Publicidade
Quarta-Feira, 19 de Setembro de 2018
Descrição do tempo
  • 27º C
  • 17º C

Protetora de Florianópolis abriga em casa animais doentes e maltratados

Rosa Villanueva dedica tempo, afeto e dinheiro para cuidar de cães e gatos até que sejam adotados

Aline Torres - Especial para o NDonline
Florianópolis
22/12/2016 às 18H35

Gostar de cachorro é comum. Levar um animal todo estropiado para casa é para poucos, ou melhor, é para Rosa. Aos 55 anos, essa peruana que vive desde menina no Brasil dedica seu tempo, afeto e dinheiro aos bichos.  Rosa Villanueva vive com o companheiro Ruy no Maciço do Morro da Cruz, em Florianópolis. Atualmente eles cuidam de 30 cães, dois gatos e uma pomba de asa quebrada.

Rosa Villanueva dedica seu tempo, afeto e dinheiro aos bichos - Flávio Tin/ND
Rosa Villanueva dedica seu tempo, afeto e dinheiro aos bichos - Flávio Tin/ND


 

Ruy reclama. O trabalho é penoso. Mas ajuda sem hesitar, constrói as casinhas, as cercas, a UTI improvisada e o pergolado de bambus para que, no verão, o maracujazeiro se derrame em sombra sobre a cachorrada.

Rosa não ganha mal. É bióloga com mestrado em ecologia, tem dois empregos e auxilia como consultora no Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. Mas, quem vê sua casa de três peças de tijolos sem tinta e construída pela metade, não imagina.

É que a grana cobre pagamentos de veterinários e medicações. Quanto ela não diz “senão o Ruy pede divórcio”. Já ração revela que é pouca, “500 quilos por mês”. 

E talvez tanto desprendimento soe absurdo em um mundo onde a moeda vale mais que o amor. Mas absurdo mesmo é o estado em que Rosa encontra os animais.

Priscila, uma Poodle-lata branca de uns 12 quilos, foi estraçalhada por um Pit Bull e jogada fora. Fez longo tratamento, cirurgias, botou pinos, recebeu acupuntura e hoje espera por uma família que a adote e nem ligue para sua pata meio manca.

Shakira teve a mãe envenenada. Seus cinco irmãos morreram.  Binha foi encontrada dentro de um saco plástico ainda filhote. O apelido é porque na época ela era a Perebinha. Hoje parece uma vaca holandesa. Pingo, uma salsichinha de pelo duro e olhar pidão, pegou a doença do carrapato e foi chutado da casa onde morava. Negrito, um Poodle-lata que arrasa corações, ia ser morto a pauladas. Pretinha adoeceu, teve cinomose e foi largada na rua, em desespero, como tantos outros. Com as patas paralisadas foi se arrastando pelo asfalto em busca de socorro. Encontrou. Está na UTI.

Rosa Villanueva e o marido cuidam de 30 cães, dois gatos e uma pomba de asa quebrada - Flátio Tin/ND
Rosa Villanueva e o marido cuidam de 30 cães, dois gatos e uma pomba de asa quebrada - Flátio Tin/ND



Não há sequer um único animal naquela casa que não tenha uma história trágica. São os “feios, sujos e malvados”, que sobreviveram à negligência e violência dos donos, à rejeição das ruas, até conhecerem Rosa, a melhor amiga que poderiam ter.

O mesmo empenho da protetora que acorda às 5h30 da manhã para limpar a sujeira do pátio, distribuir alimentos e tratar os doentes, faz com que os cães se transformem. Os sarnentos se curam, os cegos vêem, os aleijados andam, os desenganados revivem. 

É como se todo cão do morro soubesse que ser atendido por Rosa vale mais que qualquer vela para São Francisco de Assis.

Mas, para vida ficar tão boa como um novo osso falta apenas uma última realização. A adoção. Esses cães precisam de famílias, que tenham o coração aberto, uma segunda chance na manga e não pequem no básico.

Pela ausência de cuidados mínimos, como a castração e a vacinação, que muitos animais penam ao relento. Rosa não estranha “Por que você acha que vacina em criança é gratuita e obrigatória?”, questiona.

O mais surpreendente é a compreensão com que lida com as pessoas que maltrataram os bichos. “Eles também são judiados”, avalia.

Para Rosa, o pior ciclo de enfrentamento é a reincidência, significa que o ex-proprietário da Pretinha, por exemplo, que a abandonou quando ela adoeceu, terá outros cães e os tratará do mesmo jeito ou pior. “É a banalidade da morte. Muitos sequer são enterrados, apodrecem sob o sol. E logo haverá outro bicho. A reposição é fácil, são como objetos”.

Com tanta demanda não há finais de semana nem dias santos. Rosa não cuida apenas daqueles que vivem sob sua guarda.  Ela atende bichos sofridos em toda a cidade. Cuidou de cavalo, coelhos, gatos ferais. Organizou mutirões de castração. E quando só resta o descanso, oferece um cemitério digno debaixo dos seus pomares.

Ela conta que aprendeu a tratar dos bichos – curar bicheiras, fazer curativos, imobilizar ossos quebrados e medicar - com suas mestras Jane e Carla Carlota e que “há dez anos é uma protetora oficial”, portanto, faz parte da “velha guarda”.

A trajetória, no entanto, é muito anterior.  Nasceu com a gata Milu, que encontrou vagando nas ruas de Lima quando tinha oito anos e escondeu por uma semana no seu quarto.  “Quando meu pai descobriu ficou uma fera. Disse, ‘nós não vamos ficar com essa gata’. Ficamos”, conta.

Rosa justifica a sina como o respeito a sua própria natureza.  “Ser protetora não é uma profissão é uma essência. Eu simplesmente não consigo ignorar a dor alheia. Já passei por muitos perrengues em outros lugares, mas nunca abandonei meus bichos. São da família”.

Saiba mais:

Para adotar algum animal, basta entrar em contato pelo Facebook Rosa Protetora ou pelo WhatsApp (48) 99636-3547

Mas, seja generoso e não ofereça mais animais de rua. Rosa já faz sua parte.

Publicidade

2 Comentários

Publicidade
Publicidade