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Assuntos da Grande Florianópolis e os temas cotidianos das cidades da Região Metropolitana – incluindo resgates diferenciados da memória histórica –, são acompanhados de perto pelo colunista Carlos Damião, que tem mais de 30 anos de vivência profissional.

Eli Heil: uma personagem de seu tempo e de sua obra

Artista - que morreu neste domingo, 10/9, aos 88 anos -, quebrou paradigmas, desafiou a mesmice e tornou-se imensa

Carlos Damião
10/09/2017 22h16
Peixes, uma obra da artista mais inquietante de SC - Acervo Masc
Peixes, uma obra da artista mais inquietante de SC - Acervo Masc


Arte é ousadia, transgressão. Não existe arte “bem comportada”, como querem os fascistas que atacaram uma exposição patrocinada pelo banco Santander, em Porto Alegre. A notícia foi divulgada neste domingo, 10/9, justo no dia em que perdemos a figura de Eli Heil, a irrequieta artista visual que mudou conceitos, quebrou paradigmas, abriu sua “arte incomum” para o mundo, sendo respeitada e admirada não só pelo público, mas pelos mais exigentes críticos brasileiros e estrangeiros.

Dedicatória da artista, com uma pergunta inquietante para um jovem admirador - Acervo Carlos Damião
Dedicatória da artista, com uma pergunta inquietante para um jovem admirador - Acervo Carlos Damião


Acompanhei muito de perto a trajetória de Eli. Era adolescente ainda, estudante do ensino médio, quando fui visitar a uma de suas exposições, ainda modestas, mas impactantes, no Museu de Arte de Santa Catarina – à época ainda abrigado numa casa alugada na Avenida Rio Branco. Como ela tinha uma grande influência junto aos jovens (Beto Stodieck, nosso colunista mais brilhante, teve uma grande responsabilidade nessa projeção), aproximei-me da artista no vernissage e pedi que me autografasse o catálogo, de tamanho pequeno, em preto e branco – um paradoxo para quem sempre caracterizou seus trabalhos pelas cores fortes, mas fato compreensível para a época, de escassos recursos públicos para financiamento de atividades culturais.

Em 10 anos contínuos de trabalho em O Estado convivi diariamente com o gigantesco painel que havia na recepção do “Mais Antigo”, justo uma obra de Eli Heil, adquirida pela direção na década de 1980. Uma beleza de pintura, com os elementos característicos e transgressores que ela imprimiu à sua trajetória. Não havia visitante que não se impressionasse com aquela “viagem” psicodélica instalada na entrada do jornal.

Curioso que, quando OE entrou em crise, alguns gestores atribuíam a decadência da empresa ao “quadro da Eli Heil”, que tinha expressões assustadoras, inquietantes, bruxólicas. “Essa pintura não traz bom fluídos”, diziam. Não há notícias sobre a obra, nem sobre outras que decoravam os gabinetes da diretoria.

Estima-se que Eli produziu mais de 2 mil obras, entre telas, cerâmicas, instalações, tapeçarias, esculturas, objetos. Isso, por si, diz muito sobre essa mulher pequenina, criativa, determinada e talentosa. Alguém que, na província florianopolitana, desafiou a mesmice, tornou-se única, muito mais que artista, uma personagem de seu tempo e de sua obra.

Apresentação do diretor do Masc, professor e artista Aldo Nunes - Acervo Carlos Damião
Apresentação do diretor do Masc, professor e artista Aldo Nunes - Acervo Carlos Damião



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