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Canela-preta, peroba, sapopema, pau óleo e guarapari são algumas das árvores centenárias que resistiram a um processo de extração madeireira seletiva durante décadas em Florianópolis

As árvores centenárias da Ilha de Santa Catarina

Canela-preta, peroba, sapopema, pau óleo e guarapari são algumas das árvores centenárias que resistiram a um processo de extração madeireira seletiva durante décadas em Florianópolis

Reportagem: Michael Gonçalves
Edição: Beatriz Carrasco e Rodrigo Lima
Fotos e vídeos: Daniel Queiroz


Agrupadas em uma localidade do Parque Natural da Lagoa do Peri, no Sul da Ilha de Santa Catarina, em Florianópolis, os exemplares de canela-preta, peroba, sapopema, pau óleo e guarapari são algumas das árvores centenárias que resistiram a um processo de extração madeireira seletiva durante décadas. Os poucos indivíduos no fragmento de mata na unidade de conservação do município são remanescentes da floresta tropical primária que existia na região antes da colonização. João de Deus Medeiros, que é biólogo e professor da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), explica que a canela-preta representava até 70% dos exemplares de uma floresta e, desde 1992, a árvore entrou para a lista de ameaçadas de extinção. A estimativa é de que a maior canela-preta catalogada tenha mais de 400 anos, ou seja, ela está no mesmo local antes da fundação da capital catarinense, em 1673.

A canela-preta representava até 70% dos exemplares de uma floresta e, desde 1992, entrou para a lista de ameaçadas de extinção - Daniel Queiroz/ND
A canela-preta representava até 70% dos exemplares de uma floresta e, desde 1992, entrou para a lista de ameaçadas de extinção - Daniel Queiroz/ND


As árvores que chegam aos cem anos ou mais normalmente são da espécie climácica, que tem um alto valor econômico. São as conhecidas madeiras de lei. “Priorizamos o uso da madeira de boa qualidade e, assim, derrubamos as espécies de crescimento lento, com alta dificuldade de regeneração, de ciclo de vida longo, e isto foi desastroso. Com a mudança na lógica econômica, a mata começou a regenerar, mas o que temos é uma floresta secundária, onde não encontramos as árvores centenárias”, conta o biólogo.

Boa parte da floresta de mata atlântica da Ilha de Santa Catarina também foi dizimada para dar espaço para a roça de mandioca e da cana de açúcar. Isso resultou na morte e na dispersão de muitos animais, que tinham relação de dependência com estas espécies arbóreas, porque a concepção de floresta atual é a flora mais a fauna. Para o chefe do Depuc (Departamento das Unidades de Conservação) da Floram (Fundação Municipal do Meio Ambiente), Mauro Manoel da Costa, as nossas florestas estão praticamente vazias.

O pássaro macuco, o veado-mateiro e o papagaio-de-cara-roxa são alguns dos animais que desapareceram da mata no entorno da Lagoa do Peri. “Também encontramos a canela-preta em uma localidade no maciço do Norte da Ilha, mas muitas vezes a falta de disseminação não é um problema da árvore, mas da quebra do elo de interação ecológica. Parte das espécies climácicas não demonstra regeneração natural, porque são espécies muito exigentes, que dependem de uma interação com a fauna”, conta João de Deus.

Durante a expedição, o servidor operacional da Floram Estevão Fortunato identificou alguns palmiteiros caídos, provavelmente pela ação de cutias e de capivaras, além das fezes e rastros desses animais.

Saiba mais

Florestas

Primárias: São aquelas que não sofreram intervenção do homem, sem alterações em sua estrutura vegetal e na população animal. Não há mais remanescentes de florestas primárias na Ilha de Santa Catarina.

Secundárias: Sofreram alterações pela mão do homem, mas conseguiram se regenerar. Após o desmatamento para a utilização da agricultura ou pecuária e o consequente abandono, a vegetação volta a ocupar o seu espaço, mas com outras espécies de árvores.

Árvores

Pioneiras: Espécies com crescimento rápido, madeira de baixa qualidade e ciclo de vida curto. Suportam variações climáticas que são consideradas extremas para a maioria das espécies vegetais: calor ou frio intenso, solos pobríssimos em nutrientes e água, grandes variações de temperaturas e umidade do ar.

Climácicas: São as espécies que formam as florestas maduras, com crescimento lento, com porte longo, madeira de alta qualidade e ciclo de vida longo. Dependem da umidade no solo e também de uma ampla gama de nutrientes para que suas sementes germinem. São espécies exigentes que geralmente dependem da fauna para disseminar as suas sementes.

Perova ou peroba-vermelha, exemplo de climácica na Lagoa do Peri - Daniel Queiroz/ND
Perova ou peroba-vermelha, exemplo de climácica na Lagoa do Peri - Daniel Queiroz/ND

A idade das árvores

- O método científico que determina a idade de uma árvore com base nos anéis do tronco é chamado de dendrocronologia;

- A técnica foi inventada e desenvolvida pelo pesquisador da universidade do Arizona Andrew Ellicott Douglass;

- Um ano na idade das árvores não equivale a 12 meses, porque depende das condições climáticas;

- Se o clima é favorável durante a maior parte do tempo, o ano será mais longo. Se for ruim, com baixas temperaturas e poucas chuvas, o ano será menor;

- A idade das árvores é estimada pela quantidade de círculos escuros, que são chamados de anéis de crescimento;

- Os anéis são contados de dentro para fora e cada anel equivale a um ano de vida.

O método científico que determina a idade de uma árvore com base nos anéis do tronco é chamado de dendrocronologia - Daniel Queiroz/ND
O método científico que determina a idade de uma árvore com base nos anéis do tronco é chamado de dendrocronologia - Daniel Queiroz/ND


Canela-preta com mais de 400 anos ganha apelido de Dias Velho

Há mais de uma década, o chefe do Depuc da Floram, Mauro Manoel da Costa descobriu um fragmento de mata virgem no Parque Natural da Lagoa do Peri. Foi nesta oportunidade que conheceram uma canela-preta com mais de três metros de circunferência, mais de 20 metros de altura e mais de 400 anos de vida. E, por isso, o exemplar ganhou o apelido de Dias Velho, em homenagem ao fundador de Florianópolis, Francisco Dias Velho, em 1673. 

A árvore está a cerca de 300 metros acima do nível do mar. “Esta canela-preta é a de maior porte e de diâmetro já identificada. Em um hectare encontramos mais de 40 canelas adultas, característica de uma mata primária, porque se houve um desmatamento seletivo foi muito brando. Com mais de 400 anos de idade, colocamos o apelido da árvore de Dias Velho. Na época, nós procurávamos a caetê (mata virgem) da Ilha”, afirma o chefe do Depuc.

Uma das evidências da qualidade da floresta é observar as plantas epífitas que estão nos galhos. Nesta canela-preta, o técnico da Floram Aracidio de Freitas Barbosa Neto observa uma orquídea laélia purpurata, que é a flor símbolo do Estado. “Existe um ecossistema sobre esta árvore, com bromélias e orquídeas laélia purpurata, que indicam a qualidade florestal”, observa.

Canela-preta com mais de 400 anos de vida ganhou o apelido de Dias Velho - Daniel Queiroz/ND
Canela-preta com mais de 400 anos de vida ganhou o apelido de Dias Velho - Daniel Queiroz/ND


Mudança das espécies interfere na estabilidade climática

Para chegar às árvores centenárias no Parque Natural da Lagoa do Peri, o caminho apresenta uma serraria de pedra desativada há 50 anos. As madeiras utilizadas em seu eixo ainda resistem ao tempo devido à densidade da espécie. As clareiras abertas por esta serraria facilitaram o crescimento das árvores pioneiras, que se desenvolvem bem em plena luz, mas tem um ciclo de vida curto.

Isso resultou em uma recuperação florestal nas últimas cinco décadas, mas sem a qualidade do ecossistema original. De acordo com o biólogo João de Deus Medeiros, a estabilidade climática é prejudicada com o desaparecimento das árvores centenárias.

A mudança das espécies interfere na quantidade de carbono armazenado. “O clima é o resultado de uma floresta como um todo. A diferença é a estabilidade climática, porque as espécies climácicas, que são as centenárias, armazenam o carbono por séculos, coisas que as pioneiras não o fazem. Isso também prejudica a manutenção da diversidade da fauna, no processo de coevolução”, disse o biólogo.

Garapuvu, que tem vida curta, chegou aos cem anos

O tempo de vida de uma árvore pode estar relacionada a condição do local. Íngreme, com pouco vento, muito material orgânico e água corrente. Essas foram algumas das características apresentadas pelo chefe do Depuc da Floram, Mauro Manoel da Costa, em relação a um garapuvu, também com mais de um metro de diâmetro e três de circunferência.

A espécie é a árvore símbolo de Florianópolis. “Esse garapuvu está em uma estrutura e uma condição ótima e, por isso, chegou a este tamanho de 35 metros de altura. Apesar de ser uma árvore de ciclo de vida curto, ela tem mais de 100 anos, aproximadamente, por causa da sua localização. Toda árvore que nasce aqui permite o desenvolvimento máximo. As árvores têm desenvolvimento diferentes no meio urbano ou em florestas”, disse Mauro.

O biólogo João de Deus Medeiros observa que, mesmo em condição ideal, esse garapuvu já está na fase final do seu ciclo. 

Garapuvu é a árvore símbolo de Florianópolis - Daniel Queiroz/ND
Apesar de ser uma árvore de ciclo de vida curto, garapuvu na Lagoa do Peri tem mais de 100 anos - Daniel Queiroz/ND



Floresta sem diversidade é preocupante

A melhora na cobertura vegetal na Ilha de Santa Catarina não é motivo de comemoração para o biólogo João de Deus Medeiros, que questiona a qualidade da floresta atual. Formada por floresta tropical de mata atlântica, muito úmida e com regime de chuva intenso, a Ilha favorece o crescimento de árvores.

“Se você pegar uma foto de satélite das décadas de 40 e 50 é nítido o aumento na cobertura florestal, mas é uma floresta pobre do ponto de vista de diversidade florestal. Talvez o caso mais exemplar seja aquela área da Lagoa do Peri. É um dos melhores locais em termos de ecossistema florestal, mas que está distante de uma floresta climácica. Até sobraram alguns exemplares, que devem estar lá pela dificuldade de retirar do alto do morro”, comenta o biólogo.

Para João de Deus, a situação é muito preocupante no ponto de vista biológico. “Precisamos alertar as pessoas que não assumam a postura que tudo está maravilhoso, só porque está verde. É uma obrigação moral preservar o restante do que sobrou da mata atlântica. Ainda existem lideranças políticas atrasadas que defendem a liberação do corte de araucária, por exemplo, espécie que tem apenas 0,8% do remanescente natural em Santa Catarina”, observa.