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Sindicalista e dono de rede de lojas têm percepções diferentes sobre a reforma trabalhista

Juruna, da Força Sindical, e Flávio Rocha, da Riachuelo, apresentam pontos de vista para as mudanças já em vigor

Joana Cunha
Folhapress
15/11/2017 às 10H48

A reforma trabalhista está longe de ser uma unanimidade. Assim que entrou em vigor, Flavio Rocha, dono da Riachuelo, disse que pretendia colocá-la em prática na empresa. Do outro lado, João Carlos Gonçalves, o Juruna, secretário-geral da Força Sindical, assegura que, ao desobrigar o pagamento do imposto sindical, que hoje é descontado em folha e equivale a um dia de trabalho, a reforma enfraqueceu os sindicatos. A seguir, o ponto de vista de ambos, em entrevistas.

Entrevista com Flavio Rocha, dono da Riachuelo

“Estamos do lado da lei e vamos colocá-la em prática imediatamente”

Os negócios de Flavio Rocha, dono da Riachuelo, abrangem desde a indústria têxtil até o varejo, que é onde estão as principais vantagens das novas regras. “Quando você tenta gerir uma rede de varejo dentro da rigidez [da lei anterior], você fica com muita gente ociosa na segunda-feira, na terça, na quarta. Mas fica com um serviço deficiente na sexta, no sábado e no domingo”, afirma.

Flavio Rocha, da Riachuelo - Eduardo Knapp/Folhapress/ND
Flavio Rocha, da Riachuelo - Eduardo Knapp/Folhapress/ND



Os opositores da reforma afirmam que pontos como terceirização e trabalho intermitente vão fragilizar o trabalhador. O que o sr. pensa?

Os trabalhadores não se mobilizaram nesse sentido. A burocracia trabalhista está isolada falando só em causa própria. Essa causa não é a proposta dos trabalhadores.

Os críticos também dizem que as novas regras vão pressionar para baixar os salários e, com isso, desencadear uma redução no consumo.

Quem paga o preço dessa irracionalidade e burocracia é o consumidor, por meio de preços e desemprego. É ela que gera menos demanda por mão de obra. Estamos aprendendo que o único caminho para conquistas é a prosperidade.

A prevalência do negociado sobre o legislado é outro ponto polêmico das mudanças. O que o sr. espera?

O bom sindicalismo vai se fortalecer.

Eles já estão conseguindo assinar cláusulas de salvaguarda nas convenções anteriores à entrada em vigor da reforma. Isso preocupa o empresariado?

Eu acho que isso é desobediência civil. Quem quiser legislar tem que se candidatar a deputado ou senador. É sobreposição de Poderes. A lei está aí e esperamos que ela seja cumprida.

Como a sua empresa, que está em todos os elos da cadeia de moda, pretende aproveitar a reforma?

O anacronismo da lei trabalhista era mais perceptível no setor de serviços, que se transformou no grande empregador nas últimas décadas. Estávamos vivendo a era Getúlio Vargas em termos de legislação. Naquela época, a única expectativa de emprego formal era na indústria, com toda a sua rigidez e horários fixos. Hoje, a indústria representa menos de 9% dos empregos. Os serviços, que têm uma característica completamente diferente, respondem por 75%. Serviços têm que ser prestados na hora em que o cliente quer, nos fins de semana. Por isso a jornada flexível e o trabalho intermitente são imprescindíveis.

Quando vamos ver os efeitos na prática? No Natal? Ou nas próximas semanas já veremos algum efeito?

Existe um esforço de ameaça e intimidação. Mas nós já vamos colocar em prática. Porque nós estamos ao lado da lei. Quando você tenta gerir uma rede de varejo dentro da rigidez, você fica com muita gente ociosa na segunda-feira na terça, na quarta. Mas fica com um serviço deficiente na sexta no sábado e no domingo.

 

Entrevista com João Carlos Gonçalves, o Juruna, líder sindical

“Negociação do trabalhador por seus direitos ficou enfraquecida”

Secretário-geral da Força Sindical, João Carlos Gonçalves, o Juruna, lamenta que os sindicatos não tenham conseguido barrar a votação da reforma, mas diz que a instituição está fortalecida para combater aspectos da nova lei por meio das convenções e acordos coletivos. “Agora vai crescer o papel das entidades sindicais para negociações nacionais”, afirma.

Juruna, da Força - Eduardo Knapp/Folhapress/ND
Juruna, da Força - Eduardo Knapp/Folhapress/ND



A reforma chegou. Qual é a avaliação agora?

Não tivermos força para barrar dentro do Congresso. As entidades sindicais se mobilizaram, mas a nossa representação no Congresso é menor que a dos setores empresariais. Isso também é um aprendizado para nos mostrar o quanto necessitamos investir em quadros que estejam também representando a classe lá. Por outro lado, ao mesmo tempo em que era aprovada a lei, os sindicatos entravam em campanha salarial. A maioria das categorias está conseguindo assinar convenções coletivas que brecam pontos dessa lei.

Quais pontos o sr. considera mais negativos?

A reforma enfraqueceu a instituição sindical. Enfraqueceu o instrumento dos trabalhadores para negociar os seus direitos ao cortar o financiamento sindical.

A retirada do financiamento enfraquece os sindicatos, mas a prevalência do negociado sobre o legislado pode fortalecê-los?

A lei tem esse lado positivo de acabar com aquele controle que a Justiça tinha sobre os movimentos sociais. Agora vai crescer o papel das entidades sindicais para negociações nacionais. Acaba aquela tutela de ir à Justiça. A questão agora é o enfrentamento. Se você tem força, você ganha. Se não tem, não ganha. Na Justiça do Trabalho, os processos aconteciam mais por questões individuais do que coletivas.

Como vão ficar os sindicatos menores?

As federações e confederações terão papel de coordenar as negociações coletivas. Não tem mais essa questão do sindicato mais forte ou mais fraco. Ele faz parte da estrutura sindical que lhe dá garantia como coordenadora do processo de negociação coletiva do país. Por exemplo, se o sindicato de Catalão [Estado de Goiás] fez greve, foi assistido pela confederação nacional dos metalúrgicos.

Quais são as alternativas para esse fim do financiamento que a reforma está trazendo?

Estamos trabalhando com o Congresso Nacional para que seja aprovada uma contribuição no período de negociação coletiva. No momento em que você faz assembleia para tirar as propostas de negociação, você também decide um valor de contribuição ao sindicato. Nessa proposta, todos ajudariam a campanha salarial porque todos são beneficiados, tanto os sócios quanto os não sócios. E o valor seria decidido por eles em assembleia.

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