Publicidade
Sexta-Feira, 24 de Novembro de 2017
Descrição do tempo
  • 26º C
  • 18º C

Os principais fatos da economia de Santa Catarina e do país com uma leitura descomplicada e acessível, evitando o “economês” e buscando sempre traduzir os assuntos mais importantes da área econômica para os leitores do ND. 

Leandro Berti: "Queremos continuar sendo pioneiros"

O secretário executivo do API.nano, o Arranjo Promotor de Inovação em Tecnologia de Santa Catarina, comenta sobre o crescimento do setor no Estado e sobre as iniciativas pioneiras do grupo no país

Alessandra Ogeda
12/03/2016 08h00

O catarinense Leandro Berti, 36 anos, descobriu o que queria fazer para o resto da vida quando leu uma revista Superinteressante em 1998. No meio daquela edição decisiva ele encontrou uma notícia curta sobre nanotecnologia e que citava o cientista Eric Drexler. A internet no Brasil ainda era discada, mas Berti conseguiu encontrar o e-mail de Drexler e começou a se corresponder com ele. De lá para cá o catarinense de Criciúma nunca desistiu de trabalhar com a ciência que ele e muitos outros acreditam que vai revolucionar o mundo muito mais que a informática.

Hoje Berti atua como secretário executivo do API.nano (Arranjo Promotor de Inovação em Nanotecnologia) que lidera o desenvolvimento do setor em Santa Catarina e que está liderando algumas discussões importantes e pioneiras no país, como a segurança envolvendo as experimentações na área. De acordo com Berti, hoje Santa Catarina concentra o maior número de empresas que investem em nanotecnologia no país. Uma das próximas fronteiras do API.nano é conseguir apoio para estabelecer um Centro de Inovação em Nanotecnologia em Florianópolis. 

 

O secretário executivo do API.nano morou em Criciúma, sua cidade natal, até os 17 anos. Lá ele estudou em uma escola administrada por freiras antes de fazer o ensino médio no Colégio de Aplicação da Unesc. "A lógica era de liberdade com responsabilidade. Você tinha voz, podia falar, e lá eu desenvolvi melhor o raciocínio e a minha iniciativa. Muitas aulas eram mais debates do que aulas propriamente", recorda. 

Esse espírito independente e de correr atrás dos próprios sonhos fez Berti mudar-se para Florianópolis para fazer a faculdade recém-criada de Engenharia da Computação na Univali. O gosto pela informática veio no ensino médio, quando Berti começou a "brincar com programação" em casa nas horas vagas entre os estudos. Ele começou na faculdade em 1997, quando se despediu das férias. "Comecei a trabalhar nas férias sempre com algo ligado à informática, como fazendo cabeamento de rede e instalação de internet", comenta.

Trabalhando para diversas empresas no período, Berti buscava, com isso, não apenas ter o seu próprio dinheiro, mas também aprender o que ele não tinha como ensinamento na universidade. Um ano depois de estar em Florianópolis, em 1998, é que ele leu aquela notícia na Superinteressante sobre nanotecnologia. "Mandei e-mail para o Eric Drexler naquele mesmo ano e ele me respondeu dizendo 'Olha, realmente não tem nada ainda, vocês estão no começo com a nanotecnologia e aqui nos Estados Unidos nós também'. E foi assim que eu comecei a trocar e-mails com ele, um dos precursores da nanotecnologia", recorda Berti.

Na mesma época o catarinense também descobriu o e-mail de outro precursor nesta área, Ralph Medley, e eles trocaram algumas mensagens. Ao comentar estas trocas de e-mail com um professor da universidade, o mestre disse que Drexler e Medley estavam respondendo "por pena" e que era uma bobagem Berti querer trabalhar com nanotecnologia. "No Brasil, em 1998, não se falava de nanotecnologia. Mas eu fui desenvolvendo e pesquisando por minha conta", explica.

Naquela época Berti tinha claro que mais que trabalhar com nanotecnologia, ele queria trabalhar com nanomedicina. "Algo muito mais avançado e que hoje em dia, ainda, as pessoas estão começando a trabalhar", observa. Procurando um lugar onde pudesse trabalhar com algo próximo disso, Berti descobriu uma equipe na UFSC que estava trabalhando com informática médica. 

Durante quatro anos Berti trabalhou com a equipe da UFSC elaborando softwares de reconhecimento de padrões para a área médica. "Fiz o meu TCC (trabalho de conclusão de curso) em parceria com a Nano Endoluminal de um software que analisava o aneurisma da artéria aorta para então construir uma prótese. Foi legal, bacana, e eu ganhei um prêmio da empresa e fui para a Alemanha", narra.

Por ter sido reconhecido por ter feito o melhor trabalho para a Nano Endoluminal, Berti ganhou a possibilidade de mergulhar durante quatro meses em laboratórios de pesquisa na Alemanha. "Fiquei lá esse tempo e voltei muito desanimado com o Brasil porque aqui as coisas não funcionam. O ônibus não chega no horário e essas coisas. É um choque (voltar)", recorda. 

No retorno para Florianópolis, Berti começou a trabalhar na Ionics, empresa que trabalha com automação. "Em quatro meses eu fui convidado para ser chefe de engenharia. Junto com um colega, tocamos o projeto por um ano, até 2005. Neste período eu também fiz algumas consultorias para outras empresas, mas eu queria mesmo era trabalhar com nanotecnologia", conta.

Inicialmente o engenheiro pensou que já tinha perdido muito tempo, mas pesquisando a respeito ele descobriu que estavam estudando nanomedicina em New Castle, na Inglaterra. "Larguei tudo no Brasil e me joguei para a Inglaterra sem ter o mestrado aprovado. Não conhecia uma viva alma por lá, fui para um lugar que eu não conhecia e comi o pão que o diabo amassou. Trabalhei vendendo sanduíche e fiz várias coisas para me manter lá e encher os professores até que eles me aprovassem", recorda.

Eles aprovaram Berti para o mestrado, mas lhe disseram que a apenas a inscrição lhe custaria 16 mil libras - uma pequena fortuna que ele não tinha para pagar. Algo positivo daquela fase foi a participação do catarinense em diversos eventos sobre nanotecnologia - afinal o sonho dele não estava tão distante. "Foi muito bom o aprendizado e eu decidi que eu iria tentar estudar em outro lugar e que iria conseguir. Passei um ano de dificuldade, me inscrevi em várias empresas e até passei fome, até que me inscrevi em uma oportunidade do Google", explica.

Depois de diversas etapas de testes, Berti passou na seleção da gigante de tecnologia, mas acabou desistindo da vaga porque ele teria que se mudar para a Irlanda. Na sequência ele encontrou o nome do professor Schaefer e foi procurá-lo com um currículo e uma carta de apresentação dizendo que queria trabalhar com nanotecnologia. O professor ficou impressionado com as pesquisas que Berti já tinha feito até aquele momento e prometeu dar uma resposta para ele em um mês.

Passado esse período, o catarinense recebe um e-mail de Schaefer dizendo que ele deveria passar na secretaria para fazer a inscrição para um doutorado que seria dividido entre os departamentos de Química e Física e que estava todo pago. "Comecei o doutorado como bolsista do Conselho de Pesquisa de Engenharia e Ciências Físicas da Inglaterra e mais o departamento de Química no final de 2006", conta.

O catarinense, orientado por Anthony Ryan e por Richard Jones, desenvolveu junto com eles uma teoria de como se movimenta um nanomotor em nanoescala. "Nos baseamos em como uma bactéria se movimenta e modelando tudo isso com matemática e física avançada. Com isso descobrimos como se modelar um nanorobô de verdade", explica. Em 2010 Berti acabou o doutorado e voltou para o Brasil para ficar próximo da família. 

Nos primeiros anos ele lecionou em diversas universidades particulares de Santa Catarina até que, novamente, sentiu falta em apostar na nanotecnologia. Em 2013 ele participou do segundo simpósio sobre nanotecnologia de Florianópolis, onde seria implantado o API.nano. "Vim para o evento desacreditado, porque eu não tinha conseguido fazer nada na área no Brasil, mas comecei a conversar com as pessoas e fui ouvido", recorda. 

As conversas renderam um convite de trabalho de uma empresa e outro do Senai de Minas Gerais. "Mas o professor (Carlos Alberto) Schneider foi mais rápido e me contatou na sequência pedindo o meu currículo para começarmos o processo (para ser contratado pelo API.nano). E só melhorou desde lá", explica. Depois de ser contratado, Berti teve o nome submetido para os participantes do comitê de gestão que escolheram ele de forma unânime como secretário executivo do projeto. 

Hoje o catarinense fascinado pelo potencial revolucionário da nanotecnologia procura ter uma rotina regrada no API.nano que funciona dentro da Fundação Certi. Normalmente ele chega no local as 8h e sai de lá as 18h, mas sem fugir da sina de quase todo empresário e apaixonado pela própria área de atuação que é trabalhar em casa em alguns finais de semana e horas vagas em dias úteis. Entre uma a três vezes por mês Berti viaja para São Paulo para articular ações com empresas e universidades, além de participar de eventos da área. 

No tempo livre ele gosta de assistir a filmes - Berti se reconhece como um "viciado em cinema" - e, eventualmente, de jogar basquete. Quando morava em Criciúma ele chegou a jogar basquete representando a cidade. Atualmente, contudo, lhe falta uma rotina de exercícios físicos - algo que ele quer resolver em breve. Casado com Fernanda, ele espera com ela o primeiro filho do casal. Entre seus desafios à frente do API.nano está o de fazer a iniciativa manter-se apenas com recursos próprios.

Atualmente quem dá o suporte e o apoio principal para o API.nano é a Fundação Certi. "Às vezes temos algum aporte de projetos através da Fapesc, mas precisamos de mais recursos", complementa. Faz parte desta busca por outras fontes de recursos o trabalho na área de nanosegurança que tem, entre outras possibilidades, articulações internacionais em andamento. "Queremos criar projetos maiores para que o API.nano tenha sustentabilidade em um tempo mais largo. Para isso estamos conversando com a União Europeia e a Alemanha para construir esse projeto guarda-chuva", adianta. Confira, a seguir, a entrevista com o secretário executivo do API.nano feita esta semana na Fundação Certi:

 

Santa Catarina é o Estado do país com o maior número de empresas que trabalham com nanotecnologia. Como chegamos a esse patamar?

Com bastante trabalho e com bastante esforço. Inicialmente o API.nano começou com 30 membros em 2013, mas rapidamente foi ganhando força. A ideia foi que o API.nano fosse criado só para trabalhar dentro do Tecnópolis, ou seja, da Grande Florianópolis. Mas o sucesso foi tão grande que ele começou a sair do Estado, abarcando empresas que não eram do Estado. Nós tivemos a oportunidade de sediar um evento de porte nacional do governo federal, o mais importante de tecnologia, que foi o "Workshop Nanotecnologias: da ciências ao mundo dos negócios", feito na Fiesc. E, desde lá, o grupo, o cluster, só aumentou. Hoje somos 102 membros no Brasil inteiro, com empresas de vários portes, de multinacionais até empresas de pequeno e grande porte, e associações empresariais, como a Abit (Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção) e a Abrafas (Associação Brasileira de Produtores de Fibras Artificiais e Sintéticas). Conseguimos movimentar bastante em pouco tempo, o que é bastante gratificante, porque a gente tenta fazer com que o governo acelere o processo mas a gente consegue acelerar mais rápido, como somos privados e não temos essas amarras, conseguimos desenvolver.

 

Destas 102 empresas e entidades afiliadas, quantas são de Santa Catarina? E que cidades do Estado teriam mais desenvolvida a nanotecnologia?

Das 90 empresas do Brasil, 40 fazem parte do API.nano. Destas, 26 estão em Santa Catarina e a maioria está concentrada em Florianópolis. Temos empresas importantes em Joinville, como a Ciser e outra empresa que trabalha a parte de odontologia. Tem a BM4, em Palhoça, que trabalha com odonto também. Você tem a Nanovetores, aqui em Florianópolis, que trabalha com a parte de cosméticos e que é muito conhecida também. Você tem a TNS que trabalha com antimicrobianos e que é muito conhecida e é de Florianópolis. Você tem empresas usuárias, como a Malwee, que trabalha junto com a Nanovetores. Você tem a Coteminas. No Brasil você tem também o Grupo Solvay, que é a Rhodia, que participa do API.nano também. Aqui você tem a Cetarch, em Criciúma, que trabalha com cerâmica e vende essa nanocerâmica para a Vale, Votorantim e Anglo American. Tem vários setores, mas a grande concentração fica em Florianópolis mesmo.

 

Como vocês conseguiram crescer tão rápido nas afiliações ao API.nano e por que o crescimento da nanotecnologia como setor em Santa Catarina e no país?

O que faz crescer a nanotecnologia é, à princípio, a curiosidade. Como isso funciona? E aí depois você vê que o resultado é tão surpreendente, é tão expressivo, que você vai conseguir vender um produto de melhor qualidade e diferenciado do teu concorrente. Então ela realmente serve como uma ferramenta para se distanciar do concorrente. São vários exemplos, mas vou te dar um: a TNS recentemente fez um produto que incorpora os agentes antimicrobirianos nas panelas da Oxford. Então uma panela da Oxford vai vender diferente das panelas das que não tem antimicrobirianos. Você tem a Nanovetores que faz N tipos de insumos com nanotecnologia e faz uma roupa para a Malwee que dá mais conforto na hora do exercício físico. Os resultados são muito surpreendentes e expressivos realmente. Uma outra faceta disto é que Santa Catarina tem um programa muito importante para o surgimento de novas empresas e que está contribuindo bastante que o Sinapse da Inovação.

 

Qual é o maior efeito do Sinapse da Inovação para o setor?

Esse (programa) está trazendo outras empresas de nanotecnologia. Dele nasceu a Nano Scoping, que faz parte do API.nano, que trabalha com fragrâncias, ou seja, liberação de fragrâncias de forma controlada usando polímeros biodegradáveis e outras matrizes de materiais. É um pessoal que está fazendo um negócio diferente e está contribuindo cada vez mais para esse setor. Não posso deixar de falar de outras empresas que temos aqui, que são recentes e que estão tentando começar, como a ADNano, que está trabalhando para desenvolver amortecedores inteligentes. Então você tem várias vertentes e a nanotecnologia é muito transversal, então uma empresa que trabalha com antimicrobiano pode trabalhar com detecção de bactéria, com tratamento de efluentes, então você consegue aplicar em diversos fatores. Essa é a mágica da nanotecnologia, porque ela é muito adaptável.

 

Toda empresa que pensa de que forma ela poderia usar a nanotecnologia deve se perguntar o quanto isso custa. Apesar do uso variável desta tecnologia, é possível estimar o custo dela? Em quanto tempo se consegue um retorno?

Olha, não tanto quanto se imaginaria. Vou dar dois exemplos, da TNS e da Nanovetores. Eles conseguiram desenvolver um produto novo em seis meses. Não é um tempo muito longo. E o custo também não é muito alto. Mas para montar uma empresa de nanotecnologia o que é caro é equipamento e laboratório. Isso é caro. Essa é a maior barreira para quem está querendo empreender em nanotecnologia, é ter o espaço e os recursos necessários para poder trabalhar. Você pode utilizar instalações da universidade mas, por exemplo... vamos pegar o exemplo da Ciser.

 

Mas utilizar a infraestrutura da universidade não é complicado porque o espaço é compartilhado para aulas e outras atividades?

Exato. Você tem essa concorrência. Acelera o processo se você tem um negócio próprio. Vou te dar um exemplo de custo. A Ciser tem um produto que ela passa nos parafusos que permite que ele não enferruje. Esse produto vai custar R$ 0,10 a cada 100 quilos, por exemplo. Depende muito da aplicação, mas é nesse nível. Nem sempre é proibitivo e muitas vezes não é.

 

O investimento inicial, então, é que é a principal barreira para novas empresas de nanotecnologia?

Quem paga a conta, na realidade, é o empreendedor, porque é ele que tem que desembolsar muito mais recurso para poder chegar neste nível que eu estou falando. Então a TNS vai fazer um produto que ela consegue rapidamente integrar na solução do cliente porque ela já tem uma plataforma de conhecimento, de desenvolvimento e é algo que evolui rápido. Porque você ter um produto e desenvolver para outro é mais rápido. Mas você chegar ao nível em que chegaram a TNS e a Nanovetores requer muito investimento. E é isso que a gente bate na tecla e continua solicitando para o governo que olhe para isso com carinho, invista nisso de verdade porque a gente precisa desse recurso para poder transformar estas empresas, estas startups, ou pelo menos iniciar esse desenvolvimento com maior vigorosidade. Porque a gente realmente precisa destes recursos. É um período aonde você ainda não produz mas está desenvolvendo a tecnologia que vai ser um grande diferencial. Então a nanotecnologia tem um aspecto diferenciado das outras empresas. Por exemplo, fazendo uma comparação rápida, o pessoal que trabalha com informática com um computador e uma salinha está tranquilo, resolve todo o problema dele. A nanotecnologia não pode, não dá para fazer isso porque trabalha com materiais, trabalha com materiais a nível subcelular, submolecular, então é uma coisa que você tem que ter capacidade para fazer isso. Se você não tem a capacidade você não consegue sair do chão.

 

Não ajudaria a resolver esse problema uma incubadora ou um espaço de uso compartilhado de laboratórios e equipamentos para uso de um grupo de startups?

Sem dúvida. E é o nosso pensamento, na realidade. Nós temos o planejamento de criar um centro de inovação em nanotecnologia que ele suporte em questões que são complementares ao que a universidade já faz. Então temos essa ideia de criar um centro de inovação no Sapiens Parque para dar suporte a estas empresas tanto na questão de nanosegurança, que é um dos tópicos que a gente está trabalhando bastante, como no escalonamento da produção, ou seja, você pega um produto em laboratório, que está em uma condição muito incipiente ainda, e você transforma em um produto em larga escala. E tem também a questão do meio ambiente, de análise de risco, todas estas questões estarão ligadas neste centro. Então isso a gente pretende fazer desta forma, ajudar estas empresas a conseguir decolar.

 

E ao redor desta estrutura seria fomentado um grupo de novas empresas?

Teria um grupo de empresas. O formato de como vai ser constituído a gente ainda não tem. Como quem vai ser patrocinador, isso não definimos ainda.

 

Em que fase está este projeto? Está bem na fase embrionária ou vocês já tem uma data para ele se tornar realidade?

Está na fase conceitual. Mas a ideia é que ele abrigue também uma incubadora, que abrigue o API.nano como uma rede, porque ele é uma rede, um cluster, e que abrigue todas estas iniciativas de nanotecnologia para conseguir desenvolver melhor isso tanto em Santa Catarina como no Brasil. O que a gente vem enxergando é que o API.nano vem se destacando. Hoje no Brasil ninguém mais além de nós está trabalhando com nanosegurança, por exemplo, então estamos sendo pioneiros e trabalhando para conseguir alcançar cada vez mais esse status de pioneirismo.

 

Existe alguma perspectiva de tornar realidade esse projeto agora em fase conceitual?

Ainda não. Nós temos um prazo de cinco anos e estamos articulando com governo federal e o governo estadual. Nós estamos conversando e vem sensibilizando as autoridades para que eles enxerguem isso como um potencial e um diferencial para Santa Catarina e que vai trazer um crescimento industrial muito importante para o Estado e para o Brasil.

 

Desde que o API.nano, o Arranjo Promotor de Inovação em Nanotecnologia foi criado, quais foram as principais conquistas desta iniciativa?

Primeiro esse espaço de nos tornarmos uma referência no Brasil. Nós hoje... vários eventos no Brasil e várias oportunidades estão surgindo para a gente divulgar cada vez mais o API.nano. Nós fomos convidados, no ano passado, para organizar um painel de novos materiais de nanotecnologia dentro da SAE Brasil, uma sociedade grande de engenheiros automotivos, bastante conservadora no aspecto de indústria, e abriu essa oportunidade para a gente falar. Foi bacana, tão bom e tão bem recebido que o diretor geral e o presidente da SAE nos convidaram para participar do comitê de novos materiais recém criado. Então abrimos uma frente muito importante em um dos setores que mais contribui para a economia brasileira, que responde por em torno de 22% do PIB nacional. Então a gente vem conquistando esse espaço, o que é muito importante, e nós ajudamos, no ano passado, o pessoal da feira a fazer o evento.

 

Qual foi o envolvimento de vocês para que a feira fosse realizada?

Então não fizemos a feira propriamente dita, mas ajudamos nos bastidores levando gente, incentivando os próprios idealizadores a ponto de dizer que ia dar certo, que valia fazer. “Ah, mas não temos empresas suficientes”, eles disseram, e nós dissemos que tínhamos sim. Chegou ao ponto de, quando chegou a feira, e teve um apoio muito bacana e generoso da CVMM, que nos concedeu patrocínio para construir o estande, porque o API.nano não tem recurso próprio, tem apenas apoio da Fundação Certi, mas não tem um fluxo de caixa, conseguimos que 80% da feira, dos empresários, eram do API.nano. Então realmente marcamos presença. Isso foi em São Paulo e a maioria era do API.nano. E aqueles que não eram do API.nano começaram, na feira, a pedir para participar. Então foi muito bacana e uma satisfação, uma conquista, ter essa possibilidade de chegar na primeira feira nacional e ter 80% dos membros do API.nano.

 

Isso mostra a força de vocês, até porque ninguém mais está fazendo esse trabalho no país, não é mesmo?

Exatamente. O que acontece hoje é que você tem muita iniciativa na área de pesquisa. E cada um tem que fazer aquilo em que é melhor, na realidade. Então damos todo o apoio para o pessoal da pesquisa, como na UFSC você tem o CIS.nano, laboratório de pesquisa que faz parte deste grupo e eles fazem pesquisa. E nós incentivamos eles a fazer pesquisa. Só que o nosso negócio é desenvolvimento industrial. Tanto é que estamos sendo reconhecidos que o secretário de inovação do MDIC em 2013, quem estava lá era o (Nelson) Fujimoto, ele declarou na reunião que tivemos que o API.nano é o modelo para o desenvolvimento industrial da nanotecnologia no Brasil. Então conseguir um respeito deste de um ministério já é muito importante.

Daniel Queiroz/ND
Leandro Berti perseguiu o sonho de trabalhar com nanotecnologia, o que o fez estudar com ícones da área na Inglaterra e liderar, agora, o movimento de fomento do setor no país

 

Quais são as áreas de pesquisa e os segmentos aonde a nanotecnologia está avançando mais no Brasil e em Santa Catarina?

No Brasil nós estamos vivendo ainda a questão de que a gente não desenvolve tanto nanosensores. A nanotecnologia tem vários estágios. Você trabalha com materiais primeiro, depois com dispositivos e finalmente com máquinas. É uma evolução natural. Hoje o Brasil trabalha muito com nanopartículas e nanomateriais. Está muito neste quesito. É a parte inicial. Então hoje a Nanovetores trabalha com nanopartículas, TNS também, a BM4 trabalha com nanomaterias, nanopartículas. Você tem a Ciser, que trabalha com coating, que são revestimentos. O segundo estágio seria nanodispositivos, que são um pouco mais avançados, como nariz eletrônico, sensores diversos, já começa a entrar em uma questão de mobilidade em escala que não é uma coisa que está sendo vista no Brasil ainda.

 

Este segundo estágio, imagino, que envolva integração de soluções, não?

Sim, com certeza. Você tem um conjunto, porque você depende da característica de um material e da funcionalidade dele em escala para ser nano de fato. Então a gente ainda está caminhando. Não temos empresas no país que estejam indo para esse segundo estágio. Mas existem iniciativas de empresas tentando chegar em um ponto de integrar isso (nanopartículas) com máquinas, que não são dispositivos ainda, mas é um estágio um pouquinho mais avançado do que apenas a questão das nanopartículas. Mas se você comparar com hoje no mundo, você tem no mundo exemplos como a de uma pessoa em Israel que desenvolveu nanorobôs que entregam drogas para tratamento de câncer em ordem específica. Ou seja, você tem várias drogas dentro de um nanorobô, que é muito mais parecido com bactéria do que com nanorobô de fato, é feito com DNA inclusive, e ele abre a comporta de acordo com o estímulo externo que tem aonde está o câncer. Ele já testou em rato e o cara conseguiu contrato com a Pfizer para fazer esse medicamento.

 

Que outros exemplos são inspiradores nesta área?

Você tem na Holanda um pessoal que desenvolveu uma nanopílula que você engole e vai captando informações do DNA da pessoa e passa no celular as informações que você tem de doença no DNA. Esse é o tipo de estágio de desenvolvimento fora do Brasil, mas a gente também tem capacidade de fazer isso no Brasil. Por exemplo, saiu outra reportagem que o Japão desenvolveu alumínio transparente com nanopartículas. Você tem uma empresa em Santa Catarina em Criciúma, por exemplo, que tem capacidade de desenvolver esse material. Eles só não conseguem desenvolver esse material ainda por que? Porque eles não tem o ferramental e o equipamento necessário. É um forno diferente, algumas questões que a gente não consegue ter tanto acesso como eles tem lá fora. Mas nós temos a capacidade de fazer isso no Brasil. Isso que é o importante. Que a gente tenha essa capacidade, só que a gente precisa de mais incentivo. Mais um empurrãozinho.

 

Um dos objetivo do API.nano é aproximar as pesquisas feitas nas universidades do mercado. Em termos de pesquisa também estamos na primeira fase?

Em pesquisa sim. Você tem pessoas no Brasil desenvolvendo nanosensores, nanoeletrônico... se não me engano foi a Embrapa que começou a desenvolver alguma coisa a respeito disso. Você tem pessoas mexendo na molécula de placas fotovoltaicas, como o laboratório aqui do professor Rambo que desenvolve a molécula. Ele trabalha na molécula pela ela absorver melhor a energia solar para depois isso virar um material, um filme como o desenvolvido pela 3M com nanopartículas. Mas para isso a molécula tem que estar otimizada a ponto de coletar a luz de forma inteligente. Você tem isso, assim como tem gente trabalhando com OLED, com grafeno... vimos agora a instalação do Centro de Pesquisa Nacional de Grafeno na Mackenzie, em São Paulo, que foi inaugurado na semana passada e que visa o desenvolvimento de baterias, células combustível com grafeno e muitas outras coisas, então é algo bastante interessante. É parceria, se não me engano, com o pessoal de Manchester para desenvolver grafena no Brasil. Então existem iniciativas, mas elas são pesquisas. Vai levar um tempo ainda para chegar no mercado.

 

Com o Real desvalorizado e com o potencial de crescimento do Brasil a longo prazo muitos estrangeiros estão olhando mais para o nosso país e para Santa Catarina. Em que áreas da nanotecnologia poderíamos atrair mais investimentos?

Olha, temos várias opções. A Nanovetores já deve estar comercializando para mais de 18 países. A TNS ainda não se internacionalizou, mas está a caminho de fazer isso. Então, realmente, a nossa tecnologia está barata para o pessoal de fora. A área de cosméticos, por exemplo, é bastante promissora porque o Brasil é um grande consumidor de cosméticos. Isso é bastante interessante, assim como alimentos com nanotecnologia, como os funcionais com nanotecnologia. Existe até um movimento de iniciativa de empresa de fora de Santa Catarina querendo trabalhar em empresas catarinenses para desenvolver isso. Existe uma conversa para isso que está em andamento. Há também a questão de antimicrobirianos, que a TNS tão bem integra em vários produtos, como isopor, plásticos, areia de gato para identificar se o animal está tendo infecção ou não... tem o segmento de medicina veterinária, que é uma outra vertente que está surgindo e é bastante bacana. Tem o começo de iniciativas para trabalhar com controle, por exemplo, da prenhez da égua, com um controle melhor de natalidade destes animais. Está iniciando agora. Você tem a questão do setor automotivo. 

 

O que está sendo desenvolvido no setor automotivo e que pode interessar a investidores?

Posso falar particularmente (disso) porque é uma startup que nós temos e que estamos tentando conseguir investimento para desenvolver fluídos inteligentes, com os quais você consegue melhor controle de amortecimento, você consegue aplicar isso também na área de energia, melhorando em 30% a questão do uso da energia no transformador, por exemplo, então você vai ter uma economia muito superior do que o transformador que você utiliza hoje. E você não vai, por exemplo, se eu começar a utilizar sistemas mais energeticamente eficientes, construir uma outra Belo Monte ou uma outra Itaipu. Usando de forma mais inteligente os recursos que a gente tem utilizando a nanotecnologia. A gente é capaz e consegue fazer isso. Como a Ciser com os parafusos querendo desenvolver outras soluções. Então é um ecossistema, na verdade. Os países de fora, como na área têxtil, é muito importante no Brasil também, conseguimos levar um pesquisador da rede para trabalhar com o pessoal nos Estados Unidos no expoente na área têxtil com nanotecnologia com células-combustível. Com essa capilaridade você pode trazer tanto Alemanha, França, Holanda que é um parceiro bastante interessante... a Holanda tem um desenvolvimento muito interessante na área de nanosegurança. É o país que coordena a nanosegurança no mundo, um dos maiores. Holanda é interessante, assim como Dinamarca, onde a gente já identificou um pessoal que trabalha muito forte nessa área de nanosegurança.

 

Essas conversas com outros países já começaram ou ainda é preciso uma aproximação maior?

Precisa ainda uma aproximação maior, mas com alguns países nós já conversamos. Algumas foram oportunidades que tivemos durante a feira de nanotecnologia. Foi muito importante esse evento porque ele trouxe as atenções para Santa Catarina. Tem empresas do API.nano, por exemplo, que jamais teriam acesso a uma empresa de papel e lá tiveram contato com três empresas de papel e conseguiram fechar negócio na feira. Então foi uma oportunidade legal principalmente para aqueles que estão iniciando ter aquele empurrãozinho inicial. Tivemos interesse não só de fora, mas também da Petrobras em trabalhar com empresas de nanotecnologia de Santa Catarina. A própria CBMM (Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração) teve interesse de trabalhar com empresas daqui.

 

Como está essa conversa com a CBMM?

A gente está para organizar um evento para fazer um tipo de brainstorm com a própria CBMM para saber no que mais podemos utilizar terras raras, um dos elementos mais raros, mas que a CBMM tem completo controle. Eles tem 98% de todo o nióbio do planeta e o resíduo disso são as terras raras. Então a gente está conversando porque você pode fazer várias coisas com isso. Ano passado veio o pessoal da Alemanha com a questão do laser, por exemplo, do Berlin Partner... e você pode utilizar terras raras e crescer cristais para laser para a Alemanha, por exemplo. Por que não? Você pode usar marcadores para a área biológica, tem várias áreas que podem ser beneficiadas. Como a biológica, de medicina veterinária, de odonto, de cosméticos, de saúde pessoal, a parte de proteger o ambiente de germes e bactérias... então isso tudo está bem disponível, é só questão dos países virem para cá e começarem a negociar e a fazer arranjos mais robustos para desenvolver estas coisas. Como eu te falei, fora do Brasil temos acesso a equipamentos melhores, a estruturas maiores e as pesquisas estão rodando há mais tempo. Então aquilo para evoluir para produto é muito mais rápido. Mas aqui nós fazemos o nosso dever de casa muito bem, o que é importante.

 

Um dos objetivos centrais do API.nano é aproximar as empresas das universidades e vice-versa. O quanto se avançou nesse sentido e o que falta fazer para avançar mais?

Olha, hoje nós temos, participando do API.nano, UFSC, UDESC, UNESC, Unisul, IFSC, Unioeste, temos algumas universidades participando. Obviamente a gente precisaria de mais interesse não só das universidades, mas que a gente tivesse um apoio maior do governo para que essa aproximação fosse feita. Mesmo porque é gratuito, não cobramos nada para os outros participarem. Isso é uma coisa que vai crescendo de boca a boca mesmo, não tem outra forma. Temos todo o cuidado, toda a preocupação de quando faz um evento pegar todo esse pessoal para participar para apresentar a informação, o que eles estão fazendo, aproximar as empresas dos pesquisadores, fazemos todo esse benchmark. Fazemos aproximação não só de pesquisador com as empresas mas das empresas com outras empresas.

 

Em algumas áreas os pesquisadores tem um pouco mais de resistência de “servir” o mercado. Os pesquisadores de nanotecnologia estão abertos, inclusive, a receber sugestões das empresas?

O que eu posso falar é que em Santa Catarina o pessoal que participa do API.nano estão muito mais inclinados a desenvolver pesquisa para chegar em um produto do que outras pessoas com quem eu já tive contato fora do Estado. Eles estão mais inclinados, eles querem fazer, a gente vai conversar com eles “Olha, queríamos fazer tal coisa”, e eles respondem “Legal, podemos fazer desta forma”. Mas ainda existe essa questão de “eu quero fazer pesquisa”, em virtude das obrigações que eles tem com as universidades e com as instituições em que eles estão lotados. Isso eu acredito que é um pouco a dificuldade que existe ainda e que não é uma resistência, mas é a questão de como funciona o sistema, que não permite que eles trabalhem da forma que eles queiram desenvolver os produtos.

 

Então o próprio sistema pede que eles façam pesquisas mais teóricas do que aplicáveis no mercado?

Eles têm que entregar artigo, artigo e artigo. E às vezes o cara tem que publicar muito artigo e não tem tempo nem para ele. Isso realmente dificulta o desenvolvimento industrial do negócio. Eles querem contribuir, só que eles estão amarrados com a obrigação que eles têm. Mas do que temos visto, está tendo essa proximidade, eles querem desenvolver e vão atrás. Eles fazem projeto com empresas, desenvolvem partes do projeto, cedem laboratório. Tem essa aproximação e eles querem fazer, mas não tem tanta liberdade assim para fazer porque tem as amarras da própria instituição e que não permitem (isso).

 

Quais serão as próximas ações e a próxima frente de atuação do API.nano?

Nós nos aproximamos bastante e temos uma parceria muito legal do pessoal da SBMAlt (Sociedade Brasileira de Métodos Alternativos à Experimentação Animal). Então estamos muito preocupados com esta questão de testes de nanomateriais e fazer testes químicos em geral sem animais. Estamos bem próximos deles, que estão nos ajudando nesse projeto de normas e de procedimentos. Vai ser baseado esse projeto, até porque há um bom contato, com a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico). Nós vamos usar os guias e as orientações da OCDE para trabalhar com o desenvolvimento de nanomateriais, isso é uma coisa que estamos fazendo. E isso a nível mundial. É algo que vai influenciar Santa Catarina, talvez o Brasil, por sermos pioneiros, mas essa questão de utilizar essas normas vai muito além do que o Brasil está desenvolvendo. Nós estamos pegando na fonte e pretendemos fazer o que o mundo pensa, não o que algumas pessoas pensam. Essa é a nossa preocupação.

 

Vocês estão trabalhando em mais de uma frente nesta questão da segurança do setor, então?

Temos a questão de não utilizar animais, a questão de nanosegurança cada vez mais forte dentro do API.nano, e a questão também de focar mais esforço para conseguir concretizar o Centro de Inovação em Nanotecnologia em Santa Catarina. Esse é um desejo forte nosso e um objetivo que temos e que vamos conseguir. E incentivar cada vez mais o crescimento de novas empresas. Nós temos um planejamento para o fortalecimento da nanotecnologia em Santa Catarina. Dentro deste projeto temos a nanosegurança, a criação de um comitê, de um órgão que vai poder ir até o ponto de validar se o teu produto é seguro ou não para ser vendido. Então provavelmente você vai ganhar um selo ou uma etiqueta para poder garantir que está dentro da norma. Isso vai afugentar os aventureiros que querem se beneficiar destas questões. Isso é importante e vamos conseguir fazer isso. Estamos trabalhando para isso.

 

Existe alguma previsão para quando vocês conseguiriam estar aptos a dar este tipo de certificação?

Ainda não tenho uma projeção definida, mas é um dos objetivos de estruturar isso até o final deste ano, esta questão de normas e procedimentos, para poder fazer esta questão de certificação. Para isso temos uma parceria bastante integrada com a UDESC, o pessoal do LabGES, o pessoal do professor Carlos De Rolt. Então para você ver que estamos fazendo isso junto com a universidade para tentar trazer isso para dentro da indústria.

 

Outros países já tem essa certificação para produtos de nanotecnologia?

A gente fez um benchmark no mundo e vimos que Taiwan tem, Tailândia e o Irã tem algo relacionado com nanosegurança. Então esses são os países. Engraçado o Irã, né?

 

Curioso. E na Europa nenhum país tem essa certificação?

Na Europa não. Eles são muito conservadores nesse aspecto. Sobre a segurança relacionada (com a nanotecnologia) eles até tem, mas o negócio é que não existem normas nacionais ou internacionais que definem isso. Agora está nascendo isso. Certificação ainda ninguém tem. O pessoal da Dinamarca tem a base de dados de produtos com nanotecnologia dos quais ele coloca então informações sobre toxicidade. É uma base grande que eles têm e já está bastante avançada, inclusive lançaram um relatório este ano, faz pouco tempo, em que produtos convencionais como negro de fumo, que é a fuligem que se usa hoje no pneu, são nanopartículas de carbono e outros materiais nano, isso não tem impacto nenhum no meio ambiente. O que é produzido, o que é utilizado... eles mediram o esgoto, a água e vários outros aspectos e encontraram uma concentração muito abaixo do que poderia ser um problema. Então eles fizeram um relatório enorme a respeito da ausência de impacto ambiental dessas nanopartículas em especial para o meio ambiente. Eles estão trabalhando muito firme nisso, mas ainda não tem essa certificação.

 

Sendo assim, seríamos um dos primeiros a adotar uma certificação como esta?

Sim, seríamos o quarto país no mundo. É assim que queremos continuar sendo pioneiros. Estamos fazendo isso de forma privada, sem apoio do governo, até porque queremos dar garantia para aqueles que estão conosco. A gente não pode garantir para aqueles que não estão conosco. Então vamos trabalhar, dentro do nosso ambiente, para a garantia da segurança, da sustentabilidade e da responsabilidade daquilo que se faz dentro do nosso ambiente. É com isso que nos preocupamos bastante. Essas são as nossas próximas metas.

 

Vocês lançaram, no ano passado, um livro pioneiro sobre nanotecnologia no país. Ele começará a ser vendido este ano. Qual é a expectativa para ele?

A editora que pegou esse projeto é a Cengage Learning, a mesma editora que faz os livros da National Geographic, por isso esperamos uma boa divulgação desse livro. Pelo nome da editora e pelo histórico dela. O pessoal foi muito profissional e trabalhou bastante. Eles tem um carinho enorme pelo livro porque eles falaram “Olha, é um projeto especial e de tamanha relevância que nós não tínhamos visto um trabalho como esse até hoje no Brasil”. Eles esperam um bom resultado de vendas para o livro.

 

Vocês já tem a data exata de quando ele será lançado por essa editora?

Não ainda, mas a expectativa é que ele saia ainda em março. Esse mês ainda. Eles apresentaram o livro para várias pessoas do Brasil porque é sempre feita uma avaliação sem saber quem é o autor e ele foi muito bem avaliado. O pessoal gostou muito, mesmo porque ele fala o aonde você encontra a nanotecnologia na Natureza, como que você mede (ela), quais são as propriedades físico e químicas, biológicas dos nanomateriais, como você mede essas características e propriedades, como você produz nanomateriais de diversas maneiras e diversos métodos, quais os equipamentos que você usa para fazer a mensuração, como é que você alia a questão de exposição... no caso você está exposto ao material e como você relaciona isso com a exposição ao perigo e ao risco, como é que você avalia risco, segurança e como você pode usar esse livro que é um guia de boas práticas para definir um processo seguro para trabalhar com nanomateriais utilizando todos esses indicadores. Então você pode criar.

 

Esse livro é quase um manual para quem quer empreender em nanotecnologia, não?

Ele é um livro realmente para quem trabalha com nanotecnologia e vai usá-lo diariamente, é para quem estuda, para os nossos governantes entenderem melhor da onde vem a nanotecnologia e porque da nanotecnologia, quais os benefícios dela, e servir como uma ferramenta para um marco legal em nanotecnologia no país. Porque você lá tem ferramentas de análise de risco que são primordiais para se criar políticas públicas, então você consegue ter um número, um índice, um valor para saber se dentro de um certo enquadramento o produto é seguro, inclusive para a questão da certificação. Essa é a nossa preocupação. Então o livro é bastante completo nesse aspecto. Ele vai servir para educar as pessoas que estão vindo nas pós-graduações, das graduações, espero que seja um grande sucesso nesse sentido, porque o objetivo de escrever esse livro foi muito mais de educar. Hoje você fala muito de nanotecnologia no mundo, você digita “nanorobô” no Google e aparece um monte de coisa que não tem nada a ver com nanotecnologia.

 

Há muito interesse sobre o assunto mas pouca informação confiável a respeito de nanotecnologia.

Exatamente. E você vê muitos conceitos errados e que não fazem parte da nanotecnologia. Então nós temos que desmistificar e quebrar esses conceitos. O livro vem no sentido de dar informação fidedigna para quem está interessado no tema.

 

Existe alguma expectativa para levar esta obra para o mercado internacional, quem sabe publicando em outros países, já que é uma obra de referência?

Não temos expectativa para levar para fora, mas eu já apresentei o livro para pessoas há um tempo para diretores de empresas de nanotecnologia fora do país e até pessoas que fazem parte do conselho de normas internacionais e eles adoraram o livro. Eles inclusive podem até participar de uma futura versão que seria em inglês. Temos todo o interesse de publicar em outras línguas, com certeza. 

 

 

Publicidade
Publicidade
Publicidade