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Terça-Feira, 25 de Setembro de 2018
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Aos 70 anos, Olegário Bernardo lembra dos tempos em que Florianópolis era recanto sem pressa

Militar aposentado passa os dias atento a vista privilegiada entre a baía Sul e o morro da Cambirella, recortada pelo azul do céu e do mar

Paulo Clóvis Schmitz
Florianópolis
Alexandro Albornoz
Olegário Bernardo vive na Costeira do Pirajubaé, no Sul da Ilha

Ele trabalhou mais de 30 anos na polícia, salvou vidas como bombeiro e viu as mudanças que transformaram a Costeira do Pirajubaé, antes um bairro acanhado, numa das áreas mais movimentadas de Florianópolis. Hoje, aos 70 anos, Olegário Bernardo acorda e pode divisar, da janela do quarto, a vista da baía Sul e do Cambirela, no Continente, ainda bela e recortada pelo azul do céu e do mar. Nem as construções que surgiram, a Via Expressa agitada e o burburinho que a expansão provocou num lugar que já foi uma espécie de horta da cidade tiram o encanto do visual que o aposentado tem de sua casa na rua íngreme que leva o nome de sua mãe – Ana Bernardo.

Conversar com esse ilhéu típico é perceber o quanto se prezava, no passado, a vida sem pressa de uma cidade que se tornou cosmopolita e abriu o flanco para a impessoalidade de nossos dias. A comunidade de Carianos, onde nasceu, e a Costeira, onde estão alguns dos irmãos e sobrinhos, perderam a inocência e a segurança de outros tempos. Nas horas de folga da vida de militar, seu Olegário saía para o mar, atrás dos peixes que complementavam a ração doméstica. E havia o futebol, os bailes, os namoricos, os bares onde os amigos bebiam sem medo. Hoje, para onde se olhe, há o receio, há o tráfico, há o trânsito alucinado das avenidas que ligam o Centro ao Sul da Ilha.

“A pesca era mais um passatempo, saíamos de canoinha a remo para pegar camarão, tainhotes e paratis”, conta Olegário. Gozador e brincalhão, ele diz que muitos pescadores já se foram, outros mudaram de ramo com a precariedade de peixes, outros se aposentaram e jogam dominó num boteco ao lado do supermercado Bistek, vizinho recente dos moradores do bairro.

Sempre se referindo à infantaria e aos anos de bombeiro, Olegário tem orgulho de pertencer a uma família de militares. Tem um irmão que é coronel aposentado, um filho que é major na ativa e um cunhado que passou para a reserva como sargento. “Na época, não existia muito serviço, e a carreira militar era a forma de entrar numa profissão”, confessa.

A camisa que valeu uma vida

Olegário Bernardo saiu de Florianópolis para tentar a vida em Curitiba, na virada da década de 50 para 60, aos 19 anos. Voltou para entrar na polícia, e foi garçom, dentro e fora da corporação, durante um bom tempo. Os melhores dias foram na busca e salvamento, socorrendo pessoas em situações críticas. Lembra de ter resgatado uma moça do Paraná que escapou por pouco de se afogar em Balneário Camboriú. Quando estava segura, ela disse: “Sua camisa eu não vou entregar”. Não era apenas para se tapar, era para guardar uma recordação do soldado que salvara sua vida. O comandante, na época, não fez objeção, porque aquele gesto engrandecia a corporação.

Se perdeu a mãe cedo, é do pai, que morreu há três anos, que Olegário sente mais saudade, a ponto de ficar com a voz embargada quando começa a falar dele. Também lamenta que um AVC (acidente vascular cerebral) que o acometeu há um mês o venha impedindo de dirigir o primeiro carro zero quilômetro que comprou na vida, mesmo sem apresentar grandes sequelas. “Meu braço direito e meus olhos ficaram um pouco prejudicados, mas a família e os médicos me proíbem de sair dirigindo”, se queixa. Tomando os remédios prescritos, tem a esperança de retomar a vida normal em pouco tempo.

Fortes laços familiares

Os laços familiares estão em todas nas falas do militar aposentado. A irmã mora ao lado, o filho faz visitas regulares, a filha pedagoga está sempre presente. É a união que vem de longe e aproxima a todos desde que o pai, operário da prefeitura e pescador nas horas vagas, dava duro para criar os cinco filhos.

O que preocupa seu Olegário são as brigas no bairro, especialmente na parte do morro habitada por famílias que vêm de fora. E o lado bom? São as amizades, a boa vizinhança, afirma. Da janela onde vê o mar e as montanhas do Continente, ele fica matutando sobre o passado de brincadeiras, as folias da juventude, as pescarias – e sobre o futuro do Figueirense, o clube do coração.

Gozador, insinua que melhor que agora era quando não tinha compromissos e ia aos bailes do clube Tropical, que ficava ali perto, onde se reuniam os jovens da Costeira. Ele e a mulher Dalva também sentiram a mudança que veio com o Bistek, porque naquele espaço havia uma chácara com muitas bananas, caquis e laranjas.

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