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Sexta-Feira, 21 de Setembro de 2018
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Livreiro Roberto Neves teve que se curvar a lei do mercado, mas não perdeu a paixão pelo ofício

Dono de uma pequena livraria no bairro Santa Mônica, ele continua fiel a uma atividade que é cada vez mais restrita no Brasil

Redação ND
Florianópolis
Daniel Queiroz/ND
Roberto Neves resiste como livreiro, em meio a venda na internet, a disputa do videogame e o desinteresse da população pela leitura

Por
PAULO CLÓVIS SCHMITZ/ND
pc@noticiasdodia.com.br

Ele já ocupou quatro endereços distintos e, na última mudança, viu cair o tamanho da loja de 100 para 25 metros quadrados. Mesmo assim, Roberto Neves, 47, advogado por formação, livreiro por vocação, continua fiel a uma atividade que é cada vez mais restrita no Brasil, porque concentrada nas mãos de grandes conglomerados. Há 14 anos na estrada, ele foi mais um que se curvou às leis do mercado e agregou materiais escolares, produtos de papelaria e brinquedos ao seu mix, no estabelecimento que mantém no bairro Santa Mônica, em Florianópolis.

No que toca aos livros, não são mais tantos assim, pelo espaço disponível, mas os que Roberto oferece vão da auto-ajuda, o gênero mais procurado, aos autores independentes, que arcam com os custos da edição e não encontram quem os aceite em suas prateleiras, mesmo em consignação. No meio termo, há os best-sellers, gente como Ken Follett, Dan Brown e Nicholas Sparks, além de Paulo Coelho e do padre Marcelo Rossi. E tem os infantis, comercializados a partir de R$ 1. Tudo imposto pelo gosto médio da clientela, pelas listas dos mais vendidos e pelo que lhe chega, por meio de uma parceria com as Livrarias Catarinense.

“Já tive cinco funcionários, e hoje estou com apenas um”, conta Roberto, que neste mês vem acumulando todas as tarefas da livraria e papelaria Santa Mônica porque a moça que trabalha com ele está de férias. Seu negócio foi mais uma vítima das vendas de livros pela internet, da míngua das pequenas livrarias – cujo faturamento nem sempre dá conta dos tributos, encargos e despesas fixas como aluguel, luz e telefone – e do que ele chama de “emburrecimento da população”. A margem nunca passa de 20%, e há a concorrência extra dos sebos, onde é possível encontrar obras em bom estado por alguns poucos reais.

“Trabalho por amor à camisa”, diz Roberto, que é natural de Lages. “Entendo que o governo deveria subsidiar a indústria do livro, porque ele ainda é caro para os padrões brasileiros. Hoje, chegamos ao absurdo de o papel reciclado ser mais caro do que o comum. Enfrento a concorrência das vendas em shoppings e até em postos de gasolina, porque os distribuidores precisam cumprir metas e colocar os livros em qualquer lugar”.

“Não vou me prostituir”

Como bom livreiro, Roberto Neves sempre tem pelo menos três obras na cabeceira, e diz preferir as de história e as que tratam do espiritismo. “Leio menos do que devia”, admite, atribuindo essa defasagem à necessidade de desenvolver outras atividades para se sustentar e manter a loja aberta. Seu pai chegou a editar livros e ele procura incutir nos filhos adolescentes a importância da leitura, que compete em situação de inferioridade, pela força da mídia, com o videogame, a televisão e a internet.

“Eu ainda sou do papiro”, brinca o livreiro. Desde os tempos da agitação universitária, na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), nos anos 70 e 80, ele vem acompanhando as movimentações no setor e lamenta que o livro faça cada vez menos parte do dia a dia das pessoas. O mercado se transformou, as vendas são feitas a distância e muitas vezes sem frete, e a concorrência é ingrata porque os sites que comercializam pela internet não pagam aluguel e parcelam o pagamento. “Até os sebos vêm perdendo espaço para o meio eletrônico”, constata ele.

Diante de tantas adversidades, Roberto não perde o otimismo e diz que, embora também venda canetas e lapiseiras, o foco de sua paixão são os livros. Hoje, eles representam menos de 30% do que fatura na loja, com uma margem de lucro diminuta. Mas isso é pouco para abalar o lojista. “Mesmo com todos os desafios, não vou desistir, nem me prostituir”.


 

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