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Instituto em São José é criado para devolver esperança para pacientes com câncer

Mais de 4.000 pessoas são colaboradoras do instituto que tem como objetivo fortalecer mulheres com câncer e seus familiares

Aline Torres, especial para o ND
Florianópolis
20/12/2016 às 12H01

A ONG onde Tatyana de Oliveira, 36 anos, trabalhava fechou. Os funcionários foram demitidos sem explicações. Os pacientes com câncer, atendidos no local, foram igualmente recepcionados com portas fechadas. A comoção fez com que um apresentador de TV os convidasse para o programa. Ao vivo todos os problemas foram resolvidos. Um novo espaço, dinheiro. Solução mais rápida que das madames do tarô - em 24h.

No dia seguinte embalada pelas promessas, Tatyana foi até o escritório do apresentador. Ele nem a recebeu. Generoso como de hábito, no entanto, pediu que a secretária entregasse cinco brindes e mandasse ela embora. Desses badulaques nasceu no dia 15 de maio de 2007 o Instituto Bem Viver, que atualmente atende gratuitamente 170 famílias.

Ao lado da psicóloga Patrícia Medeiros, colega também demitida pela ONG, Tatyana foi chorando até a casa da mãe. Lá, dona Edinéia propôs que elas rifassem os brindes. Conseguiram 360 reais, a mensalidade da primeira sala alugada.

Sem dinheiro, contrataram os primeiros funcionários. Operadores de telemarkentig. Com a lista telefônica em mãos eles ligavam de casa em casa para pedirem apoio. Depois os motoboys, batizados de mensageiros, passavam para arrecadar as quantias.

“Não me pergunte como deu certo. Nem eu sei. Foi com coragem”, disse Tatyana.

Atualmente o Bem Viver usa a mesma ferramenta de captação e conta com ajuda de 4 mil colaboradores. Tatyana foi contratada. Sua mãe é a presidente. E há mais 21 funcionários. Nenhum voluntário. 

“Sinceramente eu não acredito em voluntariado. Várias pessoas passaram por aqui e abandonaram os trabalhos pela metade. Então, formamos uma rede de profissionais competentes, dispostos a criarem vínculos e dedicarem suas vidas a causa”, contou.

 

Tatyana de Oliveira coordena os trabalhos no instituto - Flávio Tin/ND
Tatyana de Oliveira coordena os trabalhos no instituto - Flávio Tin/ND



O alicerce do Bem Viver é fortalecer emocionalmente mulheres com câncer e seus familiares. A prioridade são os pobres. Mas há quem tenha boas condições financeiras e frequente a casa para conviver com pessoas que enfrentam as mesmas angustias.

Situada no número 52, da rua Sete de Setembro, no bairro Kobrasol, em São José, a casa alugada oferece atividades diárias. Nas segundas há cursos de inclusão produtiva. São aulas de artesanato para que possam aumentar as rendas. Nas terças têm zumba. Quartas têm bingo. Quintas MEM (Mulheres em Movimento). As aulas variam. Pilates, taekwondo, futuramente ballet. Sextas são dias de convivência e fortalecimento de vínculos com os familiares. Há terapia em grupo e se for preciso consultas privadas com a psicóloga.

Além disso, para quem necessita há cestas básicas, medicações, fraldas descartáveis, auxílio para consultas e exames e vale-transporte para o tratamento oncológico.

Sem contar que nas datas festivas, há comemorações em grande estilo. Nessa segunda as mulheres irão passar à tarde em Rancho Queimado em um café colonial.

RosinéiaTurossi, 40 anos, é uma das mulheres que frequenta a entidade.

“Precisei fazer transplante de medula há três anos. Foi um tratamento duro, longo, fiquei debilitada, sem cabelo. Eu tava sem chão, sem rumo, sem nada, autoestima lá embaixo. Mas, aos poucos fui melhorando. Estar aqui mexeu com meu íntimo, foi uma injeção de ânimo”.

 

A maioria dos frequentadores são mulheres com cânceres nas mamas, úteros e pulmões. Há cinco crianças. Homens têm poucos. Apenas três. Outros dez morreram no ano passado. “Os homens são resistentes. Não gostam de ir ao médico e quando vão, na maioria dos casos, é difícil de reverter. Estão com metástase”, explica Tatyana.

Justamente a memória de uma perda é um das mais fortes que ela carrega. Seu Erasmo, 62 anos, tinha leucemia. Participava do Bem Viver com a esposa, que tinha câncer de mama.

Com o tempo, se afeiçoou a Tatyana, “virou um pai”, como ela diz. Tanto que quando Seu Erasmo foi internado às pressas pediu para que a assistente social o visitasse no hospital.

Ela não pôde. No segundo dia, recebeu uma ligação dizendo que deveria se apressar. Seu Erasmo aguardava a despedida para “descansar”. Tatyana correu para lá.

Eles se abraçaram, riram, depois ela foi embora. Foram poucos minutos do elevador até o estacionamento e o telefone tocou. Seu Erasmo morreu. Ele só a esperava.

Como o Instituto lida rotineiramente com perdas, a intenção é construir encontros alegres, amizades fortes e o amparo de mãos amigas para quando for preciso. A dor é inevitável, mas a beleza é um antídoto poderoso contra dias sombrios.

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