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Segunda-Feira, 19 de Novembro de 2018
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Um homem marcado pela ditadura

Traumas e torturas sofridas pelo ex-metalúrgico Genir Bertoldo nos anos 60, no interior gaúcho, foram narradas pela filha Luciana

Paulo Clóvis Schmitz
Florianópolis
Daniel Queiroz/ND
O ex-metalúrgico gaúcho vive desde 2007 em Florianópolis

 

 

Muitos foram os opositores do regime torturados durante os anos da ditadura, mas essa prática é normalmente associada a militantes urbanos, a jornalistas e intelectuais engajados, a proletários que atuavam no meio sindical. Presos e perseguidos no interior do Brasil não é algo comum, pelo menos para os não iniciados no assunto. Mas desde 2007 mora em Florianópolis um ex-metalúrgico que pagou caro por ter lutado pela igualdade e combatido as injustiças em Ijuí, cidade gaúcha que tinha pouco mais de 40 mil habitantes na segunda metade dos anos 60, quando ser comunista era um crime punido com cadeia, humilhação e tortura psicológica.

A história de Genir José Bertoldo vem à tona agora, com o livro “Baioneta calada – Vidas marcadas pela ditadura militar”, que a filha Luciana Bertoldo, advogada na Capital, publicou pela editora carioca Livre Expressão. A obra, à venda na livraria Nobel do Floripa Shopping, é um documento tocante, feito a partir de reminiscências e de depoimentos arrancados a muito custo da vítima, um homem de 72 anos que ainda tem insônia e pesadelos terríveis por conta dos traumas deixados pelas noites na prisão, pelas ameaças, pela intolerância e pelo preconceito que traumatizou toda a família.

Neusa Helena, a mulher de Genir Bertoldo, estava grávida de Luciana, em 1966, quando ele foi denunciado por desafetos na cidade gaúcha. Ela já tinha um filho pequeno e sofreu tanto quanto o marido o efeito de vários anos de prisões constantes, inquéritos e dificuldades financeiras, porque a perda do emprego foi o primeiro impacto da ação movida contra ele. No livro, ela é apresentada como a fiel companheira do operário que nunca delatou os companheiros, que tinha um programa de rádio com cunho social e que chegou a ser discriminado pelos parentes a partir do processo militar. Neusa morreu de câncer em 2004, “resultado de suas mágoas, de seus sofrimentos, de suas tristezas engolidas ao som das cornetas e rufar dos tambores”, escreveu a filha.

 

Humilhação pública

Sem citar pessoas e empresas, Luciana Bertoldo fala da denúncia contra o pai, dos interrogatórios e da condenação, em 1969. Ele nem teve direito a advogado – sua “defesa” foi feita por uma junta de militares. Todos os livros que tinha em casa foram queimados, assim como os documentos do movimento que coordenava em Ijuí. A casa passou a ser permanentemente vigiada, como se ali pudessem se reunir militantes de esquerda interessados em derrubar o regime. Genir era tirado do ambiente de trabalho para depor aos gritos, e levado algemado para os interrogatórios, numa humilhação pública da qual nunca se recuperou.

Mesmo sendo uma cidade pequena (hoje ela conta com menos de 90 mil habitantes), Ijuí tinha faculdade, cooperativas agrícolas fortes e uma população politizada. Isso, contudo, não impediu que a maioria visse Genir Bertoldo como um homem perigoso, subversivo, cuja amizade era necessário evitar. A filha Luciana conta que nunca era convidada para as festas dos colegas de escola por ser “filha de comunista”. Para sobreviver, ele teve que trabalhar como pintor de paredes, e vendeu roupas e móveis da casa para garantir o estudo dos filhos.

 

“Queria melhorar o mundo”

A principal prova contra Genir foi um folheto de reivindicações que os donos da empresa, ligados à extinta UDN (União Democrática Nacional), consideraram uma incitação à desordem. Como ele tinha, pelas leis trabalhistas da época, direito a uma indenização elevada, pois já estava há 14 anos na firma, precisava ser afastado por outras razões. E o processo militar foi a justa causa encontrada para tirá-lo do emprego. Apesar da caça às bruxas que se estabeleceu, ele foi o único preso por questões políticas na região. Um padre franciscano que realizava trabalhos sociais também foi acusado, mas saiu da cidade e nunca mais se soube do paradeiro dele.

“Não sofri muitas torturas físicas, mas o medo, a fome e as noites sem dormir tiveram consequências psicológicas sérias”, diz Genir. “Eram invasões da cela com baioneta na madrugada, tiros na janela e baldes de água fria jogada na cara. Mais tarde, tive um problema de paralisia facial por causa disso. Tomo remédios para dormir até hoje e não posso viajar à noite, por conta dos pesadelos”.

Apesar disso, ele afirma que faria tudo de novo. “Quem não gosta de liberdade?”, pergunta. “Fiz o que fiz para tentar melhorar o mundo. Pensei nos outros e fui traído por eles”.

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