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Quarta-Feira, 21 de Novembro de 2018
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O amante dos idiomas em Florianópolis

Fascinado pelo conhecimento, professor Carlos Amaral Freire, 79, já estudou 125 línguas ao longo da vida

Paulo Clóvis Schmitz
Florianópolis

Alexandro Albornoz/ND
Freire decidiu estudar duas novas línguas por ano; ele faz isso há cinco décadas

 

Quando trabalhou no consulado brasileiro em La Paz e deu aulas de linguística comparada para jovens bolivianos, o professor e tradutor Carlos Amaral Freire descobriu quase por acaso que as línguas quetchua e aimara, faladas por indígenas da região, tinham uma estrutura semelhante à do georgiano, idioma muito antigo e complexo utilizado no Cáucaso, então ainda dominado pela União Soviética.

Essa constatação rendeu conferências, entrevistas e um grande reconhecimento na Geórgia e em outros países, mas foi apenas um passo na carreira deste homem que está, agora, estudando o 125º idioma de sua longa trajetória de poliglota. Desses, ele domina cerca de 30, alguns de forma incipiente, mas suficiente para se comunicar.

Conversar com ele é fazer uma viagem pelo fascinante mundo da comunicação entre os povos, potencializada pelo acervo de livros, fitas cassete e DVDs que guarda em sua residência, no Morro das Pedras, Sul da Ilha. Ainda na infância, na cidade gaúcha de Dom Pedrito, Freire aprendeu o espanhol com um tio uruguaio, depois instalou-se na casa de uma família de Porto Alegre para entender o russo, e dali para frente foi uma avalanche de mergulhos em línguas e dialetos que vão do armênio ao guarani, passando por albanês, árabe, catalão, curdo, esperanto, iídiche, uzbeque, xavante, javanês, sânscrito e filipino. No momento, ele estuda o aramaico, idioma falado na época de Cristo e ainda presente em pequenas comunidades perto de Damasco, na Síria.

Essa façanha faz dele um merecedor de constar no Guiness, o livro de recordes, mas isso não está entre as ambições. Carlos Freire utiliza a facilidade no aprendizado de idiomas para comprazer-se em tomar contato com novas culturas, ler obras clássicas no original, acompanhar as notícias do outro lado do mundo pelo “Pravda”, fazer amizades com intelectuais e pessoas anônimas com as quais cruza em sua jornada. Ao contrário dos heróis dos romances, seus interlocutores são vivos, têm corpo e alma. “Isso dá uma nova visão do outro e reduz as tentações do fanatismo e do radicalismo”, afirma.

 

O simples e o fácil

Aos 79 anos, mas aparentando bem menos, Carlos Amaral Freire atribuiu-se a tarefa de estudar duas novas línguas por ano (faz isso há meio século!), e para tanto viaja e manda vir material de fora, da Europa ao Havaí. Ele ensina aos leigos que muitos dialetos na verdade são idiomas, faltando-lhes apenas o reconhecimento oficial. E também desmistifica a crença de que o chinês, por exemplo, é difícil, assim como o russo, o grego e as línguas eslavas. O que dificulta é a estrutura sintática dos idiomas tributários do indo-europeu, incluindo os que descenderam do latim – casos do italiano, francês, espanhol e português. “Simples não é sinônimo de fácil para aprender, e vice-versa”, informa ele.

Freire não sabe explicar por que o georgiano, o idioma de Stalin, tem ressonâncias na fala dos nativos da Bolívia, mas desconfia que povos da região do Cáucaso, como outros do continente asiático, chegaram à costa oeste das Américas após uma escala na Indonésia. Os índios que falam o quetchua e o aimara têm dificuldades para aprender o espanhol e o português, porque usam um sistema fonético mais simples (com apenas três vogais) e não conhecem o princípio aristotélico – e maniqueísta – do certo e errado, do bem e do mal, que interfere na própria interpretação do mundo.

 

Curiosidades

  • A opção de Carlos Freire pelo estudo das línguas ocorreu por acaso. Em criança, após bater a cabeça numa partida de futebol e ficar 24 horas sem memória, o pai o proibiu de jogar novamente. Como a família tinha uma ótima biblioteca, era ali que o menino passava a maior parte do tempo. O interesse por idiomas distantes foi uma consequência.
  • Certa vez, na Macedônia (então pertencente à Iugoslávia), foi chamado para entrevista e disse que poderia falar em russo, por não dominar a língua local. Um mês depois, o mesmo repórter o procurou e ele respondeu em macedônio, para surpresa do entrevistador. “A predisposição e o gosto são importantíssimos para aprender uma língua”, diz.
  • Freire chegou a ser demitido da Petrobrás, no Rio Grande do Sul, durante os anos da ditadura militar, porque encomendava livros e havia recebido estrangeiros, como intérprete, usando o russo e o chinês. Por isso, incluiu mais um “título” em sua carreira: o de anistiado político.
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