programa Reóleo foi oficialmente reconhecido pela Câmara de Vereadores de Florianópolis, pela importância que representa para a cidade. Além disso, desenvolveu uma campanha que proporcionou à capital catarinense, por dois anos, o título mundial da cidade que mais coleta óleo de cozinha utilizado.

Podem aderir ao programa moradores individuais que desejam dar o destino adequado ao óleo ou estabelecimentos comerciais. O site da Acif traz mais informações sobre o projeto.

Aterro próximo do limite 

Santa Catarina foi o primeiro estado a erradicar completamente a prática dos lixões, após a mobilização do Ministério Público através da campanha “Lixo Nosso de Cada Dia”, lançada em 2001, cumprindo com uma das principais metas da PNRS. “O problema é que o Estado parou aí. Não é apenas acabar com os lixões, o aterro sanitário não é solução para 100% do lixo”, aponta a engenheira sanitarista Fernanda Vanhoni, funcionária da Proactiva, administradora do aterro sanitário de Biguaçu.

Em atividade desde 1990 em Biguaçu, na localidade conhecida como Estiva do Inferninho, o aterro sanitário da Proactiva atende 22 municípios catarinenses que encaminham todos os dias entre 800 e 1 mil toneladas de resíduos para o local. Próximo da chamada cota 90 —que representa 90 metros de altura dos 100 licenciados— a expectativa de vida útil do aterro é de no máximo mais dez anos, prazo que poderia ser alargado se os municípios cumprissem os percentuais estabelecidos para as coletas seletivas de resíduo seco e orgânico, ou encurtado se os padrões de consumo continuarem crescendo.

Cada tonelada de resíduo custa em média R$ 150 para a Prefeitura de Florianópolis, que é responsável pela metade do volume encaminhado para o aterro. Em 2015 o município empregou R$ 25 milhões com transporte e destino final do lixo, valor que poderia ser reduzido em até 80% se o município conseguisse ampliar o volume desviado do aterro. Atualmente, 76 funcionários trabalham na operação do aterro da Proactiva, em Biguaçu.

Florianópolis encaminha 93% de todo o resíduo da cidade para o aterro, apenas 7% são reciclados

Segundo a sanitarista, praticamente metade do que é aterrado é composto de matéria orgânica. “Para a Proactiva não é interessante aterrar material que não deveria estar aqui, mas o que vemos é que a Política Nacional dos Resíduos Sólidos não é cumprida. Se continuar assim, a região terá que ser impactada logo, logo com um novo aterro”, afirma. A ampliação da estrutura ao lado do atual aterro, no terreno da própria empresa, já está em fase de licenciamento.

Sanitarista Fernanda Vanhoni diz que aterro não é solução exclusiva para o lixo - Bruno Ropelato
Sanitarista Fernanda Vanhoni diz que aterro não é solução exclusiva para o lixo - Bruno Ropelato



Energia que vem do lixo

Chegar ao limite e ter o processo de aterramento concluído não significa o fim dos impactos ambientais na região de Biguaçu. Os efeitos do aterro sanitário poderão ser sentidos por décadas enquanto o material depositado for se decompondo nas sucessivas camadas e barro e lixo. Além do chorume, o aterro produz alta carga de gás metano, que chega a ser 25 vezes mais poluente que o gás carbônico.

A Proactiva canaliza tanto o chorume como o gás. Enquanto o primeiro é tratado e devolvido ao meio ambiente, ao ritmo de 20 m³ por hora, através de efluentes jogados no rio Inferninho; o segundo é queimado e comercializado na bolsa de valores como crédito de carbono. A empresa consegue promover a queima de 3.000 m³ de gás metano por hora, reduzindo a emissão na atmosfera.

Outra destinação para o gás metano liberado do aterrado é a geração de biogás. A empresa já tem projeto e pretende implantar em breve gasoduto para geração de energia para indústria cerâmica em Porto Belo. Serão R$ 33 milhões em investimentos para a instalação de 23,6 quilômetros de gasodutos.