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Trânsito e crise financeira são fatores que aumentam a demanda pelo SUS em Santa Catarina

O alto fluxo de acidentados e a redução dos assegurados em planos de saúde privados são fatores determinantes para sobrecarregar os hospitais

Daniel Cardoso, especial para o Notícias do Dia
Florianópolis
15/11/2017 às 16H32

Sabe aqueles acidentes de trânsito que causam filas intermináveis nas estradas e cidades? Pois o que pouca gente nota é que os efeitos são muito mais nocivos do que aparentam. Além do caos urbano, o crescimento exponencial dos acidentes tornou-se um dos principais gargalos na Saúde e com impacto direto no atendimento que você recebe em qualquer hospital. Para ter noção do problema, basta analisar uma estatística do Hospital Governador Celso Ramos. Segundo o Sindicato dos Médicos do Estado de Santa Catarina (Simesc), cerca de 50% dos atendimentos no pronto socorro são de pacientes que sofreram algum tipo de trauma. Desse total, 80% são de motociclistas. Um número alarmante e que altera o dia a dia de qualquer hospital.

Cerca de 50% dos atendimentos feitos no pronto-socorro do Celso Ramos são de acidentados - Flávio Tin/Arquivo/ND
Cerca de 50% dos atendimentos feitos no pronto-socorro do Celso Ramos são de acidentados - Flávio Tin/Arquivo/ND



Quando um acidentado chega ao pronto socorro, ele recebe atendimento prioritário e, em muitos casos, ocupa um leito ou uma sala reservado para outro paciente. “O alto fluxo de acidentados obriga os hospitais a cancelarem muitas cirurgias eletivas para dar prioridade às pessoas feridas no trânsito. Já é difícil encontrar vaga para agendar uma cirurgia, com os cancelamentos sucessivos, fica ainda pior para a população”, ressalta Vânio Cardoso Lisboa, presidente do Simesc.

O trânsito violento causa diversos transtornos no sistema de Saúde, mas há outros problemas sociais que trazem efeitos negativos e incham a demanda pelo SUS. Um deles é a própria crise financeira, que atingiu o Brasil a partir de 2014. Sem emprego e com as contas apertadas, muitos brasileiros optaram em cancelar o plano de saúde particular. Em menos de dois anos, Santa Catarina viu 25 mil pessoas deixarem a saúde suplementar para utilizarem apenas o SUS.

“Com mais pessoas buscando o sistema público, mais sobrecarregado ele fica. A tendência é a piora no atendimento. Ainda mais com o pouco investimento que o Brasil faz em Saúde”, alerta Lisboa.

Planos de saúde populares podem aliviar o SUS

Uma das esperanças para aliviar o SUS é a chegada dos planos de saúde populares. São aqueles planos mais baratos e que alcançam pessoas sem condições de pagar por alternativas mais completas e caras. O ministro da Saúde, Ricardo Barros, declarou em setembro que a ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar) deve finalizar em breve a análise sobre o tema. Se tudo correr dentro do previsto, a expectativa é que a venda dos planos populares comece ainda neste ano.

Segundo Barros, o aumento da cobertura da população com a saúde privada tende a reduzir a procura dos serviços do SUS, aliviando os hospitais e aumentando a qualidade no serviço prestado. “Esta responsabilidade de financiamento da saúde precisa ser dividida. Já é hoje 55% do investimento em saúde do setor privado e 45% do setor público”, declarou o ministro à época do lançamento.

 

“A crise é resultado de uma conquista de inclusão social”

Muitos analistas acreditam que encontrar uma solução para o Sistema Único de Saúde (SUS) é uma missão muito difícil. Para alguns, é praticamente impossível. É o caso do professor Oswaldo Yoshimi Tanaka, do Departamento de Prática de Saúde Pública da FSP/USP.

Tanaka enxerga a crise na Saúde de maneira peculiar. Enquanto muitos dos analistas afirmam que faltam apenas recursos e aprimoramento da gestão, Tanaka ressalta que os problemas são estruturais e dependem da mudança de fatores sociais.

Tanaka acredita que a crise atual é na verdade uma crise permanente e fruto de uma conquista social. Ele lembra que antes do SUS milhões de brasileiros dependiam apenas da filantropia para receber algum tipo de atendimento.

Com a Constituição de 1988, 90 milhões de brasileiros foram incluídos no sistema público do dia para a noite. Segundo Tanaka, foi a maior inclusão social desde a redemocratização. Um movimento revolucionário, mas que cobra seu preço alto.

“A crise não é para ser resolvida, é para ser enfrentada. A crise é fruto de uma conquista social, da garantia do direito à saúde a todo o cidadão. Vamos ter que nos acostumar com ela”.

Acompanhe abaixo a entrevista com o professor.

Por que temos a sensação de vivermos uma crise permanente na Saúde?

Entender a crise no SUS exige que a gente olhe para o passado, para a história da saúde pública no Brasil. Até 1988, o sistema era basicamente dividido em duas partes. Uma era o INAMPS, que atendia os trabalhadores formais, ou seja, os que tinham carteira assinada. A outra parte era formada pela filantropia, como os hospitais filantrópicos. Essa parte atendia todo o restante da população sem condições financeiras para acessar os serviços particulares.

Em 1988, porém, tivemos um marco com a Constituição. Uma constituição republicana e democrática. Ela trouxe a noção de direito às pessoas e um dos direitos de todos era o aceso à Saúde. A Saúde virou um direito de todos e um dever do Estado. Na minha análise, esse marco inseriu 90 milhões de pessoas dentro do sistema de saúde. Do dia para a noite, 90 milhões de brasileiros foram incluídos no sistema.

Em algum momento dessa história, o atendimento do SUS foi considerado bom pela população?

A ideia inicial do SUS sempre foi que o sistema fosse capilarizado. Para conseguir isso, o país optou em colocar a assistência básica sob responsabilidade dos municípios. Foi algo muito bom e positivo. Mas havia uma questão séria.

Antes de 1964, o país tinha cerca de 2 mil municípios. Na época da consolidação do SUS, já eram mais de 5 mil. Isso significa que 3 mil municípios foram criados em menos de três décadas. Muitos deles sem qualquer condição de emancipação.

Na minha leitura, municipalizar a saúde foi necessário para capilarizar do sistema, só que muitas prefeituras não tinham condições nem experiência nessa área.

Quais outros problemas dificultam a melhoria da qualidade no atendimento?

O SUS permitiu democratizar o acesso à Saúde de maneira rápida, mesmo que o país não estivesse preparado. Foi a melhor estratégia possível naquele momento. A situação de hoje é reflexo do sucesso do passado, da inclusão das pessoas.

Precisamos considerar também que o gasto com a saúde pública é considerado baixo. Gastamos 400 dólares por habitante a cada ano. É pouco. Gastamos apenas 4% do PIB com Saúde.

Temos ainda um problema de disputa e de falta de harmonização política. A Saúde sofre com disputas políticas e partidárias pelo Brasil inteiro.

A judicialização realmente virou um problema. Porém, ressalto que é fruto da maior consciência do brasileiro de seus direitos. O brasileiro recorre hoje ao judiciário com mais frequência, e o judiciário responde com bastante agilidade. É um avanço na democracia.

E como podemos resolver a crise?

Essa crise que está aí não é para ser resolvida. É para ser enfrentada. É crise de crescimento. Crescemos em direito e ao colocar no Executivo um papel mais expressivo. No entanto, não fomos capazes de separar interesses políticos e partidários.

Essa crise vai continuar sendo o normal para os próximos anos. Temos que parar de achar que a crise é resolvível, que é simples. Ela veio para ficar. É uma questão de estruturação social de direitos e deveres e que enfrenta desafios políticos sérios. Não somos uma democracia de verdade. Estamos num sistema sem ética e uma disputa partidária sem diálogo e onde só há radicalismo.

O senhor já afirmou que o problema na Saúde tem de alguma forma raiz na nossa estrutura social. Como o senhor explica essa questão?

Essa crise não é para resolver. Nossa visão é ingênua em relação a isso. Para resolver, teríamos que voltar no tempo. Na minha leitura, parte da crise é resultado da desigualdade social. Com a crise econômica atual, ficou exposto que nós continuamos tão desiguais como antes. Não é uma sociedade para valer e temos uma elite econômica gananciosa.

Temos ainda o agravante corporativo. A grande indústria de medicamentos e equipamentos de saúde já vendeu para a população a ideia de que se pode resolver os problemas com remédios e de forma ‘milagrosa’ com cirurgias. Na prática, isso significa que as pessoas estão muito menos propensas na prevenção, pois acreditam que é mais fácil resolver o problema do que preveni-lo. São valores não só do Brasil, mas estão no mundo inteiro.

O desenvolvimento da medicina também compromete a qualidade no SUS?

Sim, precisamos considerar também as mudanças na medicina e da própria sociedade. A medicina é a única área em que as novas tecnologias não substituem as antigas. Antes, o médico pedia apenas o raio X para o paciente. Hoje, esse mesmo paciente faz o raio X, um ultrassom e uma ressonância. Perceba que as tecnologias se somaram. Isso de certa forma pesa no custo da saúde.

Outro fator importante é o envelhecimento da população. Vivemos hoje 18 anos a mais do que no passado. É muito tempo. É um avanço. Mas o aumento da população idosa também significa desafios para o sistema de saúde.

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