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Terça-Feira, 11 de Dezembro de 2018
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Assuntos da Grande Florianópolis e os temas cotidianos das cidades da Região Metropolitana – incluindo resgates diferenciados da memória histórica –, são acompanhados de perto pelo colunista Carlos Damião, que tem mais de 30 anos de vivência profissional.

Felipe Schmidt, uma rua de muitas histórias e personagens

Implantada em três etapas, ela já foi a principal via do Centro e ligava a Praça 15 à Ponte Hercílio Luz

Carlos Damião

Aspecto da via na década de 1960, muito antes de virar calçadão - Acervo Museu Koerich/Divulgação
Aspecto da via na década de 1960, muito antes de virar calçadão - Acervo Museu Koerich/Divulgação


Uma rua estreita, de leito simples "carroçável", como se dizia antigamente, assim se apresentava a Felipe Schmidt até 1928. Era igual às atuais ruas João Pinto, Tiradentes, Victor Meirelles e Fernando Machado, com grande parte de suas primeiras quadras composta por casarões de estilo colonial. Essas edificações foram totalmente demolidas para que, no início da década de 1930, a via ganhasse sua largura atual e possibilitasse a passagem de dois veículos emparelhados.

Rua dos Moinhos de Vento, Rua Bela, Rua Bela do Senado, Rua do Senado, Rua da República, finalmente Rua Felipe Schmidt, em homenagem a um dos primeiros governadores republicanos. Foi durante muito tempo a principal rua do Centro, ligação entre a Praça 15 de Novembro e o cemitério municipal, onde hoje se localiza o Parque da Luz. Mas nem sempre teve toda essa extensão: no século 19 ia da praça até o Largo Fagundes, depois ganhou mais um trecho, até a esquina com a atual Avenida Rio Branco e, finalmente, o último trecho até a esquina com a Rua Almirante Lamego e intersecção com a Avenida Rubens de Arruda Ramos (Beira-Mar Norte).

Uma referência para os encontros da cidade

A Felipe Schmidt foi fundamental para dar vazão ao tráfego em direção à Ponte Hercílio Luz. Mas cresceu também sendo um grande espaço comercial até a altura da Jerônimo Coelho, onde havia magazines, lojas pequenas e médias, agências bancárias, bares e cafés. Por causa dos cafés tornou-se um ponto de romaria obrigatória de homens de negócios, políticos e, claro, dos bordejadores. O último dos cafés, que resistiu mais de 50 anos, foi o Ponto Chic, na esquina com a Trajano, local para onde o presidente João Figueiredo foi levado, com sua comitiva, no dia da Novembrada (30 de novembro de 1979). Naquele dia, Figueiredo tomou um cafezinho, acompanhado pelo governador da época, Jorge Konder Bornhausen, mas ouviu poucas e boas pelo caminho, feito a pé.

  Ponto Chic nos bons tempos, provavelmente década de 1970: ponto de encontro - Divulgação
Ponto Chic nos bons tempos, provavelmente década de 1970: ponto de encontro - Divulgação


Senador Alcides Ferreira, figura inesquecível

É preciso lembrar também que a rua teve outro célebre ponto de encontro da cidade, a Confeitaria do Chiquinho, no prédio onde funciona hoje uma filial das Livrarias Catarinense. E seu hotel Lux, construído na década de 1940, atualmente um edifício comercial, era um dos favoritos dos viajantes de classe média, tendo um piano-bar que atraía os florianopolitanos mais abonados, além dos hóspedes. O Ponto Chic – Senadinho – ficava em seu térreo. No Senadinho, quem pontuava era o funcionário público Alcides Hermógenes Ferreira, conhecido como Senador, por causa de seu porte elegante e impecável. Andava quase sempre de ternos de linho, exibindo uma vistosa gravata borboleta. Dialogava com a esquerda e a direita, com ricos e pobres, e tinha uma verve humorística incomparável. Foi, durante mais de 40 anos, um personagem fundamental do centro de Florianópolis, amigo inseparável de Hercília Catarina da Luz, filha de Hercílio Luz, que tinha um cartório na Rua Deodoro. Andava pelas ruas sempre de braços dados com Ciloca, apelido da cartorária. Outros companheiros constantes do Senador eram o colunista Beto Stodieck e o jornalista e cineasta José Hamilton Martinelli, o Martina.

Um lugar que atraía paqueradores e pedintes

No passado a Felipe Schmidt também foi a rua da paquera, por onde passavam as moças que praticavam o footing – “passeio a pé”, até a década de 1960 – para serem assediadas pelos rapazes. E ainda era a rua favorita dos homens, casados ou solteiros, que se aglomeravam para observar as "meninas do Coração de Jesus", adolescentes que desfilavam com suas saias plissadas de cor bege. O assédio era maior nos dias de vento Sul mais “virado”, é claro.

Não era uma rua de desocupados, mas havia muitos deles, que "alugavam" os políticos com os pedidos mais prosaicos, de uma moeda ou um cigarro a um emprego no governo. As autoridades circulavam por ali durante muito tempo, porque o Palácio do Governo (atual Palácio Cruz e Sousa) ficava a poucos metros, assim como a sede da Câmara dos Vereadores (no Palácio Dias Velho), a Assembleia Legislativa e o Tribunal de Justiça (na Praça Pereira Oliveira). Ou seja, representantes dos três poderes frequentavam os cafés que marcaram época e eram pontos naturais de atração para os encontros políticos e o bate-papo descontraído.

Personagens folclóricos marcaram o cotidiano

Como a Felipe Schmidt era o "centro nervoso" dos negócios, da política e da paquera, também concentrava personagens folclóricos, como a "Lourdes da loteria" e Ademar, o jornaleiro de "O Globo", que tinha uma voz de barítono (berrava “O Glôôôôbo” assustando os passantes). Lourdes abordava os frequentadores da região oferecendo bilhetes da Loteria Federal. E tinha um modo peculiar de se relacionar com o público, formado geralmente por homens: "Bilhetinho, engenheiro?" ou "Bilhetinho, advogado?", ou ainda "Bilhetinho, deputado?". Claro que as ocupações das pessoas não eram essas, mas era o jeito peculiar da vendedora oferecer o seu produto.

Obras do calçadão, há 40 anos: uma mudança radical para a cidade - Acervo Museu Koerich/Divulgação
Obras do calçadão, há 40 anos: uma mudança radical para a cidade - Acervo Museu Koerich/Divulgação


Uma concentração razoável de hotéis

A Felipe Schmidt mudou muito com a implantação do calçadão, em 1976, quando Esperidião Amin foi pela primeira vez o prefeito da cidade. Mais gente passou a transitar pela via transformada em área de convivência. O calçadão foi o primeiro projeto de modernização do Centro, seguindo a linha da humanização dos espaços públicos que Curitiba adotara pioneiramente. A intenção foi boa, mas acabou restringindo a rua às atividades comerciais tradicionais, com o afastamento gradual dos pontos de encontro mais naturais, como os cafés, os bares e as lanchonetes.

Nos trechos mais afastados, a partir do Largo Fagundes, a Felipe Schmidt nunca teve características de ponto de encontro, porque sempre foi ocupada por residências, lojas e até uma indústria – a Fábrica de Rendas e Bordados Hoepcke, cuja sede foi transferida há mais de 20 anos para o bairro Roçado, em São José. Teve, como tem até hoje, uma grande concentração de hotéis entre as ruas Álvaro de Carvalho e a esquina com a Almirante Lamego.

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