Publicidade
Quinta-Feira, 14 de Dezembro de 2017
Descrição do tempo
  • 28º C
  • 21º C

Ressaca deixa rastro de destruição e muda a geografia da Ilha de Santa Catarina

Em cinco meses, dois decretos de emergência foram emitidos pela Prefeitura de Florianópolis; expectativa é tentar recuperar os balneários turísticos até a temporada de verão

Michael Gonçalves
Florianópolis
26/09/2017 às 12H22

 Fenômeno da natureza provocado pela elevação do mar e com ondas acima da média sobre a costa, a ressaca marítima muda constantemente a geografia e a paisagem da Ilha de Santa Catarina. De maio a setembro deste ano, o evento tem se repetido com mais intensidade e deixou um rastro de destruição em cinco praias de Florianópolis: Canasvieiras, Ingleses, Brava, Caldeirão do Morro das Pedras e Matadeiro. Dezenas de postes caíram, acessos às praias desapareceram e 68 imóveis foram atingidos com a erosão provocada pela força do mar. A faixa de areia também sumiu em alguns pontos. A prefeitura, que emitiu dois decretos de emergência em cinco meses, busca recursos federais para recuperar os balneários turísticos até a temporada de verão.

A ressaca é provocada pela junção das marés astronômica e meteorológica, além da incidência das ondas geradas pelos ventos - Flávio Tin/ND
A ressaca é provocada pela junção das marés astronômica e meteorológica, além da incidência das ondas geradas pelos ventos - Flávio Tin/ND



Para o oceanógrafo João Luiz Baptista de Carvalho, que é professor, pesquisador e diretor do CTTMar (Centro de Ciências Tecnológicas da Terra e do Mar) da Univali (Universidade do Vale do Itajaí), o fenômeno é provocado pela junção das marés astronômica e meteorológica, além da incidência das ondas geradas pelos ventos. “As ressacas são fenômenos frequentes, mas o problema é que elas estão cada vez mais extremas. As construções próximas à faixa de areia aumentam o risco de erosão e retardam a recuperação natural. Em locais sem a intervenção do homem, a região tende a se recuperar rapidamente”, disse.

A meteorologista Laura Rodrigues, da Epagri/Ciram, lembra que fatores atmosféricos como a ocorrência de frentes frias e de ciclones extratropicais também provocam ressacas com maior intensidade e duração. O oceanógrafo Carlos Eduardo Salles de Araújo, da Epagri/Ciram, explica que a severidade do evento depende de fatores como a declividade e a orientação do relevo (topografia e batimetria), a intensidade e duração dos ventos, o tamanho da tempestade no mar e a sincronia com as marés astronômicas. “As dunas ou as áreas de restinga pertencem às praias e são responsáveis pela preservação natural do sistema. Quando a onda carrega essa areia é formada uma plataforma interna sob o mar, que no verão é levada de volta à praia. Com as construções sobre essas localidades, o mar não consegue devolver essa areia”, esclareceu Araújo. Em condição normal, o vento sul empilha a água na costa e o nordeste retira.


Últimos decretos motivados por ressacas nos últimos 10 anos

Data                      Praias

13/05/10                Armação

16/07/10                Campeche e Barra da Lagoa

30/05/17                Canasvieiras e Ingleses

13/07/17                Canasvieiras, Ingleses, Brava, Caldeirão e Matadeiro

Fonte: Defesa Civil de Florianópolis 

Arte ressaca  - Rogério/ ND




Mar subiu 75 cm desde 1831 e continua em elevação

O geólogo Rodrigo Sato, que é conselheiro do Crea-SC (Conselho Regional de Engenharia e Agronomia), estudou o nível da maré, desde 1831, para um trabalho sobre os terrenos de marinha. Ele afirmou que o mar subiu 75 centímetros nesse período. Para o geólogo, estamos vivendo um período em que o mar está subindo. “O planeta passa por movimentos cíclicos de aumento e redução da maré que levam dezenas de milhares de anos e, agora, estamos em um período de elevação do mar. Essa subida é anômala do ponto de vista geológico, porque o normal era uma elevação mais lenta. E muitos perguntam se o homem é o grande vilão. Acredito que tenha uma parcela de responsabilidade, mas outros fatores precisam ser analisados”, afirmou.

E mar continuará subindo, conforme Sato. “O descontrole climático provocado pelas tempestades tropicais no nosso hemisfério vai provocar fenômenos cada vez piores. Pode ter certeza de que o mar continuará subindo cada vez mais. É só observar as imagens aéreas da Ilha nas décadas de 30 e 50 para verificar que em determinadas regiões as praias já perderam de 100 metros a 150 metros de faixa de areia”, destacou.

Sem uma equipe técnica para cuidar especificamente da região costeira, o geólogo defende a criação de um grupo de especialistas para estudarem o fenômeno em suas causas e consequências. “Precisamos acabar com a política de arrumar somente quando estraga. Com projetos bem estruturados de diferentes especialistas, podemos apresentar ao Ministério Público Federal, que proíbe qualquer intervenção nas praias, alternativas para evitar a destruição das nossas praias”, sugeriu.

Para Sato, a ideia de que os aterros interferem no nível do mar é um mito. “O aterro é desprezível para o tamanho do mar. É o mesmo do que você esperar que uma piscina olímpica transborde após colocar uma moeda de cinco centavos”, comparou.

Publicidade

1 Comentário

Publicidade
Publicidade