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Santa Catarina sobrevive ao colapso da saúde; "houve uma explosão de custos", diz Colombo

Desde 2015 o SUS catarinense enfrenta um dos seus piores momentos; confira a primeira reportagem da série Diagnóstico da Saúde

Daniel Cardoso, especial para o Notícias do Dia
Florianópolis
12/11/2017 às 16H48

Em busca de respostas para as razões da crise que se agravou especialmente neste ano, o Notícias do Dia e a RICTV mergulharam no problema e o resultado é a série de reportagens “Diagnóstico da Saúde”, que leitores e telespectadores poderão acompanhar durante esta semana. Ao final, o objetivo é apontar caminhos para melhorar o atendimento nos hospitais e a gestão da saúde no Estado 

O sistema público de saúde sempre enfrentou crises e desafios para atender à população, mas a diferença nos últimos anos é que os problemas se acumularam e ganharam contornos dramáticos. Em linhas gerais, pode-se dizer que a crise é resultado do enfraquecimento da economia do país, mas também há fatores estruturais que dificultam a situação.  “O pior momento da tempestade já passou”. É assim que Marcelo Lemos dos Reis, superintendente dos Hospitais Públicos Estaduais, resume a situação atual do sistema de saúde em Santa Catarina.

Macas nos corredores, emergência lotadas, equipamentos quebrados, falta de pessoal e até de medicamentos fazem    parte do drama diário nos hospitais que atendem pelo SUS - Brunela Maria/ND
Macas nos corredores, emergência lotadas, equipamentos quebrados, falta de pessoal e até de medicamentos fazem parte do drama diário nos hospitais que atendem pelo SUS - Brunela Maria/ND


Desde 2015, o SUS catarinense enfrenta um de seus piores momentos e a população assiste à piora do atendimento público. Em pouco tempo, notícias ruins se proliferaram e reclamações brotaram de todos os lados. Os funcionários da emergência do Hospital Governador Celso Ramos, por exemplo, chegaram a paralisar as atividades, o Hospital Joana de Gusmão suspendeu as cirurgias eletivas por falta de verba e pacientes ostomizados, que precisam de bolsas coletoras para fezes e urina, tiveram o fornecimento do material suspenso. São apenas alguns exemplos de uma sucessão de problemas que se acumularam nos últimos anos. Mas afinal, qual o motivo da crise? De acordo com Reis, a situação em Santa Catarina não é isolada e precisa ser avaliada dentro de um contexto maior.

“Acima de tudo, essa crise é uma crise econômica. É resultado da crise que abalou a economia de todo o Brasil. Santa Catarina faz de tudo para não sofrer, mas também sentimos os efeitos dos problemas financeiros”, afirmou Reis. A situação fiscal se agravou em 2017. Para este ano, a expectativa é que a Saúde receba do governo estadual cerca de R$ 500 milhões a menos, em comparação com o ano passado. Com menos dinheiro em caixa ficou difícil manter os investimentos na Saúde. Cortes precisaram ser realizados e os gestores encontraram dificuldades até mesmo de honrar compromissos já assumidos. 

O tamanho da crise pode ser expresso em uma única cifra: R$ 508 milhões. O que é isso? É o montante da dívida acumulada nas contas da Secretaria do Estado da Saúde de Santa Catarina (SES/SC). Desse total, R$ 270 milhões são referentes às despesas com municípios e outros R$ 140 milhões envolvem contratos de gestão com organizações sociais. Entre os credores, também estão fornecedores de insumos.  Na prática, no dia a dia dos pacientes, a dívida ganha ares de tragédia. Faltam medicamentos e produtos nos hospitais, aumentou o tempo de espera nas filas, precarização da infraestrutura e cancelamento de cirurgias, além de vários outros problemas. 

Reis, porém, mostra-se otimista. Segundo ele, apesar de todos os problemas encarados recentemente, nenhum catarinense ficou desassistido. O superintendente também acredita que o pior da crise passou e os ajustes nas contas governamentais vão, em breve, refletir positivamente na Saúde. “Já percebemos uma melhora na receita nos últimos meses. Com certeza, essa recuperação vai ajudar também nas contas da Saúde e, em consequência, no atendimento à população. O pior passou”, afirma.

Entrevista: Raimundo Colombo, governador de Santa Catarina

“Houve uma explosão de custos”

Como o senhor enxerga a raiz do problema da Saúde em Santa Catarina?
Houve uma explosão de custos e o problema da saúde hoje é financeiro. Nós evoluímos na tecnologia, nós evoluímos no tratamento, nós estamos vivendo mais, estamos vivendo melhor, mas nós não cuidamos da parte financeira. Então, para isso, há um problema de gestão, há um problema de onde você vai tirar mais recursos para fazer frente a essas despesas que continuarão subindo muito acima da inflação por que é ganho de tecnologia.

A dívida da Saúde ultrapassa os R$ 500 milhões ...
Estamos fechando a folha e fechando o 13º. Regularizado esse compromisso básico, queremos aumentar o repasse para a Saúde no valor máximo que nós tivermos. Nossa expectativa é que fique ainda um passivo em torno de R$ 150 a R$ 180 milhões.

A legislação é muito amarrada e acaba burocratizando muito todo o sistema da Saúde?
Um dos grandes problemas que a gente tem, no caso de Santa Catarina, é que o ‘extra teto’, onde você dá um teto para o hospital de, por exemplo, 50 cirurgias, aí o hospital precisa fazer 70 ele vai lá e faz. Ele não vai deixar as pessoas sem atendimento e esperando. Esse ‘extra teto’ não é reconhecido pelo governo federal. Nós temos aí mais de R$ 1 bilhão e o Estado aporta o recurso que não estava programado, mas Saúde, não tem como ter teto. Se a pessoa está doente não é um número que vai impedir, aí arrebenta com aquilo que é orçado.

Colombo prevê assinatura de contratos para outubro - Marco Santiago/ND
"Existem problemas estruturais do Estado que são difíceis de serem corrigidos", diz Colombo - Marco Santiago/ND



Existe essa conversa com o governo federal para tentar melhorar a questão do repasse e cobrar isso também?
O momento está difícil de aportar um valor maior e a gente não está conseguindo ter êxito nisso. Há boa vontade, há sensibilidade, mas faltam recursos e a gente volta quase sempre de mãos vazias. Até para ser justo, eles fizeram alguns credenciamentos que o Estado estava pagando de serviços que, em três anos, eles vão assumir 100%. Nós ampliamos muito o trabalho de oncologia e o governo federal não estava pagando porque não estava credenciado e agora passou a credenciar. Trabalho de UTI nós ampliamos bastante o número de leitos, mas não estavam credenciados e nós estávamos pagando do nosso e a dívida aumenta.

Como espera que seja o desdobrar dessa crise?
A crise financeira da Saúde foi mais forte do que nós esperávamos e ela nos surpreendeu pelo volume porque a arrecadação caiu e a despesa subiu muito. Acho que existem problemas estruturais do Estado que são difíceis de serem corrigidos. Um trabalho que você desenvolve 24 horas por dia, durante os 365 dias do ano, a jornada de trabalho ser de 30 horas, ela inviabilizou o Estado e criou um impacto financeiro muito elevado. Eu acho que é injusto. A maioria das pessoas trabalha 40 horas, todo mundo cumpre uma jornada e na Saúde tudo mundo trabalha 8 horas e os funcionários do governo do Estado trabalham só 6 horas. Isso aumentou muito nossos custos e desequilibrou os valores, mas é uma lei e eu não pude mudar essa lei porque não havia ambiente para isso.

O senhor é otimista para 2018?
Eu acho que vai ser melhor. O pior da crise já passou, a crise econômica também está cedendo, a arrecadação está aumentando e como você tem um percentual de, por exemplo, 14% para o ano que vem sobre uma receita maior, nós teremos muito mais dinheiro para a saúde. 

Diagnóstico da saúde - Divulgação/ND



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