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Quarta-Feira, 14 de Novembro de 2018
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As receitas de uma professora aposentada

Mara de Bona diz que o modelo de escola precisa se transformar para continuar existindo

Redação ND
Florianópolis

Rosane Lima/ND
Professora Mara acredita que escola deve ser mais inclusiva

A escola vai mal, e tende a piorar, porque ninguém mais aguenta a estagnação, o modelo pedagógico defasado, a desconsideração com os professores, os riscos que vêm com a violência, o ar sofrido dos colegas – mesmo aqueles que mantêm uma centelha de otimismo em meio ao caos que se instalou no setor. Este quadro sombrio não é pintado por algum especialista, estudioso ou educador baseado na academia. É o diagnóstico de alguém que passou 20 anos em sala de aula e mesclou a nobre missão de ensinar (e aprender) com o desafio de manter a família recebendo baixos salários e suportando níveis de estresse crescentes, decorrentes de jornadas duplas ou triplas e da falta de perspectivas para a carreira.

Mara Vieira de Bona, já aposentada no magistério, começa falando pouco, escolhe as palavras com cuidado, mas depois se solta e desfia uma série de opiniões acerca da rotina nas escolas públicas. “Não podemos culpar os pais, que precisam trabalhar, mas hoje o professor é também psicólogo e formador da personalidade dos alunos”, afirma ela, referindo-se ao acúmulo de papeis que foi delegado aos educadores no Brasil. “O que esperar de uma criança de 12 anos que precisa acordar o irmão de oito para irem juntos à escola porque os pais saíram às cinco horas da manhã atrás de seu sustento? É por isso, também, que as dificuldades aumentaram – cada aluno chega com carências e estímulos específicos. Se a escola não se transformar, atendendo bem a esse público, ela não tem futuro”.

Ex-diretora da escola estadual Antonieta de Barros, já desativada no Centro de Florianópolis, e da Escola Indígena Itaty, no Morro dos Cavalos, em Palhoça, Mara continua engajada, apoia os companheiros em greve e se diz surpresa com a maciça adesão dos diretores e dos funcionários das gerências regionais ao movimento. Ela reforça que as escolas já não dão conta de seu papel, que mudou muito nos últimos anos, e garante que nem as universidades, nem o sistema educacional evoluíram significativamente. “Nosso paradoxo é priorizar a diversidade, que é uma marca dos dias atuais, sem as mínimas condições para cumprir essa tarefa”.

 

Mudanças no meio do jogo

Uma cena comum nas escolas, admite Mara de Bona, é encontrar professores com sinais profundos de estresse, que desembocam em doenças funcionais e em afastamentos cada vez mais frequentes da sala de aula. “Os níveis de depressão cresceram muito quando as regras de aposentadoria foram alteradas”, afirma. A necessidade de permanecer até os 50 anos – em alguns casos, uma década a mais – na escola foi um baque para muitos mestres, que começaram a deixar transparecer para os alunos um grande desânimo com o próprio futuro. “As mudanças das regras em pleno jogo, como vemos na greve atual, ainda assusta os professores”, diz Mara. Isso tende a encurtar a carreira de quem está chegando agora ao magistério, especialmente nas escolas do Estado.

A receita que ela aponta é a transformação, a evolução, porque o mundo mudou, tornou-se mais tecnológico, diversificado e individualista. Uma saída seria a docência compartilhada, experiência que ela adotou na escola Antonieta de Barros e que consistia em projetos que levavam em conta as diferentes necessidades dos alunos. “A escola precisa ser inclusiva a se inserir mais na comunidade”, ensina.

 

Tornar visível o invisível

Formada em Letras na Universidade Federal de Santa Catarina, Mara de Bona criou quatro filhos com o vencimento de professora. Trabalhou em Imbituba e em Florianópolis (incluindo o Instituto Estadual de Educação), onde também foi diretora de escolas, e guarda uma lembrança especial dos anos em que lecionou para os índios guaranis da aldeia do Morro dos Cavalos. “Ali, as crianças são afetuosas, trazem uma bagagem de casa e respeitam a cultura da tribo”, conta.

Hoje, já sem os percalços de uma sala de aula, ela estuda música e canta num coral da cidade. Vai mais ao cinema e recupera as leituras perdidas nos tempos em que levava provas para corrigir nos fins de semana. “Eu fazia o que gostava, mas chegava em casa irritada”, lembra. Também faz parte dos Românticos Conspiradores, um grupo de professores que luta para “tornar visíveis as escolas invisíveis do país”, na sua própria expressão. O modelo ideal é a Escola da Ponte, criada há 35 anos em Vila das Aves, no distrito do Porto, em Portugal, onde não há salas e lugares fixos e os grupos são heterogêneos, sem divisão ou agrupamento por idade ou nível de escolaridade.

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