Publicidade
Domingo, 16 de Dezembro de 2018
Descrição do tempo
  • 31º C
  • 23º C

Os principais fatos da economia de Santa Catarina e do país com uma leitura descomplicada e acessível, evitando o “economês” e buscando sempre traduzir os assuntos mais importantes da área econômica para os leitores do ND. 

Victor Levy: "Não vamos ficar limitados a moedas"

O fundador e CEO da CataMoeda, Victor Levy, explica como a parceria com a Prosegur e inovações como o oferecimento de novos serviços e da operação com cartão vão fazer a empresa alcançar um novo patamar

Alessandra Ogeda

O paulistano Victor Levy, 42 anos, conheceu Florianópolis em uma viagem de férias quando tinha 16 anos. Ele saiu da capital paulista com um grupo de amigos, de ônibus, e ficou encantado com a cidade logo no primeiro dia. Após alugar um windsurf e ver o pôr-do-sol na Lagoa da Conceição, ele decidiu que, um dia, viveria em Florianópolis. Ele concretizou esse sonho em 2007 e, quatro anos depois, fundou a CataMoeda, empresa criada para solucionar o problema de troco do comércio.

Neto de uma referência nacional no empreendedorismo, Herbert Levy, fundador de diversas empresas, como o Banco da América, a Gazeta Mercantil e o Notícias Populares, Victor começou a ganhar o próprio dinheiro quando tinha 10 anos. Junto com alguns amigos, ele começou a tocar guitarra em festas nos finais de semana.

Ele seguia os passos de Herbert que, após perder os pais, virou menino de rua e, aos 13 anos, tinha "cinco bicos" para conseguir viver. "Ele carregava sacos no supermercado e foi o primeiro tradutor dos filmes de Hollywood porque sabia falar inglês fluentemente. Com 15 anos de idade, ele fundou a primeira agência de publicidade do Brasil, que foi vendida para a Leo Burnett muito tempo depois", recorda Victor. 

Mas os feitos do avô e principal inspirador de Victor não terminaram por aí: "Aos 16 anos de idade, com a Constituição de 1932, quando São Paulo ficou contra o resto do país, ele foi lutar. Foram morrendo os comandantes dele e, no final, quando tinha 17 anos, ele estava liderando 20 mil homens".

Depois que o Banco da América, que ele tinha fundado, se fundiu com o Banco Itaú em 1969, Herbert foi presidente do Conselho do Itaú por 20 anos, segundo o neto. "Ele escreveu 15 livros, foi preso na ditadura várias vezes, foi campeão brasileiro de natação e campeão sul-americano de pólo aquático. Ele fez o diabo", resume. Victor aproveitou bem o avô, com quem se encontrava duas vezes por semana, pelo menos: nas quintas-feiras à noite e no almoço de sábado. "Nós éramos muito próximos. Ele sempre foi uma fonte de inspiração", revela Victor. 

 

Depois de começar a ganhar o próprio dinheiro, aos 10 anos de idade, Victor Levy não parou mais. Aos 11 anos, fez a primeira viagem internacional, indo com um amigo para o Paraguai sem os pais saberem. Ele foi atrás de um pedal para guitarra e descobriu, na aventura, que poderia fazer o que quisesse. "Senti uma auto-confiança muito maior", recorda. Ele teve outros trabalhos e fez intercâmbio na Suécia antes de entrar na faculdade de Administração com especialização em Comércio Exterior.

Logo no primeiro ano da faculdade, Victor começou a trabalhar na área que estava estudando. Quando ele se formou, recebeu uma proposta para ir trabalhar nos Estados Unidos. Ele tinha 24 anos e topou. Dois anos depois, ele já era CEO (diretor executivo) da empresa nos Estados Unidos. "No auge da internet, eu quis ir para essa área e saí da empresa em que eu estava. Montei um projeto em 1999, logo antes do estouro da bolha (da internet), que foi em 2000", explica.

Com a crise no setor, o crédito minguou - "ninguém investia em nada, nem em projeto bom", recorda. Ainda assim, ele e outros sócios conseguiram montar o projeto da Advértica em três países: Estados Unidos, México e Brasil. A empresa oferecia dados de investimento publicitário por segmentação em tempo real com dados dos países da América Latina - algo disruptivo para a época. Não demorou muito para que uma empresa de capital aberto da Suíça investisse na Advértica. Após três anos, em 2003, Victor resolveu vender a empresa para um grupo mexicano.

Depois da experiência de sete anos nos Estados Unidos, Levy resolveu concretizar o sonho de morar em Florianópolis. Ele trouxe a mudança para a Capital catarinense mas, antes de fixar as bases na cidade, resolveu concretizar outro sonho: viajar pelo mundo. Para isso, ele comprou uma "passagem volta ao mundo" que incluía 17 destinos e deveria ter durado um ano. No final das contas, ele ficou três anos e meio viajando e passou por pouco mais de 60 países - hoje, ele já ultrapassou a barreira de 90 países visitados.

Nesta grande aventura, ele viveu momentos de arrepiar, como o tsunami na Tailândia e passou por uma rota até então proibida para estrangeiros no Tibet. Em 2007 ele fixou as bases em Florianópolis e, apesar de querer voltar a ser empreendedor, ele teve que retornar para o mercado de trabalho. No ano seguinte ele começou a atuar na Engevix. Levy primeiro assumiu a operação da empresa em Angola, como diretor geral, e depois, de volta à Florianópolis, atuou como responsável pela área internacional da Engevix.

Mas ele nunca deixou o sonho de voltar a empreender. "Eu só ficava pensando em quando e como eu iria fazer o meu próprio negócio", recorda. Em paralelo ao trabalho na Engevix, ele pesquisava qual das ideias que ele tinha visto em alguma parte do mundo poderiam dar mais certo por aqui, após serem adaptadas e repensadas. Da lista de cinco ideias finalistas, ele bateu o martelo no projeto de criar uma solução que facilitaria o troco no comércio.

A inspiração inicial veio dos Estados Unidos, aonde há 20 anos funciona a rede de máquinas Coinstar - que, atualmente, tem 19 mil máquinas distribuídas por solo norte-americano. "Mas o modelo de negócios deles é bastante diferente", garante. Para começar, quem deposita moedas em troca de cédulas paga comissão de 8,9% - enquanto a proposta da CataMoeda faz a troca sem cobrar nada. Quem escolhe trocar moedas por cupons de lojas virtuais como iTunes ou Amazon, com a Coinstar, não ganha nada, mas também não precisa pagar nenhuma taxa - as máquinas da CataMoeda, por outro lado, dão bônus para quem opta por vale-compras. 

Outro diferencial da solução brasileira é que a CataMoeda faz parceria com os estabelecimentos comerciais, que ficam responsáveis pelas moedas depositadas, enquanto a Coinstar aluga um espaço no varejo e faz a gestão dos depósitos. "Como a tecnologia deles (Coinstar) não servia para o Brasil, tivemos que desenvolver tudo do zero mesmo", explica Levy.

No final de 2011, o empreendedor deixou a Engevix e, junto com dois sócios, Paulo Bobillo e Alberto Russi, começou a desenvolver o projeto da CataMoeda. Eles tiveram que investir não apenas no software e na experiência do usuário da máquina, mas também no desenvolvimento do hardware (ou seja, da máquina em si). Com isso, o projeto levou mais tempo que o inicialmente planejado.

O primeiro protótipo saiu em 2012 e foi implantado em um supermercado pequeno de São Paulo. Mas o modelo estava inacabado e não funcionava direito. Mesmo assim, atraia as pessoas. "Com aquela máquina tivemos a comprovação que o modelo de negócios era bom. Foi uma validação importante", recorda. No ano seguinte, a primeira CataMoeda funcional foi instalada em maio no Supermercado Condor de Curitiba (PR) e, em outubro, o produto foi lançado comercialmente.

Com muitos gastos para o desenvolvimento do hardware, inclusive e especialmente da rede de fornecedores dos componentes para as máquinas, a CataMoeda precisou de mais capital. "Daí fizemos quatro rodadas de captação (de recursos), primeiro com investidores-anjo e, finalmente, com um fundo de investimento", explica Levy. Hoje, além de CEO da empresa, Levy é o seu maior acionista individual.

Hoje, 85 máquinas CataMoeda estão facilitando a vida dos usuários em 12 Estados do país. Mas a grande virada da empresa está apenas começando com uma parceria assinada com a Prosegur este ano. Com uma nova fábrica, a empresa de Levy vai entregar 60 máquinas por mês e lançar, até o final do ano, dois novos serviços - recarga de celular pré-pago e de cartões de transporte coletivo - e máquinas que aceitarão cartões de débito. Os passos seguintes serão criar o MeuCataMoeda e operar com máquinas fora do país.

Pai de Tomas, de três anos e meio de idade, e de Yuri, de pouco mais de um ano, Levy tenta manter uma rotina regrada - dentro do possível. Dois dias por semana ele passa viajando para São Paulo. No restante da semana, está na empresa em Florianópolis, aonde costuma chegar as 8h30 e sair pouco depois das 18h. O tempo livre é dedicado para a família mas, ainda assim, Levy não evita de levar trabalho para casa.

Depois de colocar os meninos para dormir, ele costuma responder e-mails da empresa, seguindo com negociações e contatos. "Como o tempo livre com filhos pequenos é restrito, tento ser o mais eficiente possível", resume. Nesta fase da CataMoeda ganhando maturidade e dos filhos ainda em desenvolvimento, Levy deixou o windsurf de lado. Mas ele segue nadando duas vezes por semana e, sempre que pode, fazendo caminhadas com a esposa ou nas viagens a trabalho. Confira, a seguir, a entrevista com o empresário:

A CataMoeda surgiu para resolver o problema da falta de circulação de moedas no mercado. Quantas máquinas já estão instaladas no país e em que Estados?
Hoje a gente está em 12 Estados. Começamos pelo Sul e fomos indo em direção ao Norte. O novo Estado (em que chegamos) foi o Amazonas. Hoje estamos com 85 equipamentos instalados em 43 redes.

Quando comentas redes, são de supermercados?
A maior parte é de supermercados, mas estamos, por exemplo, em um shopping importante de Belo Horizonte e em algumas redes de farmácias. Então assim, está se diversificando não só geograficamente, mas em termos de segmentos.

Interessante comentares isso, porque o começo foi em supermercado, não é? Quando vocês saíram deste ambiente e qual é o segmento do varejo mais promissor para crescer?
Começamos pelo Paraná, com a rede Condor, a maior rede de supermercados do Paraná. Nós começamos com eles porque tínhamos contato com o diretor financeiro da rede e ele manifestava a problemática que é essa questão da falta de troco. Ele falava assim: “Pôxa, um carro-forte que eu tenho que contratar da minha loja de Londrina para a de Curitiba para não deixar faltar moeda, se não os caixas param, é um custo absurdamente alto”. Então quando a gente apresentou esse modelo de negócios, ele ajudou a gente a lapidar até que finalmente a gente pudesse entregar um primeiro protótipo funcional. A meta era a seguinte: se a loja aonde a gente instalou do Condor, a sede deles, em Curitiba, se tornasse autônoma com relação a moedas em até seis meses eles iam considerar o piloto um sucesso.

E foi isso o que aconteceu?
O que aconteceu foi que em menos de um mês ela passou a ser exportadora de moedas. Então a gente sentiu que realmente tinha um certo apelo do que a gente estava propondo. Quer dizer, é um modelo de negócios novo e diferenciado para a população mas que dava alguns indicativos que os depositantes de moedas estavam aceitando muito bem. A partir do Paraná a gente retornou para casa, para Santa Catarina, começando no Angeloni de Florianópolis. Depois fomos para o Rio Grande do Sul através do Zaffari. Ou seja, sempre através de grandes redes que, de certa forma, dão uma certa credibilidade para o projeto.

 

Mas em que segmento você vislumbra um maior crescimento no futuro?

O nosso maior mercado está nos pequenos e médios comércios. Porque em temos unitários estamos falando em um universo muito grande. Só em termos de farmácias no Brasil, são 70 mil lojas. Então, qualquer market share pequeno relativo dentro disso já representa um número bastante alto.

 

Vocês já estão em negociação com alguma rede de farmácias?

A gente entrou agora em uma rede de farmácias de Belém, a Big Ben. Estamos até produzindo as máquinas que serão entregues neste mês (para eles). E já tivemos o interesse de várias redes negociando o CataMoeda. O que acontece é que há dois meses a gente assinou um contrato de parceria exclusiva com a Prosegur na qual eles passam a responder pela comercialização do CataMoeda no Brasil e fora do Brasil. Isso muda um pouco toda essa lógica porque o seguinte: até então, a gente tinha um braço comercial muito limitado. Somos poucas pessoas, porque somos uma startup baseada no Sul, então a gente muito mais tirava pedido do que ia atrás de potenciais clientes. Ainda assim, a gente tinha uma demanda reprimida, ou seja, a gente tinha mais demanda do que o que a gente conseguia atender.

E por que isso?
Porque até então o nosso modelo de negócios contemplava o seguinte: a gente tem o custo de ativação da máquina como um todo e como a gente alugava no mercado, ela demora um tempo para se pagar. E sendo uma empresa nova, a gente tem acesso a crédito limitado, então não conseguia financiar essa produção. Com a parceria com a Prosegur essa equação mudou completamente, porque ele resolve o nosso problema de fluxo de caixa, de faturamento e de capilaridade. Como? Fluxo de caixa porque agora ele compra as máquinas da gente, e antecipadamente. Então a gente não tem mais esse gargalo de caixa. Segunda coisa é faturamento. Eles se comprometeram, por mês, a colocar no mínimo 60 máquinas. Então você pensar que hoje a gente tem uma base instalada de 85 máquinas em pouco menos de dois anos da empresa, vamos aumentar essa conta rapidamente.

Quando vocês vão começar com essa instalação de 60 máquinas por mês?
A partir deste mês, de julho. Ou seja, a partir do momento que a gente entregar as primeiras máquinas. Talvez isso aconteça do final deste mês até o meio de agosto. Porque a gente teve que estruturar uma fábrica para atender a esse tipo de demanda. Nós estamos falando de dois anos com projeção de quase 1.500 equipamentos. A estruturação desta fábrica levou um mês e meio, foi bastante rápido, para dar vasão para estas 60 máquinas por mês. Passa a contar a partir do momento que a gente entrega essas primeiras 60 máquinas.

Bruno Ropelato/ND
O empreendedor Victor Levy se inspirou no exemplo do avô para, aos 42 anos de idade, trabalhar para fazer a segunda empresa criada por ele dar passos largos em direção à internacionalização

 

A principal fonte de renda, até esse momento, continuava sendo o aluguel das máquinas pelos estabelecimentos comerciais? A empresa tem outras fontes além desta?
Agora isso mudou. O importante disso é o seguinte: o terceiro elemento que eu tinha mencionado, a capilaridade. Demoraria um tempo muito maior para a gente conseguir ter um número grande destas máquinas instaladas pelo Brasil versus acelerado através desta parceria da Prosegur. O que nos permite a capilaridade? A partir do momento que a gente tem um número significativo de máquinas ativas dentro do varejo a gente cria uma coisa chamada Rede CataMoeda. Essa rede faz parte do nosso segundo momento, é uma virada de chave para monetizar a rede, na qual a gente começa a oferecer uma série de serviços via o equipamento e que a partir disso a gente tem receitas extraordinárias.

Aumentando essa capilaridade vocês vão poder desenvolver parcerias com empresas de telefonia e cartão de crédito, por exemplo. Esse próximo momento já está acontecendo?
Na verdade, assim: do ponto de vista de desenvolvimento, já está praticamente pronto. A gente tem dois serviços para serem lançados: a compra de crédito de celular pré-pago através dos equipamentos sem precisar pegar fila no PDV (ponto de venda), e o carregamento de cartões magnéticos de transporte. Existem 185 cidades no Brasil hoje que usam cartões magnético, incluída Florianópolis. A pessoa pode depositar qualquer valor fragmentado na máquina que aquilo vai entrar no crédito dela dentro do cartão magnético.

Nesse caso do cartão magnético do sistema de transporte público terás que fazer uma negociação com cada cidade que opera neste sistema?
Na verdade não. A gente fez uma parceria com uma empresa que é integradora deste serviço. A gente negocia com uma empresa que, na verdade, tem essa negociação com essas 185 cidades.

 

Quando esses novos serviços devem começar a ser oferecidos?

A gente imagina que em dois meses esteja pronto para lançar. Se for demorar mais, é por um bom motivo. Qual é esse outro motivo? A gente quer, além do meio de pagamento moeda, integrar um leitor de cartão de débito na máquina. Então esse leitor proporcionaria alguns tipos diferentes de transação em cima desse serviço. A gente está falando que não vamos ficar limitados a moedas, mas sem descaracterizar o equipamento que é a principal fonte de captação de moeda do varejo.

Com essa possibilidade de usar cartão no débito, as pessoas não vão precisar de deslocar para fazer a recarga do cartão do transporte público ou para o celular.
Isso. Por exemplo, no caso do celular pré-pago, são poucos os locais aonde você pode usar o cartão de débito, então você já tem um diferencial aí. E a segunda coisa é que fato de você não ter que entrar na loja e ter que disputar a fila com quem está comprando, simplesmente chegar no CataMoeda e fazer a transação, também tende a facilitar muito a vida.

Essa solução do cartão de débito vai demorar um pouco mais, mas esse ano ela chega no mercado?
Ah, com certeza. A nossa avaliação, nesse momento, é se a gente lança essas duas soluções sem o cartão de débito nos próximos 60 dias ou se a gente integra o cartão de débito para já lançar o pacote completo, e aí em quatro meses.

Com essa parceria com a Prosegur, vocês mudam o modelo de negócios da empresa. De que forma vocês estabeleceram essa parceria? Uma parte do aluguel das máquinas continua com vocês?
Primeiro, essas 85 máquinas que temos no mercado vão continuar com esses contratos (de aluguel), por enquanto. Então a gente vai continuar atendendo eles, fazendo com que a gente continue tendo uma receita recorrente destes contratos. A partir do momento que a gente fecha com a Prosegur, que foi maio, então muda o modelo de negócios, no qual a Prosegur paga antecipado pelos equipamentos e ela coloca para alugar no mercado. Lembrando que o canal serviços, que a gente chama de e-services, continua sob a nossa tutela. Ou seja, a gente define quais são os serviços que serão colocados, a gente implementa, e nesses serviços tem uma divisão de receitas entre nós, a Prosegur e o estabelecimento aonde essa renda foi gerada. Todo mundo ganha. No caso do aluguel dos equipamentos pela Prosegur, a gente, na verdade já faturou o equipamento. O que a gente tem é uma receitinha pequena, mas recorrente, para poder dar suporte técnico para a operação.

Até então vocês ganhavam com um aluguel fixo, independente do resultado da máquina?
Na verdade, tem um variável. A gente coloca um valor mínimo mensal, ou 5% do que for captado em moeda, o que for maior no mês.

O que o estabelecimento ganhava com esse modelo de negócios, antes do novo modelo com a Prosegur aonde todos ganham uma fatia do bolo?
Tem vários benefícios. O primeiro é que, de fato, um estabelecimento, seja ele gigantesco ou pequeno, sem moeda, o caixa para. Quando o caixa para, ele perde vendas. Eles tem esses percentuais. E outras vezes eles tem que arrendondar os valores para, justamente, não ter que dar troco em moedas. Tem o custo financeiro. Quando um cliente sai da loja porque o caixa está muito lento, ele eventualmente perde esse cliente. Do ponto de vista de marketing, ele tem que gastar muito mais dinheiro para recuperar esse cliente. Isso em termos de benefício da moeda. O que a gente faz com o CataMoeda é criar uma experiência nova da qual o depositante ganha todas as vezes. O brasileiro não está acostumado a isso. É uma coisa de ponta, do ponto de vista da tecnologia, e que ele ganha toda as vezes. Quando você faz isso, você cria uma fidelização de consumidores que ou já frequentavam a loja ou passaram a frequentar por causa do CataMoeda que é um benefício direto ao estabelecimento.

Há pessoas que não iriam utilizar aquele estabelecimento e que acabam indo por causa do CataMoeda?
A gente tem, no próprio equipamento, a possibilidade da própria pessoa responder uma enquete enquanto está fazendo o depósito. Então a gente sabe, aí, qual o percentual de pessoas que nunca iam a essa loja ou que raras vezes vão e que passaram a frequentar por causa do CataMoeda. Isso é por volta de 25%, o que é alto.

As máquinas da empresa permitem trocar as moedas por vale-compras, cédulas ou fazer doações. Qual é a participação de cada uma destas trocas no total?
Em termos de captação de moeda, a troca por cédulas é 80%. Por que o que acontece? Quando a gente introduziu a troca por cédulas, que foi no final do ano passado, teve uma explosão na captação de moedas. Isso porque é um perfil diferente. Nós temos dois perfis claros. Até então, a gente tinha a Pessoa Física, que é a pessoa que vai lá e que tem as moedas jogadas em um canto e que troca elas por bônus. A pessoa que troca por cédulas são pequenos comerciantes que moram ou trabalham próximo ao mercado e que utilizam o CataMoeda para trocar por um meio de pagamento muito mais fácil para eles.

Isso porque eles devem utilizar menos moedas e essa troca facilita para o fechamento do caixa, por exemplo.
Claro. Um exemplo: a primeira loja aonde a gente introduziu esse serviço foi uma loja em São Paulo de uma rede com 10 supermercados e assim, tem um supermercado ali e um posto de gasolina do lado, que é da própria rede. Então, no final do dia, chega o pessoal que é perueiro, o pessoal que pega lotação. Cada um é dono da sua perua lá. E o cara chega com um saco de moedas e que, até então, aquilo era um incoveniente para ele. Quando ele vê essa possibilidade de pegar essas moedas e transformar em cédulas de uma forma super conveniente, divertida e segura, então o cara passa a desovar as moedas todas ali. Isso realmente aumentou de cinco a seis vezes o volume de captação de moedas desde que a gente produziu essa mudança.

Então hoje 80% das moedas são trocadas por cédulas?
Isso em termos de volume captado. Agora, em termos de número de transações, tem mais depósito por bônus do que por troca de cédulas. O volume médio de depósito para bônus está por volta de R$ 18. Agora, o volume médio de um depósito para troca de cédulas está acima de R$ 65. Por isso que explica que, na verdade, você tem uma captação total maior do troca por cédulas, mas você tem um número de transações maior Pessoa Física por bônus.

Depois que você implantou essa troca por cédulas, qual é a tendência? A troca por cédulas vem crescendo mais que a troca por bônus?
Não. Os dois vem crescendo. Eles são completamente concomitantes, ou seja, eles vão em paralelo. São públicos que não se misturam. Então o nosso desafio, na verdade, é identificar muito bem cada um destes públicos e oferecer serviços que sejam interessantes para os dois.

Com essa nova parceria, qual é a expectativa de crescimento da empresa para este ano
Em 2015 o nosso crescimento vai ser por volta de 1.700%.

Essa já era a expectativa anterior de vocês? Esse crescimento vem da nova parceria. Ela já estava sendo esperada ou negociada há bastante tempo?
O que aconteceu foi o seguinte: a gente tinha lá um planejamento financeiro e a gente sabia que esse ano iríamos fazer uma rodada de investimento, de captação. Fazia parte do processo, um processo que se você tem uma receita recorrente, que era o nosso modelo de negócio, você precisa ficar investindo até ter o break-even (ponto de equilíbrio dos negócios) disso. Então, nenhum susto aí. O que acontece é que desde o lançamento do CataMoeda, há menos de dois anos, nós fomos abordados por algumas instituições, inclusive multinacionais, entre instituições financeiras e empresas de transporte de valores nos propondo alguma parceria estratégica.

E por que este tipo de empresa procurou vocês?
Porque a gente resolve um problema que eles não conseguem resolver e que é core business (parte central do negócio) para eles. A gente muito rapidamente se colocou em uma posição em que chamavam a gente para conversar.

Imagino que você teve que se segurar, porque estes interessados devem ter feito propostas ótimas para comprar a tua empresa.
Na verdade, no segundo mês a gente já recebeu uma proposta de venda da empresa para uma companhia de transporte de valores. No segundo mês. Porque a gente teve muita sorte pelo seguinte: a gente teve muita exposição na mídia, o que ajudou a acelerar o processo de divulgação do modelo de negócios, da marca e da captação de moedas.

Qual foi a melhor oferta que você recebeu e porque decidiste não vender a empresa antes, tendo essas várias ofertas?
Na verdade, era muito cedo. A gente achava que era muito cedo porque a gente ainda não conhecia o potencial, não conseguia nem estimar isso, por se tratar de um modelo de negócios novo. Eles também não. Então é muito difícil você chegar a um valor, quantificar no começo assim. Mas o que aconteceu depois é que alguns bancos, inclusive bancos internacionais, nos propuseram um tipo de parceria estratégica. Nesse caso não envolvia investimento, mas sim uma força comercial grande. Então a gente continuou com plano de captação de investimento, porque a gente precisava disso para poder crescer. Uma das pretendentes a investimento daí foi, de novo, uma outra multinacional de transporte de valor, que se interessou muito pelo negócio não só para o Brasil, mas para levar especificamente para a Europa, porque acharam que teria um fit muito bom lá. Só que o processo deles de investimento em startup não fica baseado no Brasil. Ele vai lá para os Estados Unidos, que é aonde fica a sede deles, eles tem uma equipe lá, então esse processo entra lá em uma máquina que é extremamente morosa.

Que não é o que vocês queriam, porque iria atrasar o crescimento de vocês.
Na verdade, a gente viu que a transação não ia ser feita no momento que a gente realmente precisava da transação. E nisso surgiu a oportunidade da Prosegur que, em um mês, fez toda a negociação. Ou seja, mostraram extrema agilidade, sem envolver ações, nesse momento, e que resolvia aquele tripé de faturamento, fluxo de caixa e capilaridade.

A maior oferta foi da Prosegur ou de outra empresa?
São ofertas diferentes. A concorrente, ou uma das concorrentes da Prosegur, ia fazer, na verdade, um investimento na empresa. Então não tinha essa parte, necessariamente, de número de colocação de máquinas no mercado. (Na outra oferta) a gente ia continuar com o mesmo modelo de negócios de receita recorrente através do aluguel para o mercado. Ou seja, provavelmente, mesmo com esse caixa, o nosso crescimento seria mais lento do que o proporcionado pela parceria com a Prosegur.

Para atender essa nova parceria, vocês fizeram uma nova fábrica. Qual foi o investimento feito ali e a capacidade de produção desta unidade?
Ela realmente começou a funcionar agora em julho. Essa semana ela está em pleno vapor. O investimento foi relativamente pequeno, porque é um aluguel de um galpão. Então fizemos algum investimento para melhorar o galpão, (gastamos) por volta de R$ 50 mil. Mas o investimento mesmo é em pessoas. Até então a gente fazia a montagem final (das máquinas), o que continuamos fazendo. Nós envolvemos todos os componentes da máquina, hoje temos sete patentes, é uma tecnologia que não existe em nenhum outro lugar.

Mas para fabricar uma máquina vocês trabalham com diversos fornecedores.
Diferentes fornecedores de um parque industrial que vai de Santa Catarina até o Rio Grande do Sul. E esses fornecedores enviam os componentes para a gente. Daí fazemos a montagem final, embarcamos inteligência e fazemos testes. Isso é como funciona hoje. Como é que funcionava até então? Exatamente esse mesmo processo, só que a gente tinha pegado uma montadora terceirizada perto de Blumenau para fazer a montagem dos equipamentos. Agora, contratamos seis pessoas para a fábrica. É uma operação razoavelmente enxuta. Nossa capacidade hoje é de 60 a 100 máquinas por mês, mas ela pode ser ampliada a curto prazo.

O foco vai ser continuar inovando com a CataMoeda ou a empresa prepar alguma nova invenção para logo mais?
A gente quer usar essa estrutura física do CataMoeda que está em várias redes varejistas espalhadas pelo  Brasil, inclusive em cinco dos 10 maiores supermercados do Brasil, utilizar essa estrutura física para entregar serviços inovadores. Então nós temos o melhor dos dois mundos hoje, porque temos a presença física e a partir dela a gente distribui serviços que são totalmente escaláveis. Então tanto faz se você tem 100 máquinas, 1.000 ou 10.000 máquinas... você aperta um botão e todas as máquinas são atualizadas com aquele serviço. Então toda receita que entra é margem. O teu custo é muito pequeno para fazer isso. Então o nosso plano é monetizar essa rede, alavancar a nossa presença física nas redes para oferecer serviços inovadores, e que, de novo, dentro da filosofia de que sempre beneficie o consumidor, o depositante de moeda. Se antes era porque ganhava bônus, por causa da conveniência, agora é por ter meio de pagamento que ele não tem normalmente e não precisa pegar fila, uma série de outros benefícios. A nossa inovação vai por aí. Aonde a gente quer chegar? Em um negócio chamado MeuCataMoeda.

O que seria esse outro negócio?
O MeuCataMoeda tende a se tornar um meio de pagamento. Então a pessoa vai chegar no equipamento, depositar moedas, se identificar, e aquilo vai para a conta virtual da pessoa. Então ela pode chegar na web ou no aplicativo do celular e ver como vai gastar aquele saldo. Esse é o nosso objetivo para o ano que vem.

Neste caso, não poderias fazer tudo isso virtualmente, independente da máquina, a partir do momento em que tu tem outras formas de débito como o uso de cartão?
Na verdade a gente quer alavancar a presença física da máquina, que este é o diferencial. A pessoa quando está passando ali no caixa de um supermercado, ela está vendo o CataMoeda. Então essa pessoa... a gente pretende fazer esse acordo com as redes, que se essa pessoa, se ela quiser abrir mão do troco na hora de pagar no caixa, ela simplesmente se identifica e aquilo também é captado para a conta virtual do MeuCataMoeda. Então tem várias formas de captação de saldo na qual, para o estabelecimento comercial isso é fantástico porque, por um lado, a gente gera numerário através do equipamento, e por outro lado ele abre mão de gastar numerário quando a pessoa troca o troco pelo MeuCataMoeda.

Publicidade
Publicidade
Publicidade