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Sábado, 22 de Setembro de 2018
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Disposição de um jovem

Em plena forma e com mais de 50 anos de rádio, Walter Souza planeja se aposentar só em 2020

Paulo Clóvis Schmitz
Florianópolis

Fernando Mendes/ND
Walter Souza é um ícone da radiofusão em Florianópolis

Ele está com 71 anos e passou de meio século falando ao microfone, mas tem a disposição de um jovem e estabeleceu como meta completar 60 anos de rádio e TV, pendurando as chuteiras em 2020, já octagenário. Esse é Walter Souza, repórter que viveu os tempos áureos da radiodifusão em Florianópolis, passando pelas rádios Jurerê, A Verdade, Anita Garibaldi, Guarujá e Diário da Manhã, atual CBN Diário. Ficou 15 anos na RBS TV, onde cobriu a Novembrada, episódio que envolveu o ex-presidente João Baptista Figueiredo num bate-boca com populares no Centro da Capital, e as grandes enchentes de 1983 e 1984 no Vale do Itajaí. Também marcou época como repórter de campo no futebol, ao lado do narrador J. B. Telles e do comentarista Newton Cesar Viegas.

Quando achou que não seria mais lembrado, foi convidado por Marcelo Fernandes Corrêa para comandar um programa matutino na Guarujá. E lá está, dando voz às comunidades e apontando os problemas da população da Grande Florianópolis. Nascido e criado na avenida Mauro Ramos, fala com desenvoltura das coisas antigas da cidade, dos bailes nos clubes Paineiras, Lira e Doze de Agosto, da sessão das moças no Cine Ritz, das grandes competições de vela e remo, dos carnavais na praça 15 de Novembro, do rádio-teatro e dos tempos em que os balneários mais badalados ficavam na orla de Coqueiros. “Naquele tempo, todos se conheciam e se tratavam pelo nome”, lembra.

Sempre irreverente e ousado, Walter chegou a entrevistar a rainha do carnaval em cima do carro em que ela desfilava e fez programas ao vivo com a água pela cintura, nas praias do continente, ouvindo os banhistas e atendendo os pedidos musicais. Há pouco tempo, foi tema de um TCC da estudante de jornalismo Sandra Bonatti, formanda na Faculdade Estácio de Sá, onde há depoimentos de figuras como Antunes Severo, Roberto Alves, Miguel Livramento, Fenelon Damiani e até a reprodução de parte de uma entrevista com o ex-governador Aderbal Ramos da Silva, que abriu a conversa fazendo-lhe um elogio como poucos que ouviu na vida.

 

Um repórter de sorte

Da Novembrada, em 1979, uma lembrança marcante foi ter contado com a sorte de estar ao lado do ex-presidente Figueiredo quando este, acossado pela multidão, voltou-se para ele e reclamou das xingações dos manifestantes. “Quase todo aquele material foi engavetado na emissora e a Globo nunca colocou no ar”, afirma. Outra vez, em São Joaquim, conseguiu furar o bloqueio da segurança para perguntar ao general quando o país teria um presidente civil. Foi arrastado para longe pelos homens da guarda presidencial.

Nas enchentes do Vale, testemunhou uma moradia desabando na hora em que fazia a reportagem, e em outra ocasião, no rio Itajaí-mirim, o cinegrafista gravou uma casa de madeira de 80 metros quadrados sendo arrastada pela correnteza, até bater numa ponte e se desintegrar, literalmente. “Além de competência, estudo e leitura, o bom repórter não pode prescindir da sorte”, ensina. Em Blumenau, registrou o desespero de uma moradora que não foi atingida pelas águas, mas que queria pagar uma prestação que vencia naquele dia e estava impossibilitada pela calamidade. A matéria fechou o Jornal Nacional daquele dia.

 

O rádio como necessidade

Nas passagens pelas rádios da Capital, Walter Souza conviveu com figuras como Adolpho Ziguelli, Acy Cabral Teive, Carlos Alberto Campos, Odemar Costa (que depois se tornou um grande narrador esportivo na Bandeirantes, de São Paulo), Neide Mariarrosa e o poeta Cláudio Alvim Barbosa, o Zininho, que era chamado de Ziza pelos amigos mais próximos. Por obra de Zininho, que era técnico de som, Walter mandava para uma namorada, em Joinville, discos de acetato com músicas que ela apreciava – um diferencial mesmo para os grandes galanteadores da época.

“O rádio é quase uma necessidade orgânica para mim”, afirma Souza. “Tenho necessidade de falar o dia todo”, reforça, como que tentando explicar as razões de uma carreira tão longa e profícua. Safenado, ele leva uma vida frugal, sem excessos, caminha todos os dias até a Assembleia Legislativa e a rádio, e nos últimos três anos e meio vem cuidando da mulher, educadora respeitada, que luta contra uma doença grave. Com um filho de 37 que é professor de física, inglês e matemática, ele só reclama do trânsito e da falta de segurança na cidade. “À noite, só saio em caso de extrema necessidade”, confessa.

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