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Esclarecimento sobre morte de Paulo Stuart Wright e indenização não apagam dor da família

Pesquisadora e filho contam detalhes de um dos casos emblemáticos da ditadura em Santa Catarina, documentados em projeto especial

Paulo Clóvis Schmitz
Florianópolis
15/07/2017 às 12H17

Os mistérios em torno da prisão, morte e ocultação do corpo do ex-deputado Paulo Stuart Wright, assassinado em 1973 em Itapevi, na Grande São Paulo, já foram desfeitos. Há duas décadas, a família foi indenizada, com base na lei nº 9.140, de 4 de dezembro de 1995, criada para ressarcir monetariamente as perdas humanas provocadas pelas torturas e mortes durante a ditadura. Contudo, nada há que remova ou aplaque o sofrimento decorrente do crime, um dos muitos praticados pelos governos militares no Brasil. “Foi difícil desde a cassação de meu pai, passando pelos anos de clandestinidade, quando os encontros eram muitos esparsos e perigosos”, conta o filho João Paulo, 54 anos, hoje morando em Curitiba. “A família foi se esfacelando, minha mãe adoeceu e morreu, depois perdi minha irmã. Ele nos fez muita falta”.

Stuart Wright foi eleito deputado estadual em 1963, pelo PSP (Partido Social Progressista), mas foi cassado meses depois, acusado de falta de decoro, por pressão dos militares - Agência AL/Reprodução/ND
Stuart Wright foi eleito deputado estadual em 1963, pelo PSP (Partido Social Progressista), mas foi cassado meses depois, acusado de falta de decoro, por pressão dos militares - Agência AL/Reprodução/ND



No mês passado, um vasto material batizado com nome de Acervo da Ditadura foi doado pelo Coletivo Catarinense Memória, Verdade e Justiça ao IDCH (Instituto de Documentação e Investigação em Ciências Humanas), da Faed/Udesc, em Florianópolis. O caso Paulo Wright é o que reúne o maior número de pastas com documentos pessoais, reportagens, fotografias, artigos e correspondências, porque ele é o mais conhecido dos dez catarinenses mortos e desaparecidos durante o período. Além disso, era irmão do pastor Jaime Wright, militante dos direitos humanos que atuou ao lado do cardeal Dom Paulo Evaristo Arns, da arquidiocese de São Paulo, no projeto Brasil: Nuca Mais.

Em 1º de setembro de 1973, quando estava num trem urbano em São Paulo com outros companheiros, Paulo Wright foi seguido por agentes comandados pelo major Ubirajara Brandt Rodrigues, do Centro de Informações do Exército. Acostumados a esse tipo de situação, os militantes perceberam o perigo e se separaram, mas Wright acabou preso e nunca mais foi visto. “Eles iam se encontrar com outro companheiro, mas ele fora preso no dia anterior e deu informações à Operação Bandeirantes”, conta a professora aposentada Derlei Catarina de Luca, que conhecia Wright desde os 14 anos, quando morava em Içara, no Sul do Estado. “Ele me ajudou a sair do país e salvou minha vida”, diz Derlei, que havia sido presa e torturada em 1969 em São Paulo.

 

Assassinato na Boate Querosene, em 1973

Após incansável trabalho de mais de 40 anos para explicar o que aconteceu, Derlei de Luca descobriu que Paulo Wright foi morto na Boate Querosene, em Itapevi (SP), nos primeiros dias de setembro de 1973, por uma equipe da qual faziam parte o capitão Enio Pimentel da Silva, o capitão Freddie Perdigão Pereira, o sargento Roberto Artoni, o sargento João de Sá Cavalcanti Netto e o capitão André Leite Pereira Filho. O agente Walter Lang, conhecido como Alemão, estava na equipe que sequestrou Wright no trem e foi quem, segundo Derlei, deu sumiço no corpo, provavelmente decapitado e jogado num rio próximo à antiga boate usada para liquidar os inimigos do regime.

Paulo Stuart Wright - Agência AL/Reprodução/ND
Paulo Stuart Wright - Agência AL/Reprodução/ND



Paulo Wright nasceu em Joaçaba, no Vale do Rio do Peixe, em 1933, filho de missionários presbiterianos originários dos Estados Unidos. Formou-se em sociologia no estado americano de Askansas e retornou ao Brasil em 1956 para se casar com Edimar Rickli (com quem teve os filhos Charles, Leila e João Paulo) e trabalhar junto aos movimentos sociais e sindicatos de trabalhadores, em São Paulo. Com a morte da mãe, retornou a Santa Catarina para auxiliar o pai em suas atividades missionárias, mas se envolveu com os metalúrgicos de Joaçaba, onde se candidatou a prefeito pelo PTB (Partido Trabalhista Brasileiro), perdendo e eleição por apenas nove votos.

Em 1958, convidado pelo governador Celso Ramos, assumiu a direção da Imprensa Oficial do Estado e começou a organizar uma federação de cooperativas de pesca nos municípios do litoral. Elegeu-se deputado estadual em 1963 pelo PSP (Partido Social Progressista), mas sua atuação rendeu uma denúncia de subversão e, por pressão dos militares, ele foi cassado em 9 de maio do ano seguinte, sob alegação de falta de decoro parlamentar – com votos de parlamentares do próprio partido. Andou pelo México, Cuba e China e ingressou na AP (Ação Popular), organização extremamente organizada que educava os militantes. No episódio da cassação do mandato, a Assembleia Legislativa curvou-se à pressão do regime, como ocorreu em outros Estados do país.

 

João Paulo Wright, técnico em eletrônica, filho de Paulo Stuart Wright

“O sofrimento nunca termina, está no dia a dia”

Mesmo por telefone, dá para perceber a emoção com que João Paulo Wright, 54, fala do pai morto na ditadura. Técnico em eletrônica, ele mora em Curitiba, para onde a família se mudou após o desaparecimento de Paulo Stuart Wright, em 1973. Ele diz que “o sofrimento nunca termina, está no dia a dia”, e que o fato de não haver os restos mortais para enterrar é um trauma a mais, como sempre acontece nessas situações. Nascido um ano antes do golpe de 1964, João Paulo fala, nesta entrevista, sobre como a perda do marido e pai esfacelou a família. “Uma vez um repórter me perguntou como eu reagiria se meu pai aparecesse na porta de casa”, conta. “Por um momento, tive a sensação de que aquilo era possível”. 

João Paulo Wright é filho de Paulo Stuart Wright - Agência AL/ND
João Paulo Wright é filho de Paulo Stuart Wright - Agência AL/ND



Como era a relação da família com Paulo Wright, que depois de cassado passou anos como clandestino dentro e fora do Brasil, fugindo de seus perseguidores?

Nossos encontros eram espaçados e às vezes ele marcava e não aparecia, por questão de segurança. Quando eu tinha dez anos, meu pai foi sequestrado em São Paulo e nunca mais foi visto. Foi dramático, angustiante para mim e minha irmã Leila. Professora primária, nossa mãe nos reuniu uma noite, na cama, e disse: “Acho que o pai de vocês morreu”. A mãe adoeceu e depois eu perdi também a irmã – elas estão no mesmo túmulo. Até 1975, nós também ficamos na clandestinidade. 

Como foi que trabalharam com a perda e com a ausência dele?

Nossa vida seria diferente se ele estivesse presente, porque os pais influenciam nas decisões dos filhos. Meu pai fez muita falta, especialmente para minha mãe e minha irmã. A ditadura provocou um desmonte familiar. Tivemos a proteção da mãe e nos abrigamos numa chácara perto de Curitiba. Era um paraíso natural, com escola próxima. Tivemos uma boa formação, mas o sofrimento voltou com a abertura política, quando entendemos melhor o que aconteceu com o país. 

Você ainda alimenta a esperança de encontrar os restos mortais de seu pai?

Os familiares dos desaparecidos têm ido ao cemitério de Perus, em São Paulo, onde ainda há muitas ossadas que não foram identificadas. Muitas estão sem as mãos e cabeça, justamente para dificultar a identificação. Muitos corpos foram jogados no mar, em rios, em fornos. Existe pouca esperança de encontrar qualquer coisa, pela visibilidade que ele tinha. Era uma liderança muito carismática, com capacidade de mobilização popular e discurso forte. O incrível é que muitas pessoas ainda não acreditam que tudo aquilo aconteceu e que o regime militar torturou e matou tanta gente. 

A família foi indenizada. Isso amenizou um pouco a dor da família?

Quando saiu a indenização, há cerca de 20 anos, nós aceitamos, porque tínhamos um filho pequeno. Sei que meu tio Jaime Wright não iria aceitar. Hoje eu também não aceitaria, foi um erro, mas eu não tinha maturidade na época. Não existe possibilidade de reparação financeira para um crime assim. Admito que foi um momento de fragilidade e imaturidade – o ideal era não ter aceito, até porque meu pai não era apegado a bens materiais. 

Você sente que tem alguma coisa a fazer pela história de seu pai?

Aos 54 anos, ainda tenho metas de vida. Quero voltar a fazer a pé o caminho de meu pai pelo litoral catarinense, onde ele criou várias cooperativas de pesca. Ele e minha mãe foram dois missionários que vieram dos Estados Unidos e da Europa para dar melhores condições de vida ao povo. Viver com sua falta é um aprendizado diário. Lembro que minha irmã Leila, ainda criança, ia com ele nos comícios em Florianópolis. Gostaria de fazer um velório para ele, com todas as cerimônias de praxe. No mundo inteiro é assim: até nas guerras se respeita o ritual, os inimigos param os combates para o resgate dos mortos. 

Como você vê a situação do país, neste momento?

Estou angustiado. Quando José Serra lançou seu livro eu fui lá, achei que ele seria uma saída, porque foi exilado, mas no dia seguinte apareceu a notícia dos 23 milhões de dólares depositados na conta dele. Não posso colocar a história do meu pai nesse meio. Os velhos militantes, como Serra e Fernando Henrique Cardoso, mudaram de lado. Hoje, a empresa onde trabalho tem 230 funcionários, mas já teve 700. O país tem muita bandalheira, concentração de renda, a cidadania pisoteada e uma crise de lideranças. Se estivesse vivo, meu pai teria 85 anos e certamente sofreria muito ao ver o quadro atual. Sempre me pergunto como vamos reconstruir o país outra vez.

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1 Comentário

  • Marcelo
    Porque resolveram publicar tantas reportagens sobre a ditadura??? Manipulação de massas???? Vamos refletir!!!!! Nada é o que parece.
    • Meno
      Vai comer capim cara
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