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Exposição de Joan Miró abre neste sábado, em Florianópolis

Mostra gratuita abre neste sábado, no Masc, em Florianópolis, onde fica até 15 de novembro

Paulo Clóvis Schmitz
Florianópolis
Flávio Tin/ND
O legado de Miró, que mudou os rumos da arte no século 20, pode ser apreciado em 112 obras, que tomam o Masc

As ligações de Joan Miró com o Brasil nunca foram estreitas, porque ele não teve a oportunidade de conhecer o país, mas há um pormenor relevante que fazia o artista catalão enxergar a terra do Carnaval com especial deferência: a amizade com o poeta João Cabral de Melo Neto (1920-1999). O pernambucano de “Morte e Vida Severina” morou em Barcelona durante uma década e lá frequentou o estúdio do surrealista-mor, sobre quem escreveu, em 1950, um ensaio usando xilogravuras conhecidas e inéditas. Agora, Miró e o Brasil reatam esse vínculo por meio de uma exposição que visitou São Paulo (Instituto Tomie Ohtake) e que será aberta ao público neste sábado em Florianópolis. “Joan Miró – A Força da Matéria” fica no Masc (Museu de Arte de Santa Catarina) até o dia 15 de novembro.

O neto do artista, Joan Punyet Miró, não se cansa de citar a relação de seu avô, um amante da poesia, com o escritor brasileiro que atuou como cônsul geral na Catalunha durante 10 anos, a partir de 1947. Geniais, ambos tinham em comum, além da vocação irrevogável para a arte, o apego à terra seca que torna o sertão nordestino e a região catalã de Tarragona, onde Miró produziu parte de sua obra, territórios quase irmãos. Terra que o artista espanhol usou, assim como as tintas, a madeira, a sucata e o bronze, para construir um legado que mudou os rumos da arte no século 20. Ele afrontou com tal força as trincheiras do academicismo que fez beber em sua fonte criativa artistas – também eles revolucionários – de todas as latitudes.

O homem de postura iconoclasta que nunca aceitou ficar à margem e sempre se reinventava, na pintura, no desenho, na gravura e na escultura, queria ir além da beleza e dos cânones que o mercado e a academia ditavam como corretos. “Contra o establishment, ele propunha a antipintura e formas de expressão livres e audazes para atingir a pureza do coração do homem”, diz Joan Punyet Miró, também em tom poético, sobre o avô. Nesse afã, usou tampas de panelas, restos de madeira, potes e guardanapos, entre tantos materiais descartados, para engendrar esculturas que mexeram com a comportada concepção da arte nos anos 1940. E mais, encheu as esculturas de cores, contrariando todos os paradigmas vigentes.

Flávio Tin/ND
Joan Punyet Miró, neto do artista: arte de Miró é atemporal e nascia da necessidade do espírito

A busca pelo primitivo

Na exposição “Joan Miró – A Força da Matéria”, chama a atenção que seis das 112 obras jamais foram expostas, porque pertencem à coleção particular de Joan Punyet Miró. Até nisso o Brasil – e Florianópolis, de modo especial – teve sorte, porque o neto do artista quis homenagear o país que o avô só conheceu por meio da poesia de João Cabral. Os trabalhos refletem todas as fases criativas do catalão, do clima hostil da Guerra Civil Espanhola e da 2ª Guerra Mundial até os anos de reconhecimento mundial, fortuna e o uso de suportes inusitados, passando pelo período de grande experimentação nos quais as esculturas ocuparam lugar de destaque.

Apresentar-se como um contraponto do conterrâneo Pablo Picasso, já consagrado, foi uma das ousadias de Miró ao chegar a Paris, em 1919. O começo, no entanto, foi de influências difusas, até que o dadaísmo e o surrealismo se impuseram, em especial o movimento no qual Andre Breton colocou Miró como o principal artífice. Por isso, dizia ele, enquanto outros trabalhavam de dia, ele criava à noite, dormindo, tributário que era dos sonhos e das cenas oníricas que depois se transformavam nos desenhos e pinturas peculiares que produziu.

Para o neto, a arte de Miró é atemporal, porque busca no primitivo, no que fez o homem das cavernas 35 mil anos atrás, assim como na cultura popular, a inspiração para o mundo de cores que criou até os 90 anos. “Ele utilizou o poder onírico da mente, a música e a poesia para fazer uma arte revolucionária”, afirma.

Flávio Tin/ND
“La Souris noire à la mantille” (Rato preto com manta), uma das obras da exposição 

 

Presença brasileira

Joan Punyet Miró tinha 15 anos quando o avô morreu, em 1983, aos 90, em Palma de Mallorca. Era jovem, pouco mais que uma criança, mas ia todos os dias no seu ateliê para ver como ele desenhava. “Isso me permitiu entender a força do traço e da linha de Miró, algo que também foi destacado no ensaio de João Cabral de Melo Neto”, diz. “São mundos cromáticos diferentes, dependendo da fase, mas a linha é pura. Pessoalmente, ele era carinhoso, afável, direto, e tinha muitas atenções comigo”. O artista só teve uma filha, Dolores, e quatro netos, a quem presenteava frequentemente com gravuras.

Quando desembarcou em Paris, no auge do surrealismo, Miró se disse disposto a “assassinar” a pintura, que declarou decadente e repetitiva. O que predominava era o cubismo de Picasso, que fazia o bonito, o decorativo, o que se restringia à percepção exterior, enquanto ele era abstrato, voltado ao mundo dos sonhos, ao subconsciente, ao que remete à alma humana. “Miró pintava sem pensar na beleza e no mercado, era uma necessidade espiritual, empírica, pessoal”, afirma o neto.

Além disso, havia a postura contestadora no nível das ideias. “Meu avô sempre foi contra Franco, Hitler e Mussolini”, atesta Punyet. “Defendia a democracia, os parlamentos, o diálogo. Na vida e na arte ele era assim, contra a guerra, a morte, a repressão, o fracasso. Era niilista, iconoclasta, revolucionário”.

No ensaio “Miró”, João Cabral traçou um paralelismo entre o Brasil e o artista espanhol. A publicação, com textos, xilogravuras e quatro óleos inéditos, teve apenas 123 exemplares e é considerada hoje uma raridade. Outra presença brasileira na vida de Miró foi a do diplomata Paulo Duarte, que em 1941 levou pessoalmente suas ilustrações para Nova York, onde ele fez uma exposição no MoMa (Museu de Arte Moderna).

Uma marca da arte de Joan Miró foi o respeito aos elementos tidos como refugo, aos materiais menos nobres, como pontos de partida para a gestação de obras de arte. Usava coisas recicladas, reinventava formas, criava associações metafóricas que o público não entendia. Isso pode ser visto na exposição que está no Museu de Arte de Santa Catarina, em esculturas que escancaram a força da matéria. “Ele nunca rechaçou nada e fez de elementos obsoletos o seu mundo”, destaca o neto. Tudo a ver com quem leu Rimbaud, Lautréamont e Goethe.

Flávio Tin/ND
Escultura do artista. Muitas nasciam de refugos, apropriando-se de materiais que não eram nobres

 

Liberdade, verdade e pureza

Em Mallorca, juntava objetos, colocava dentro de uma caixa e levava para Paris, onde transformava materiais queimados numa fogueira, por exemplo, em obras de arte. O caso das esculturas de bronze pintadas em cores berrantes foi de um radicalismo enorme, porque ninguém fizera isso até então. Na tradição da arte, de gênese greco-romana, pintar sobre um material tão nobre era uma blasfêmia, uma transgressão, naquele momento. “Ele ficava à margem para não se deixar influenciar pela sociedade, pelos ideais corruptos, absurdos”, ressalta o neto. “E seguia seu caminho, sua intuição. Defendia o tripé liberdade, verdade e pureza”.

Foi dessa forma que influenciou Jackson Pollock, Paul Klee e outros. Quando expôs no MoMa, no início dos anos 40, suas formas e fundos abstratos, que falavam da pureza do vazio e da cor, foram copiados generosamente não só pelos americanos, mas pelo mundo. “Muitos beberam nessa fonte, na experimentação com a matéria”, diz seu neto.

Punyet está há uma semana no Brasil e define o país como “uma força maravilhosa, de gente que quer viver em paz, entender a vida, estar em harmonia com o mar, o sol e a lua”. Natural de Mallorca, ele vê semelhanças entre a ilha que recebe agora as obras de seu avô e a ilha onde nasceu e onde Miró passou os últimos de vida, apreciando a natureza e saboreando o impacto do que fez sobre a arte universal.

 

Visitação

Museu de Arte de SC

O quê: Exposição “Joan Miró: A Força da Matéria”.

Quando: 12/9 até 15/11,

Onde: Masc, CIC, av. Irineu Bornhausen, 5600, Agronômica, Florianópolis, tel. 48 3953-2380.

Quanto: Gratuito

 Turnos de visitação: a distribuição das senhas começa 30 minutos antes de cada turno até acabar as 350 senhas por período

 10h às 12h;

 13h às 16h;

 17h às 19h (de terça-feira a sábado) e 17h às 18h (aos domingos e feriados).

 A visitação, após entrada na mostra obedecendo aos turnos, pode ser feita até 20h30, de terça a sábado, e até às 19h30 nos domingos e feriados.

  Agendamento para visitação de grupos: pelo tel.(48) 3664-2633, de seg. a sex., das 14h às 17h

 

Assista aos vídeos

 

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