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Domingo, 23 de Setembro de 2018
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Uma chácara no coração da cidade

Área de vários quarteirões pertenceu a um imigrante espanhol que chegou à Ilha na década de 1870

Paulo Clóvis Schmitz
Florianópolis

Três séculos e meio após os primeiros espanhóis terem aportado próximo à Ilha de Santa Catarina, na busca de uma rota para a Ásia pelo sul do continente americano, outro filho da terra de Cervantes desembarcou no Desterro. José Garrido Portella, nascido na Galícia, chegou por volta de 1870 e ajudou a fazer a história da cidade. Com talento para as atividades comerciais, ele fez fortuna e adquiriu uma porção de terra no Centro que ficou conhecida como Chácara do Espanha – que ainda hoje, mesmo com a explosão imobiliária, denomina os quarteirões que vão da esquina das ruas Santos Dumont com Lacerda Coutinho até a Durval Melquíades de Souza, tendo no lado aposto a rua Nereu Ramos e sua continuação, a Marechal Guilherme. No meio da área (que muitos chamam de Chácara de Espanha) ainda fica a rua Cel. Melo Alvim.

Eduardo Valente/ND
Prédios baixos resistem à verticalização da cidade

 

Por iniciativa do jornalista Jean Hermógenes Saibro, 41 anos, a trajetória do Espanha, como ficou conhecido Garrido Portella, vem sendo resgatada e pode, quem sabe, virar livro no futuro. Jean é bisneto do espanhol e se interessou pelo tema depois que sua mãe recuperou fotos que estavam em mãos de seus primos em Curitiba, para onde se transferiu um dos filhos do imigrante. Com titulação também em Direito, Saibro admite dificuldades para juntar dados sobre o antepassado, mas não desiste e segue pesquisando na internet, em jornais antigos e junto a parentes que moram em outras cidades e Estados.

O trabalho iniciado nos anos de 1990 inclui fotos, reportagens e até reproduções de textos de jornais em que, por exemplo, o escritor Virgílio Várzea (1863-1941) fala do “Hespanha”, louvando-lhe a simpatia, a elegância e o gosto pela música, como integrante da orquestra do maestro José Brasilício de Sousa (1854-1910), autor da música do Hino de Santa Catarina.

Para quem não tem referências claras sobre esta parte de Florianópolis, basta dizer que a área onde está hoje o colégio Lauro Müller, na rua Marechal Guilherme, era uma espécie de jardim e uma das entradas da chácara. O outro acesso, que dava no casarão da família, era pela atual Santos Dumont, atrás da Igreja do Rosário. O sobrado onde Garrido Portella viveu e criou os filhos, comprado em 1894, havia pertencido ao marechal Guilherme Xavier de Sousa, que lutou na guerra do Paraguai e foi tutor do poeta João da Cruz e Sousa quando este era jovem. “O solar era vistoso e tinha dois pavimentos, duas grandes salas e 14 quartos”, conta Jean Saibro. Naquela área, os remanescentes mais antigos são o colégio Lauro Müller (construído em 1911), a Igreja do Rosário e a 16ª Circunscrição de Serviço Militar, localizada na escadaria onde termina a rua Trajano.

Flávio Tin/ND
Marcos Mussi Luz viveu a época de chão batido e fogueiras na rua

 

Dono de charutaria, sem nunca ter fumado

Com base no que apurou até agora, Jean Saibro conta que o bisavô veio para o Brasil fugindo das guerras carlistas – divididas em três fases, entre 1833 e 1876 – no império espanhol. Até a segunda metade do século passado era comum as famílias europeias mandarem os filhos ao exterior para evitar que fossem chamados para combater em conflitos internos ou nas colônias. Jovem, José Garrido Portella era seminarista quando os pais decidiram deslocá-lo para a América do Sul. Aqui, músico e amante das artes, ele foi um dos fundadores da Sociedade Musical Filarmônica Comercial, que é de 1874 e continua ativa até hoje. A época era pródiga em saraus e festas familiares promovidas especialmente pelas famílias alemãs, numerosas e influentes na Ilha de Santa Catarina.

Espanha trabalhou como empregado na charutaria Triunfo, situada na atual rua Trajano (que no Império se chamava rua do Senado e foi batizada depois como rua da República). A casa fabricava os próprios charutos com matéria prima que vinha de fora do Estado e do país e era desembarcada no porto do Desterro pelos navios do Cia. Hoepcke. Depois, sem nunca ter fumado, ele tornou-se sócio do negócio, e com a morte precoce do proprietário – um português que não deixou herdeiros – assumiu o estabelecimento, que adotou o nome de Charutaria do Hespanha. A casa era a mais sofisticada do ramo na cidade e vendia também piteiras e outros produtos de charutaria e ingressos para os espetáculos no Theatro Santa Izabel, depois Álvaro de Carvalho.

José Garrido Portella morreu em 1930, aos 78 anos e após longa união com Paulina Krumenauer, com quem teve oito filhos, boa parte dos quais nunca se casou. Jean Saibro é neto de Euclydes Portella, que estudou medicina no Rio de Janeiro e que também foi músico. Por parte de pai, descende do português Bento Gonçalves de Saibro, que veio para Santa Catarina em 1748.

Flávio Tin/ND
ean Saibro é neto de Euclydes Portella

 

Gosto pela arte sempre seguiu a família

No material reunido por Jean Hermógenes Saibro aparecem fotos da família do bisavô, incluindo uma com todos os filhos e netos na chácara famosa. Entre eles estão Euclydes, avô do jornalista; Roberto Garrido Portella, engenheiro formado pela universidade Mackenzie e que foi um dos fundadores da ACE (Associação Catarinense dos Engenheiros); José Garrido Portella Filho, que foi delegado de polícia em Nova Trento e encerrou a carreira em Tijucas; Roberto Garrido Portella, o filho mais novo, que se mudou para Curitiba; e Paulina Portella, que foi a primeira mulher a se formar em odontologia em Santa Catarina, em 1919, pelo Instituto Politécnico de Florianópolis. Oradora, na ocasião, ela colou grau ao lado outra mulher, a colega de turma Judith Diniz, em formatura que teve como paraninfo o governador Hercílio Luz.

Outra imagem mostra a Chácara do Espanha a partir da praça Pereira Oliveira com a vista do antigo edifício da Assembleia Legislativa do Estado (exemplar de arquitetura colonial portuguesa já demolido, onde fica hoje o prédio do banco Safra), o colégio Lauro Müller (lugar onde Euclydes Garrido Portella também guardava os cavalos e as duas charretes da família) e a Igreja do Rosário. Numa terceira foto, Euclydes aparece no Tiro Alemão, clube que funcionou até as últimas décadas do século 20 na avenida Mauro Ramos, num treinamento com outros atiradores.

Respeitado na cidade, o patriarca dos Garrido Portella arriscou a pele ao esconder no casarão algumas figuras importantes da cidade, sobretudo intelectuais, que assim escaparam de ser fuzilados na ilha de Anhatomirim, em 1894, a mando do coronel Moreira Cesar, na tentativa de sufocar o levante federalista na Ilha. A queda da família pela música se perpetuou por meio de Euclydes Garrido Portella, que tocou na Sociedade Amor à Arte, fundada em 1897, e com o próprio Jean Saibro, que já foi instrumentista na mesma banda e também na Filarmônica Comercial. No levantamento de documentos, o funcionário público aproveitou dados de Neucélia Iuskow Jacoboski, que realizava uma pesquisa sobre sua família e topou com referências ao espanhol, e de Valna Portella, neta do patriarca que mora em Tijucas, onde reside parte dos descendentes do Espanha.

Arquivo Pessoal
Material reunido por Jean mostra família do bisavô na chácara famosa

 

“Tocava divinamente”, escreveu Virgílio Várzea

“É aloirado e gordo, e possue a agradabilidade das pessoas sympathicas”, escreveu sobre o Hespanha (era assim que grafava seu nome) o escritor Virgílio Várzea, autor de livros como “Mares e campos”, “Santa Catarina: a ilha” e “O brigue flibusteiro”. Em artigo publicado no jornal “O Despertador”, em 1884, Várzea fala da elegância, da distinção e do “espirito de creança” do amigo, que “traz sempre as mãos mergulhadas nos bolsos, como quem sente frio”. O escritor especula sobre a relação desse comportamento amistoso com o passado na terra natal: “Enfia, á noite, um barrete de lontra, como uma recordação saudosa, triste, de uma infancia feliz e calma, passada longe, junto daquelles que elle amava, na colossal vizinhança dos Pyrinèes”.

Moderno, Garrido Portella lia Spencer, Zola, Eça de Queiroz e Guerra Junqueiro, considerava “O primo Basílio” um monumento da literatura portuguesa e escutava Verdi e Mozart num tempo em que poucos faziam isso na Ilha. “Toca violoncello divinamente; e é por esse instrumento que elle sente uma dedicação, um affeiçoamento, uma intimidade profunda, de amigo”, escreveu Várzea no citado artigo. “A’s vezes, quando a nostalgia, a saudade da familia, dos seus, vem lhe fisgar o coração generoso e vasto, elle encontra, na sonoridade desse amigo inexcedivel o bem, um abrandamento, um alivio á sua dor”.

“Hespanha é um nome que elle conquistou, porque o publico vio nelle um digno representante da patria de Castellar e de Cervantes”, ressalta o artigo. Depois de citar outros atributos de Portella, Virgílio Várzea conclui dizendo: “eu, que tenho um devotamento enorme por tudo que é raro e extraordinario, sinto, dentro do peito, uma dedicação, um fanatismo profundo, pela sua personalidade distincta e superior”.

Rua de galinheiros, parreiras e carambolas

O administrador Marcos Mussi Luz, que mora e trabalha na Durval Melquíades de Souza, pegou o tempo em que os meninos da redondeza jogavam bola na via de chão batido, faziam fogueiras no mês de junho e chegavam a represar a água com madeira, em dias de chuva, para tomar banho no meio da rua. No outro lado da esquina, havia um terreno onde os garotos jogavam taco, e do início da rua desciam os carretões que faziam a alegria da criançada, 50 anos atrás. “Depois, colocaram paralelepípedos, e só nos anos 90 é que o asfalto chegou aqui”, conta. Ele conhece pouco da história do Espanha, mas viu a região crescer e perder para os prédios a tranquilidade dos velhos tempos.

A bela e antiga casa onde reside é do tempo de seu pai, Arnaldo Luz, que era comerciante e recebeu, em 1951, uma medalha e uma placa de honra ao mérito por ter salvado, com seu barco, dezenas de pessoas depois que um avião de pequeno porte caiu na baía Sul. As homenagens foram feitas por um programa da rádio Tupi, de São Paulo, com patrocínio da Standard Oil of Brazil. “Quando meu pai morreu, em 1987, quase só havia residências por aqui”, diz Marcos Luz, destacando os anos em que casas não tinham portão, os vizinhos se visitavam diariamente e os lotes ainda abrigavam galinheiro, parreiras e pés de jabuticaba e carambola. O consolo é que hoje, apesar da crescente insegurança, a Durval Melquíades de Souza é silenciosa quando anoitece e os meninos ainda encontram espaço para descer a rua de skate.

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