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Assuntos da Grande Florianópolis e os temas cotidianos das cidades da Região Metropolitana – incluindo resgates diferenciados da memória histórica –, são acompanhados de perto pelo colunista Carlos Damião, que tem mais de 30 anos de vivência profissional.

Peças de importante arqueólogo catarinense estavam no acervo do Museu Nacional

Jorge Bleyer, médico alemão radicado em Lages, foi um dos mais importantes pesquisadores do Estado no início do século 20

Carlos Damião
07/09/2018 12h46

 

O arqueólogo Jorge Bleyer, em foto registrada provavelmente na década de 1910 - Acervo família Bleyer/Divulgação/ND
O arqueólogo Jorge Bleyer, em foto registrada provavelmente na década de 1910 - Acervo família Bleyer/Divulgação/ND


Embora ainda não tenha sido realizado um inventário de tudo o que virou cinzas depois do incêndio do Museu Nacional do Rio de Janeiro, é muito provável que entre os 20 milhões de itens do acervo daquela instituição, inteiramente queimados na noite de domingo (2) e madrugada de segunda-feira (3), estivessem peças doadas pelo médico e arqueólogo catarinense Georg Carl Adolf Bleyer, que desenvolveu suas pesquisas entre o fim do século 19 e início do século 20 em sítios arqueológicos de Santa Catarina. Doutor Jorge Bleyer, como era mais conhecido em Lages - cidade que adotou para morar depois de ter residido em Blumenau - nasceu em Hannover, na Alemanha, em 1867, chegou ao Brasil em 1892 e morreu na cidade serrana catarinense em 1955.

O cientista foi um dos precursores da arqueologia no Estado, num período subsequente aos trabalhos de Charles Wiener (do Museu Nacional) e Fritz Müller. O primeiro pesquisou sambaquis na Ilha de Santa Catarina e Vale do Itajaí. Müller, na Armação da Piedade (Ganchos).

O arqueólogo Rafael Guedes Milheira assinala em sua tese de doutorado “Arqueologia Guarani no litoral sul-catarinense: História e Território”: “Na primeira década do século 20, Bleyer começou pesquisas no planalto meridional, mais especificamente em grutas do interior. Por meio desses trabalhos conseguiu montar uma vasta coleção de vestígios ósseos humanos que serviu de base para seu trabalho mais tarde publicado: “Contribuição para o estudo dos trogloditas das cavernas no planalto do Brasil” (1918/19).

No inventário de sua produção científica, publicado pelo Instituto Adolfo Lutz, destaca-se: “Vários de seus numerosos achados arqueológicos, que incluem peças de fósseis humanos e diversos artefatos singulares, foram doados para instituições científicas no Brasil e na Europa, como o Museu Nacional do Rio de Janeiro, o Natural History Museum de Londres, o Provinzial Museum de Hannover, a Escola Real de Medicina de Dublin, Irlanda, e outras instituições médicas ou arqueológicas europeias. Muitas de suas investigações permanecem ainda inéditas, aguardando publicação”.

 

Auxiliar do arqueólogo com ossos coletados numa caverna do Planalto Serrano catarinense - Acervo família Bleyer/Divulgação/ND
Auxiliar do arqueólogo com ossos coletados numa caverna do Planalto Serrano catarinense - Acervo família Bleyer/Divulgação/ND


Em busca do homem das cavernas brasileiro

O empresário Silvio Bleyer, bisneto do médico e arqueólogo, diz que os descendentes o comparam a “Indiana Jones”, em referência ao personagem cinematográfico que foi imortalizado pelo ator norte-americano Harrison Ford entre as décadas de 1980 e 1990. Jorge Bleyer deixou grande descendência porque, casado com a lageana Adelaide Augusta Neves, teve 11 filhos. Mesmo com família numerosa e os afazeres da medicina, encontrou tempo e utilizou recursos próprios para realizar suas pesquisas, tanto no campo da medicina natural, quanto na arqueologia, reconhecidas no Brasil e no exterior. Destacou-se como médico higienista (numa visão simplificada, ele seria o que se chama hoje de médico sanitarista, mas com profundo conhecimento baseado em investigações científicas), foi médico militar e o descobridor da “Doença de Chagas” em Santa Catarina.

Sua neta Terezinha de Jesus Thibes Bleyer Martins Costa publicou artigo em 2003 intitulado “Caminhos percorridos pelo dr. Jorge Clarke Bleyer” nos campos da medicina tropical e da pré-história brasileira na revista "História, Ciência, Saúde-Manguinhos" - Vol 10, número1, Rio, Jan/Abr 2003.

No trabalho, Terezinha refaz a trajetória de vida e obra do avô, lembrando seus vínculos com as pesquisas arqueológicas. A certa altura observa: “Um de seus achados foi uma calota craniana humana junto a resíduos de festins canibais, totalmente mineralizada e com sinais de golpes brutais que haviam separado a epífise da diáfise. Encontrou também um crânio de fronte esbatida parecido com o tipo neandertalóide e muito semelhante à calota encontrada na serra do Uruburetama, Ceará, pelo dr. Lund. O crânio foi doado por Bleyer ao Museu Nacional e lá se encontra até hoje” (2003).

Também do artigo da neta Terezinha: “Em cada localidade em que residiu (ele mudava muito de cidade por causa da atividade médica), Bleyer empreendeu investigações antropológicas interessantes e valiosas. No município de São Joaquim, em 1914, fez, com seus próprios recursos, custosas viagens com o objetivo de obter evidências que ajudassem a esclarecer a controvertida questão da origem do homem no Brasil. Embrenhou-se nas matas, percorreu serras, visitou grutas, acompanhado apenas de alguns auxiliares para ajudá-lo nas escavações. Encontrou vários espécimes que julgou terem pertencido a época geológica muito remota. Pretendia demonstrar que há milhares de anos vivera no Brasil o homem das cavernas, com costumes similares aos dos trogloditas da era quaternária”.

 Trogloditas canibais

Num recorte de jornal muito antigo, provavelmente da primeira década do século 20, consta este registro, que comprova o prestígio de Bleyer junto ao Museu Nacional e à comunidade científica:

"As coleções paleo-antropológicas do Dr. Bleyer, de Santa Catarina"

- Sob este título escreve-nos o sr. dr. Lacerda (João Batista de Lacerda), diretor do Museu Nacional, o seguinte:

'Há já alguns anos que o dr. Bleyer, bem reputado médico alemão, domiciliado em Lages, Santa Catharina, se entrega a explorações antropológicas em pontos vários do território daquele Estado, colecionando documentos que possam servir de base à história do homem primitivo do Brasil.

Nesse afã, impelido pelo desejo ardente de trazer valiosas contribuições à classificação de importante problema, ainda hoje cercado de dúvidas e obscuridades, empreendeu custosas viagens, embrenhou-se nos sertões desertos, ou apenas habitados por hordas selvagens e aí, com um pequeno grupo de exploradores mercenários, que ajudavam nas escavações do solo das cavernas e dos abrigos sob rochas, teve a rara felicidade de recolher documentos humanos que devem pertencer a uma época geológica tão remota como outros não ainda achados, e que pela sua perfeita conformidade do lugar e condições de jazida e pelos sinais de extrema antiguidade dão um amostra dos trogloditas canibais, que viveram há muitos milhares de anos nas cavernas e nos abrigos sob rocha desse território”.

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