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Os principais fatos da economia de Santa Catarina e do país com uma leitura descomplicada e acessível, evitando o “economês” e buscando sempre traduzir os assuntos mais importantes da área econômica para os leitores do ND. 

José Antônio Galizio Neto: "Santa Catarina ainda vai receber muitas indústrias"

Empresário paulista que criou em 2007 o estaleiro Intech Boating na Grande Florianópolis voltou-se para o mar quando adotou Santa Catarina para morar

Alessandra Ogeda
13/12/2014 10h00
Daniel Queiroz/ND
Fundador da Intech Boating, que fabrica os iates com a marca italiana Sessa Marine no Brasil, acredita no crescimento do setor

 

O empresário José Antônio Galizio Neto, 58 anos, fez como muitos de seus conterrâneos de São Paulo: veio para Santa Catarina passar férias e nunca mais saiu daqui. Há 32 anos Neto atendeu ao chamado de um tio para passar uns dias em Camboriú. No fim, ele ficou morando ali por cerca de cinco anos, quando se casou pela primeira vez e mudou-se para Florianópolis. Na Capital, no início dos anos 2000, Neto resolveu virar de frente para o mar e abriu uma operadora de mergulho, negócio que o levaria a criar a Intech Boating, referência em estaleiro no Estado.

O avô do empresário era taxista em São Paulo, e o pai dele, vendedor autônomo. O gosto pelo mar não foi herdado por Neto, mas morando em Florianópolis ele se sentiu fisgado pelas águas. "Quando abrimos a operadora (de mergulho), sentimos a necessidade de um barco especial, que não existia no mercado", conta. Foi aí que ele fez o primeiro barco. Depois veio o segundo, o terceiro, e ele não parou mais.

Por algum tempo Neto seguiu com a prestação de serviços, com manutenção náutica e pesca oceânica, além de plantar morangos em Rancho Queimado. Em 2007, Neto fundou a Intech Boating, em São José, inicialmente focada em barcos de uso profissional. O grande salto da empresa ocorreu no final de 2010, quando Neto conversou com o empresário Massimo Radice, fundador da reconhecida marca de iates Sessa Marine. Em fevereiro do ano seguinte surgia a Sessa Marine Brasil.

No ano passado, a Intech Boating inaugurou uma nova e moderna fábrica em Palhoça e lançou o modelo Fly 42, que surpreendeu. "Projetei (fabricar e vender) seis unidades por ano, mas agora já estamos fazendo a décima (este ano)", conta Neto. Custando a partir de R$ 2,04 milhões, o F42 é a joia da coroa da empresa que tem representantes em Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Brasília, Minas Gerais e Recife. "Estamos buscando parceiros em outros Estados, especialmente no interior de Goiás, Mato Grosso do Sul, Belém e Fortaleza", conta Neto. Confira, a seguir, a entrevista completa com o empresário feita na sede da Intech Boating:

 

Há três anos o senhor migrou da fabricação de barcos de uso profissional para focar no negócio de lanchas de luxo. O que o motivou fazer esta guinada?

Não saímos do mercado institucional, comercial. A gente continua atendendo esse mercado. O projeto da Intech, desde o início, desde 2006 – oficializamos o negócio em 2007 – o nosso plano de negócios era que no quinto ano a gente entraria no mercado de lazer. Só antecipamos isso em dois anos. O que aconteceu é que o mercado institucional é muito sazonal, são negócios esporádicos. E fica difícil você manter qualidade, processo, engenharia e inteligência com essa sazonalidade. Então o lazer, na verdade, é projetado para manter a periodicidade na produção.

 

O que fez vocês anteciparem a entrada no segmento de lazer?

Adiantamos o tempo de entrada no mercado de lazer e houve uma redução do mercado institucional. Adiantamos porque apareceu a oportunidade. Apareceu a Sessa Marine interessada no mercado brasileiro. No nosso planejamento, a gente sabia que a construção de uma marca era um processo mais complicado, e optamos por aceitar a proposta da Sessa Marine para implantar a marca no Brasil.

 

O senhor já tinha esse contato com a Sessa Marine ou ele surgiu?

Não. Foi uma indicação de um amigo em comum. Foram duas horas de papo no último dia do ano e 15 dias depois eu estava na Itália, 30 dias depois a empresa estava aberta e 90 depois a primeira unidade já estava sendo produzida. Houve uma empatia muito grande entre a conduta da família Radice, a Rafaela, o posicionamento pessoal dela... a visão familiar de negócio combinou com o nosso propósito. Foi um casamento bem rápido.

 

No ano passado, a Intech Boating inaugurou a nova fábrica em Palhoça. O que ela trouxe de resultados para a empresa? Há perspectiva de ampliação da estrutura atual?

Vou (começar) pelo final. Quando a gente fez a opção de vir para Palhoça, nesse local, a gente já projetou a ampliação para os próximos 10 anos. Tanto que hoje nós ocupamos 30% da área disponível com a fábrica e 20% com circulação e pátio. Temos mais 50% para ser construído. Planejamento para Palhoça foi pensando na ampliação.

 

E que resultado essa unidade já trouxe para a empresa neste um ano de funcionamento?

A gente conseguiu trazer algumas inovações da Europa, da fábrica italiana. A fábrica no início do projeto já foi pensada em melhora na qualidade do ar, menor emissão de gases. Estruturalmente ela foi pensada para produzir barcos. A gente tem luminosidade natural, uso de água da chuva – temos quase 250 mil litros de estoque de água da chuva que é usado na piscina de testes. Ela é usada também para jardins e vasos sanitários. Toda a área de laminação... cada departamento tem sua parede de filtragem de ar. A gente conseguiu com isso um melhor ambiente, o funcionário está em um ambiente mais adequado. A fábrica foi projetada para ter um giro mais uniforme, engenharia e qualidade. Com isso a gente buscou aumento de produtividade e melhora da qualidade, com maior controle da qualidade.

 

Nos últimos anos Santa Catarina atraiu importantes investimentos neste segmento. O quanto incentivos fiscais como o Pró-Náutica auxiliaram na escolha do Estado pelas empresas?

O Pró-Náutica é essencial. Nos moldes normais, que se praticava antes do Pró-Náutica, não só em Santa Catarina... Acredito que Santa Catarina foi pioneiro no incentivo para o segmento náutico. Rio de Janeiro veio logo atrás, São Paulo está adotando, Rio Grande do Sul adotou. São incentivos que, sem isso, a nossa indústria não sobreviveria. Mas a opção por Santa Catarina não se deu com a Intech, mas há 32 anos atrás quando resolvi me mudar para o Estado. Há pouco ficamos em primeiro lugar no ranking de locais para investimento. Isso é verdade. A qualidade de vida que você tem aqui é mais importante. No segmento náutico, além da qualidade de vida e do Pró-Náutica, a gente tem mão de obra muito qualificada, muito interessante.

 

E essa mão de obra faz a diferença.

Faz bastante diferença. Isso a gente deve a vários fatores. Alguns culturais... Santa Catarina é um Estado produtor, que tem essa tendência industrial. E no nosso segmento a gente tem grandes estaleiros, que são formadores de mão de obra. É uma salada de coisas positivas que melhoram o mercado para o segmento. E eu acho que Santa Catarina ainda vai receber muitas indústrias. Pelo menos meus colegas de São Paulo e do Rio, não só da indústria, mas do negócio náutico como um todo, donos de marinas, lojas de varejo, pessoal que faz importação, logística... nós já temos as duas maiores... não se divulga isso, mas a regata (Trasat Jacques Fabre), por exemplo, está com centro logístico em Itajaí, e a Marina Express, que é uma grande fornecedora de insumos também está com centro logístico em Tijucas, usando os portos de Santa Catarina, usando o processo de importação em Santa Catarina. O que também é outra vantagem. O porto daqui é mais eficiente que o porto de São Paulo, os despachantes são mais rápidos, o custo é menor. Como eu falei, é uma salada de coisas positivas.

 

Normalmente o industriário fala da falta de mão de obra qualificada. O segmento náutico não sofre com esse problema?

Eu não seria tão positivo assim. É mais fácil pra gente investir em treinamento, cuidado com os funcionários. Existe um pouco de cultura. Não quero fazer comparativos, mas a gente entende que os nossos funcionários, pelo menos... talvez a gente tenha tido sorte nas escolhas, a longevidade no emprego é importante, a relação com a empresa, vestir a camisa, eles estão envolvidos. Isso me parece ser uma coisa mais cultural. Eu pelo menos sinto dessa maneira. Mas nesse sentido que eu falo. Eles estão muito mais dispostos a aprender, a evoluir, a crescer. Acho que o nível de informação, todo o nível cultural influencia nesse sentido.

 

Quais são os principais desafios para o crescimento do setor nos próximos anos?

A gente projeta um futuro de curto prazo muito difícil. Hoje nós estamos vivendo uma crise muito complicada. Falta muita infraestrutura. Hoje qualquer pessoa que queira comprar um barco... é mais fácil comprar o barco do que arrumar um lugar para guardar e manter. Existem poucas marinas. Marinas de serviço, principalmente.

 

O senhor fala isso a respeito de Santa Catarina ou do Brasil?

Brasil. E em Santa Catarina, por essa atribuição de qualidade de mar, da costa, esse problema acaba se agravando. Porque existe uma cultura de se usar o mar, de ter barco, de navegar, mas existe o impedimento por falta de infraestrutura.

 

Uma crítica clássica de várias pessoas do setor é de que nós viramos as costas para o mar.

É fato. Mas acho que essa discussão é um pouco mais profunda. Não é só virar as costas para o mar, é não entender o que o mar pode te proporcionar. O que o uso da costa pode proporcionar. Quando se fala em construir uma marina aqui, se fala em elite, só o rico pode usar. Mas espera um pouquinho, o dinheiro foi feito para ser distribuído.

 

Normalmente não se vê toda a cadeia econômica que surge por causa de uma embarcação destas.

Não se vê a cadeia. Cada barco em fabricação gera sete empregos. Depois que ele foi para a água, são nove (empregos). Ele tem uma vida longa, vai precisar de um marinheiro, de um cara para limpar, da própria marina, do técnico, do tratorista, do cara do lifting, do eletricista, do mecânico, do engenheiro... ele tem uma cadeia. Não se olha pra isso, em primeiro lugar. Em segundo lugar, quando se fala em fazer marina, se fala em poluição, meio ambiente... e é justamente o contrário. Hoje nós estamos em um momento em que os Estados Unidos, por exemplo, estavam há 25 anos atrás. É uma distância bastante longa.

 

Como é a realidade do setor nos Estados Unidos?

O ano retrasado eu fui para o Boat Show de Miami fazer um testdrive em um barco. Eu subi no barco, que estava em uma marina maravilhosa, e quando olhei para a água, ela totalmente cristalina, e tarpões de 20, 30, 40 quilos passeando pela marina. E as crianças brincando ali, no tarpão. Havia vida, eu vi um povo... Existem regras. Não precisa se criar nada. As barreiras ambientais devem existir, devem ser regradas, e não precisa se criar (nada). Os exemplos estão aí. O que a Itália fez com a indústria náutica, também é prova. O modelo italiano foi muito interessante. Os estaleiros começaram a aparecer, a Itália começou a ficar reconhecida pelo desenho, pela engenharia, mas não tinha marinas. O governo italiano criou uma fundação, criou um centro de custos, vamos dizer assim, incentivou a constituição das marinas, e hoje o Brasil tem 10% dos barcos navegando da Itália.

 

Interessante o senhor citar isso, porque o Brasil criou uma empresa, a Valec, para incentivar a construção de ferrovias, mas não tem nada nesse sentido para a infraestrutura marítima.

Essa é a essência. Você cria a infraestrutura... É como você querer atravessar a ponte agora e não ter aonde estacionar no Centro de Florianópolis. Você precisa da infraestrutura para ter o barco, para você chegar, ter os serviços, ter a manutenção. Esse é um grande entrave porque isso acaba afastando um pouco o público do mercado. Você tem poucos iates clubes, todos fechados. E a marina pública, que é o que eu mais defendo, ela tem cunho social também. Ela obrigatoriamente, por ser pública, envolve a comunidade, abre os acessos, ela é obrigada a licitar os serviços, por exemplo. Ela acaba abrindo muitas oportunidades.

 

Outro ponto importante que o senhor comentou foram as questões ambientais. Algumas vezes não se discute muito a implantação de estruturas cheias de regras, como as marinas, quando ao mesmo tempo não se cuida da poluição das águas que independe destas estruturas?

É até chocante. Ah, não posso ter uma marina na Beira-Mar porque ela é uma atividade agressiva ao meio ambiente. Desculpa, mas nós temos 15 metros de lodo, de dejetos no canal da baía norte, que está se assoreando...

 

A legislação envolvendo as estruturas das marinas é adequada no país?

Ela é adequada. O que falta é um pouquinho de abertura de incentivo e aplicar projetos, fazer um plano de manejo, de ocupação, um projeto de impacto. Saber exatamente qual é o impacto. Ter um barco que sem uma coleta de dejetos, (com) uma energia limpa, regras de uso, não é prejudicial ao meio ambiente. Muito pelo contrário. Quando você coloca uma estrutura, você acaba criando vida. Comprovadamente onde você coloca uma estrutura náutica você revitaliza o meio ambiente.

 

Santa Catarina ocupa o terceiro lugar na produção de barcos de esporte e lazer no país. O que é preciso fazer para consolidar o pólo náutico do Estado e fazer ele galgar posições neste ranking?

Acho que se tudo continuar como está e a gente se voltar um pouquinho de frente para a nossa costa, ter um pouco de infraestrutura, a gente está caminhando para isso. Eu não sei se com a vinda dos dois estaleiros nos últimos anos, a Brunswick e a Azimut, a gente não está mais perto do Rio do que a gente imagina. Estamos muito próximos.

 

A venda de embarcações de luxo não sofre com a crise? Quais são as perspectivas para 2015 e os anos seguintes?

Passamos por crise. Somos os primeiros a sentir. O nosso cliente é o empresário. É o cara que já conquistou muita coisa e agora está querendo ter um pouco de prazer, desfrutar das conquistas. Mas ele ainda é empresário, é empreendedor, está preocupado com o negócio, com os empregos, então há uma retraída natural. Estão falando muito da evasão de divisas, não é? A gente tem conhecimento de alguns clientes que estavam em negociação com a gente que resolveram comprar o barco em outro país. E compraram. O momento que o país está vivendo... nós já sentimos.

 

E foi nesse ano que se sentiu isso ou já no ano passado?

Do início da campanha eleitoral para cá... acabou a Copa do Mundo... até a Copa do Mundo a gente vinha bem. A competição represou, paralisou os negócios durante o período da Copa. Logo em seguida houve uma demanda, e no início da campanha eleitoral as coisas deram uma esfriada. Parece que houve uma onda de medo, de expectativa. E agora, com essa história da Petrobras, com tudo que está acontecendo... a gente não pensa em nada. Para combater isso, para saber como vamos passar por isso, a gente também resolveu pensar um pouco. A gente tinha alguns projetos em andamento, pensávamos em alguns projetos... não paralisamos, mas diminuímos o ritmo. Estamos preparando para usar esse período que vem daqui pra frente para fazer alguma reestruturação, reengenharia, e esperar poder passar por isso.

 

Qual é a expectativa do senhor para 2015?

Eu sempre acredito no Brasil. Então acho que o Brasil é cíclico, ele tem uma capacidade de recuperação importante, daqui a pouco alguma mágica se faz e tudo se resolve. Tem que acreditar e trabalhar.

 

Mas a economia vai precisar ter uma retomada para que o setor do senhor se recupere.

Acho que não é a economia. A nossa economia vinha bem. A gente vinha com alguns modelos de ajuste... é tudo muito novo. Quantos anos tem o Brasil, de verdade? O Brasil democrático, quantos anos tem? Quantos anos nós temos uma indústria que está querendo fazer parte de um primeiro mundo? Acho que o Brasil é muito novo, tem muito para aprender e para se acomodar. O problema hoje é a falta de confiança, falta de vontade mesmo. Acho que o empresário brasileiro está desiludido.

 

E qual é a origem dessa desilusão?

Puxa vida, eu não tenho caixa para pagar as minhas contas no final do ano, mas olha o quanto eu paguei de imposto... A Intech está pagando este ano, mais ou menos, R$ 12 milhões de impostos estaduais e federais. O meu caixa, o meu resultado vai fechar perto de zero no final do ano. Esses R$ 12 milhões que eu paguei para o governo poderiam estar aqui fazendo muita coisa, gerando muito emprego. E foi para lá... tinha que voltar de alguma maneira. Acho que esse é o nosso maior problema. Hoje não dá mais vontade de pagar os impostos, você não tem retorno.

 

O problema não é pagar o imposto, mas não ter o retorno. A falta de infraestrutura, que o senhor citou antes, cobra que preço da sua empresa?

De 3% a 4% do custo do barco é de logística. Isso porque eu entrego na porta da fábrica (nestes caso, não tem que transportar as embarcações até os clientes).

 

Essa é a primeira vez que o senhor vai fechar o resultado do ano perto de zero?

É o segundo ano que isso acontece. E olha só que interessante isso, que conta legal. A Intech está fazendo em fevereiro oito anos. Tivemos oito anos de crescimento de vagas, de postos de trabalho. Vertiginoso. Hoje temos 130 (funcionários), começamos com 13. Nosso faturamento, devemos ultrapassar a casa dos R$ 45 milhões este ano... R$ 33 milhões no ano passado, R$ 23 milhões no ano anterior, R$ 16 milhões no anterior, R$ 6 milhões e R$ 600 mil (no primeiro ano). A nossa curva de ascendência é vertiginosa. Número de unidades produzidas: no primeiro ano, uma unidade. Nesse ano, 42. E eu estou fechando o resultado perto de zero.

 

Mas o resultado deste ano perto de zero tem a ver com os investimentos que a empresa fez.

Claro. Fizemos muito investimento, criamos postos (de trabalho), construímos a fábrica (no ano passado), tomamos algum capital.

 

E o senhor fez isso pela perspectiva de que em 10 anos este investimento vai ser diluído.

O nosso projeto é para 10 anos. Para ser satisfatoriamente rentável para 10 anos. Fechar perto de zero é algo programado, mas é muito difícil você conviver com isso. Você ter um resultado positivo e no final do ano você não poder comprar o seu barco (risos).

 

Imagino que os investimentos que o senhor faz são muito altos. Algumas vezes a dificuldade no Brasil é a empresa ter acesso ao crédito. Como foi conseguir o crédito para estes investimentos?

A gente nunca teve problema com crédito, mas acho que poderia ser um crédito de melhor qualidade. A gente sempre contratou muito bem. Até essa semana (no final de novembro), fazendo uma tentativa de renegociação, parei no meio do caminho porque nós fizemos boas contratações. A gente toma muito cuidado com isso. Não pegar dinheiro muito ruim, muito caro. Agora, isso se deu por conta da nossa história. Nós construímos esse crédito. Eu vejo colegas meus que tem muita dificuldade de tomada de crédito. Nós conseguimos manter um bom poder de captação de crédito porque somos adimplentes com todos os fornecedores, pagamos todas as nossas contas, nossos impostos, o direito dos trabalhadores, e isso acaba te construindo uma situação favorável de crédito. Eu não sei se eu consigo manter isso. É uma qualidade que a Intech tem, mas o momento político e econômico está praticamente nos tirando desta condição.

 

E neste cenário não se faz mais urgente a desoneração para investimentos, como defende a CNI (Confederação Nacional da Indústria) e o ministro Afif Domingos?

Qual é o maluco que resolveu ser empresário na vida um dia e que não queira investir? Não vou nem pelo caminho de ser necessário investir e crescer... nós somos loucos. A gente é meio doido. A gente quer ver o negócio crescer, quer mais funcionário, quer mais produtos, mais negócios, investir mais. É uma tendência do empresário. Estou falando do pequeno empresário. Existem quantos como nós? Acho que 80% das empresas brasileiras estão nessa faixa de faturamento. Todos nós, eu tenho certeza disso, somos empreendedores, que queremos ir pra frente com qualidade e com inteligência. E desonerar o investimento é superimportante. Facilitar o dia a dia.

 

Essas mudanças são fundamentais para o país voltar a crescer.

Nós somos hoje 16 funcionários indiretos na administração, de diretoria a contábil e financeiro, e por incrível que pareça, destes, nove trabalham exclusivamente com as questões fiscais e contábeis. Não tem envolvimento com a produção. Além do escritório de contabilidade, da assessoria jurídica, eles estão só para resolver o dia a dia. Então, que país é esse? Tenho alguns amigos... pequenos estaleiros ligam, telefonam, tomamos uma cerveja, e eles perguntam como eu faço e como eu fiz. Eu digo só tem uma maneira de fazer isso: é ter coragem de pagar imposto. Paga imposto e paga tudo que você consegue. Faz uma pesquisa rápida, pega 10 empresários que você conhece, e pede todas as negativas destes caras. A gente não consegue mais estar bonitinho, com tudo certinho. É muito difícil. Tem que facilitar isso, há muitos entraves. 

 

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